Devin Booker era até à última madrugada um mero talento da NBA. Não estava no lote dos “eleitos”, também não entrava naquele grupo que tão depressa está ali como pode descer de divisão ou arriscar uma aventura no estrangeiro. Mas teve “um dia”, aquele dia onde tudo muda. E logo no TD Garden, terreno sagrado que serve de casa aos míticos Celtics. O segundo base, ou “shooting guard”, fez um total de 70 pontos na derrota por 130-120 dos Phoenix Suns, tornando-se apenas no sexto jogador de sempre (e o mais novo) a atingir a marca num só encontro.

https://www.youtube.com/watch?v=sCQwxmpZ8ZY

Filho de um antigo jogador (Melvin Booker, ex-Houston Rockets, Denver Nuggets e Golden State Warriors), descendente de porto-riquenhos e ainda com um avô mexicano, Booker quebrou todos os muros numa exibição perfeita. Foi o número 1, como aquele que tem na camisola. E aos 20 anos, ganhou o espaço que estava a ter dificuldades em encontrar, apesar dos muitos elogios que sempre lhe foram feitos.

“Pensamos que tem muito potencial e adoramos os seu caráter e ética de trabalho. Quando se está numa equipa com tanto talento como a que o Devin tinha na Universidade de Kentucky, todo esse talento pode significar possibilitar que disfarce deficiências em algumas áreas. No caso dele, era o oposto”, salientou o general manager dos Phoenix Suns, Ryan McDonough, aquando da escolha no draft de 2015.

Após ter passado os primeiros anos em Michigan, mudou-se para Mississippi com o pai antes de ingressar na Universidade de Kentucky e numa das melhores fornadas de sempre de um dos viveiros de jogadores mais prestigiados do país. Só esteve lá uma época, com uma média pouco superior a dez pontos por jogo, e declarou-se elegível para o draft a par de companheiros como Andrew Harrisson, Trey Lyles ou Aaron Harrison. Ao todo, foram sete elementos a entrarem nesse ano de 2015 na NBA.

Pelos Phoenix Suns, tornou-se em janeiro de 2016 o terceiro mais novo de sempre a marcar mais de 30 pontos num jogo (19 anos e 81 dias), apenas atrás de Lebron James e Kevin Garnett. Em março, numa partida contra os Denver Nuggets, chegou mesmo aos 35, terminando esse primeiro ano com uma interessante média de 13,8 pontos por jogo. Já na presente temporada, estabeleceu o recorde pessoal nos 39 pontos e foi batendo outros recordes paralelos nesse mundo com tanta estatística como a NBA. Tornou-se, por exemplo, o mais novo a fazer 20 ou mais pontos em 16 jogos seguidos. Mas nada com aquilo que aconteceu na última madrugada.

Parecia que estava num treino, quando estamos numa série de lançamentos seguidos sempre a acertar e parece cada vez mais fácil. É uma noite que irei recordar toda a minha vida”, comentou no final da partida Devin Booker, que teve uma segunda parte verdadeiramente de loucos com um total de 51 dos 70 pontos em dois períodos. Foi de tal forma que, no final, e também porque tinham mais uma vitória importante para celebrar, os próprios adeptos dos Boston Celtics lhe renderam uma ovação.

A título de curiosidade, apenas cinco jogadores tinham conseguido até agora marcar 70 ou mais pontos num encontro: Wilt Chamberlain (100 pontos no triunfo dos Philadelphia Warriors frente ao New York Knicks por 169-147 em 1962, entre várias outras marcas acima dos 70), Kobe Bryant (que marcou 81 pontos na vitória dos LA Lakers diante do Toronto Raptors por 122-104 em 2006), David Thompson (73 pontos na derrota dos Denver Nuggets com os Detroit Pistons por 139-137 em 1978), Elgin Baylor (71 pontos no triunfo dos LA Lakers ante os New York Knicks por 123-108 em 1960) e David Robinson (71 pontos na vitória dos San Antonio Spurs com os LA Clippers por 112-97 em 1994).