A EDP anunciou na segunda-feira uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a sua participada EDP Renováveis a um preço de 6,80 euros por ação. Que devem fazer os pequenos investidores? A maioria, nada.

Para começar, o anúncio preliminar ainda não se concretizou numa oferta. Por isso, os acionistas só podem fazer uma de três coisas: nada, reforçar ou vender na bolsa. Entretanto, as cotações subiram até 6,962 euros nesta terça-feira, 2,38% acima do preço indicado pela EDP.

Este preço é final?

Muitos investidores estão a comprar e a vender ações da EDP Renováveis na bolsa. Apenas nas primeiras sete horas da sessão desta terça-feira transacionaram-se quase 38 milhões de euros nestes títulos. E continuarão a comprar e a vender até à divulgação do prospeto da OPA, que será comunicado ao mercado através do portal da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários.

Até ao registo do prospeto, que tem de acontecer até ao dia 16 de abril, a EDP poderá rever o preço proposto. O preço indicado de 6,80 euros representa um prémio de 10,5% sobre a cotação média nos seis meses anteriores, segundo a EDP, e um prémio de 8,5% sobre o preço de fecho de segunda-feira. O preço final da OPA poderá ser superior aos 6,80 euros anunciados, mas nunca inferior (exceto se houver distribuição de dividendos; veja mais à frente).

Mesmo depois do início da oferta, os investidores poderão negociar os títulos na bolsa. Se, ao longo das várias sessões, encontrar um preço justo para as suas ações, venda. O problema é saber qual o preço justo.

O que acontece se não vender na OPA?

Se a OPA for um falhanço completo, mantém as suas ações. Provavelmente, os 6,80 euros continuarão a ser uma referência psicológica para as cotações durante muito tempo.

Se a EDP conseguir adquirir 90% ou mais dos direitos de voto da EDP Renováveis, então a casa-mãe pode fazer uma aquisição potestativa das restantes ações: os acionistas remanescentes são obrigados a entregar as ações pelo preço pago na OPA. Seria forçado a vender.

Há, no entanto, um cenário pior: a EDP não quer avançar com uma aquisição potestativa ou não atinge 90% do capital na OPA. Nesse caso, a EDP Renováveis continua na bolsa, mas com menos liquidez, o que poderá dificultar a valorização das ações e a alienação futura dos títulos. É o que acontece agora com a Cimpor: desde que foi alvo de uma OPA pelo grupo brasileiro Camargo Côrrea, a cimenteira tem menos de 6% do capital disperso na bolsa.

Deve comprar ações da EDP Renováveis?

Muitos dos que estão a comprar agora ações da EDP Renováveis estão a apostar numa revisão em alta do preço pela EDP. É um negócio especulativo que pode ser lucrativo, mas não é aconselhável aos investidores menos confortáveis com os negócios bolsistas. Para muitos, os ganhos potenciais são anulados em grande parte pelas comissões de bolsa e pelos impostos envolvidos numa operação deste tipo.

Qual é o preço justo?

Depende. Os investidores que compraram ações na oferta pública de venda (OPV), finalizada no início de junho de 2008, pagaram oito euros por ação. (Os colaboradores da empresa pagaram 7,60 euros.) Alguma coisa mudou para que considerem que menos de oito euros é agora um preço justo?

Desde que foi para a bolsa, o volume de negócios anual da EDP Renováveis cresceu cerca de 14% por ano, para 1.651 milhões de euros. A capacidade instalada aumentou 11% por ano para 10,4 gigawatts. A produção elétrica escalou 15% por ano para 24,5 terawatts. Será que o presidente norte-americano, Donald Trump, e a sua política a favor do petróleo podem limitar o futuro de uma companhia cujo negócio é quase a 100% a produção de energia eólica? O futuro de curto prazo, sim, mas, no longo prazo, dificilmente a convergência global para as energias limpas será posta em causa.

Os Estados Unidos da América são o maior mercado da EDP Renováveis — é onde está 44,5% da sua capacidade elétrica —, mas a firma continua a diversificar. Além de Portugal e Espanha, os mercados originais do grupo, a companhia liderada por João Manso Neto está na Roménia, Polónia, França, Brasil, México, Itália, Bélgica e Canadá.

A concretizar-se com sucesso a OPA, a EDP Renováveis foi um bom negócio para a EDP e os seus acionistas: venderam uma participação por 1,6 mil milhões de euros em junho de 2008 para a recomprarem — mais de duas vezes maior — nove anos depois por 1,3 mil milhões de euros.

Qual é o preço em que não terá prejuízo?

Depende do preço de aquisição, mas é preciso contabilizar os dividendos distribuídos desde 2013: quatro cêntimos até 2015 e cinco cêntimos em 2016. Quem comprou na OPV a oito euros tem de exigir um preço de 7,83 euros para não ter prejuízos. Todavia, não é o facto de ter ou não prejuízos que deve toldar a sua decisão. O que interessa são os potenciais ganhos futuros.

Infelizmente, prejuízos é o que é mais frequente na bolsa portuguesa. O PSI 20, o principal índice do mercado, rendeu -5,41% por ano desde que a EDP Renováveis foi para a bolsa, incluindo o reinvestimento dos dividendos. Pelo contrário, as praças mundiais avançaram 8,74% por ano, mostra o índice MSCI World.

É difícil avaliar a EDP Renováveis, porque é uma empresa muito particular. Não há nos mercados ocidentais outra companhia cotada cujo negócio seja quase exclusivamente baseado em energia eólica. Uma coisa é certa: 6,80 euros é um bom preço de compra para a EDP. E não há ninguém que conheça tão bem o negócio da EDP Renováveis.

Na próxima assembleia geral de acionistas da EDP Renováveis, no próximo dia 6 de abril, será levada a votação a distribuição de um dividendo de cinco cêntimos por ação. É um valor igual ao pago em 2016 e continua a ser marginal: representa 0,72% da cotação. O anúncio preliminar de OPA prevê que a EDP possa ajustar o preço proposto pelo montante desta distribuição, caso a OPA ocorra posteriormente, isto é, baixar o preço de 6,80 euros para 6,75 euros para refletir o pagamento do dividendo.

Quem decidirá o sucesso da OPA?

Não serão os pequenos investidores. Mesmo que nenhum investidor de retalho aceite o preço da OPA, a operação poderá ficar decidida entre os grandes.

A OPA da EDP é sobre as ações da EDP Renováveis que não controla: cerca de 22,5% do total. Todavia, conhece-se a identidade dos donos da esmagadora maioria dessas ações: são investidores institucionais, como fundos de investimento e companhias de seguros. Como o negócio da firma é muito particular, muitos fundos especializados, como o BlackRock New Energy, investem na companhia. O maior investidor, além da casa-mãe, é o fundo norte-americano MFS Utilities: as 19,6 milhões de ações da EDP Renováveis colocam-na na sexta posição dos seus maiores ativos. Só este fundo tem mais do que todos os fundos portugueses juntos, cerca de 13,9 milhões de ações, de acordo com os últimos dados oficiais.

Se os investidores institucionais forem ouvir os analistas de mercado, então a OPA ao preço anunciado falhará. Mesmo antes de se saber que a EDP iria lançar a oferta sobre a EDP Renováveis, o preço-alvo médio dos analistas era de 7,14 euros, segundo a Bloomberg, 5% acima do preço indicado pela companhia de energia. Nesta terça-feira, cinco analistas atualizaram a recomendação: três — Helena Barbosa do Caixa Banco de Investimento, Daniel Ortea do BBVA e José Porta do Kepler Cheuvreux — recomendam a compra das ações com um preço-alvo médio de 7,51 euros, mais 10,4% que o preço anunciado.

Apenas um analista recomendou que os investidores aceitem o preço indicado pela EDP. Pierre-Antoine Chazal, analista do Bryan Garnier, calcula que os 6,80 euros oferecidos estão cerca de 8% acima do preço justo. Philippe Ourpatian, do Natixis, o quinto analista que atualizou a sua recomendação, assumiu uma posição neutra sobre a oferta.

Os acionistas de retalho — que, segundo o último relatório anual da EDP Renováveis, têm conjuntamente menos de 2% da empresa — devem manter-se atentos aos preços na bolsa enquanto não é publicado o prospeto da OPA. Só se a cotação subir substancialmente é que devem optar pela venda dos seus títulos.

David Almas é analista financeiro independente registado na CMVM com o número oito. O autor trabalha subordinado ao Código Deontológico dos Jornalistas.