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O futuro do futebol depende do nível de formação dos seus jogadores — e Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF), não tem dúvida que é mesmo disso que Portugal precisa para que a cultura desportiva não se resuma a “clubite” e se evitem, por exemplo, os vários episódios de agressão a árbitros que se têm verificado nos últimos tempos. Mas já vamos até Canelas.

Esta segunda-feira, em Lisboa, na sede do Banco de Portugal, a aposta foi em outro tipo de formação. O SJPF tornou-se o mais novo membro do Plano Nacional de Formação Financeira que, nos últimos seis anos, tem desenvolvido ações de formação na área da literacia financeira em várias escolas do país. O protocolo foi assinado entre o SJPF e o Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (CNSF), a pedido do sindicato que reconhece as lacunas que existem na formação dos jogadores — e as particularidades da carreira de futebolista.

“Todos sabemos que é uma profissão de desgaste rápido e curta duração e os problemas financeiros nesta profissão têm um particular destaque. A maioria dos jogadores não está preparada para a poupança, acham que não vão ter problemas”, começa por explicar o presidente do SJPF. A durabilidade da carreira, e a propensão para lesões que lhe podem por termo abruptamente também não contribuem para a estabilidade profissional. “Se não acabarem a carreira aos 30 ou 35 anos muitas vezes elas acabam por doença, lesão, ou desemprego e não estão preparados, acham que só acontece aos demais, e nós queremos alertar para se prepararem para essas eventualidades”, disse Joaquim Evangelista.

Apesar de o protocolo só ter sido assinado ontem, e ainda não existir um documento que detalhe as atividades de formação que deverão decorrer, os grupos-alvo são os jovens que possam pensar em seguir carreira, os jogadores no ativo e aqueles que estão a ter dificuldade de gerir o seu dinheiro já depois de terem terminado a carreira. O presidente do sindicato considera que “logo a seguir a médico ou engenheiro, os pais querem que o filho seja futebolista” mas muitas vezes não “antecipam que, chegando aos 19 ou aos 18 anos, os seus filhos podem ficar sem emprego porque não estudaram e não há alternativa”.

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Apesar de não serem conhecidos os números relativos aos pedidos de ajuda de jogadores de futebol por dificuldades financeiras, “são cada vez mais mediáticos os casos dos jogadores que têm problemas nos negócios porque foram mal aconselhados, ou nem sequer foram aconselhados, ou tiveram problemas nos seus casamentos, na sua vida familiar, ou então ficaram desempregados, não pouparam, não acautelaram o seu futuro”, disse ainda o dirigente. É tudo uma questão de formação e de reviravolta cultural: “Culturalmente a escola e o desporto andam divorciados e estamos a tentar mudar de paradigma. Queremos que as instituições coloquem na sua agenda a necessidade de formar os jogadores integralmente, não só desportivamente”, concluiu o responsável.

Canelas: penas mais pesadas e mais “humanidade no futebol”

Sobre o incidente que ocorreu no jogo do Rio Tinto contra o Canelas, no passado domingo, em que um jogador da equipa visitante agrediu o árbitro do encontro, Joaquim Evangelista considera indispensável “o respeito entre colegas” e condena “veementemente” o sucedido. Até porque, só este ano, o número de agressões aos homens do apito já ultrapassou as 40. O dirigente disse que “a família do futebol tem que começar a dar exemplos” porque “há muita crispação no futebol e muita tolerância em relação e estas práticas” e portanto, considera Evangelista, “temos que todos exercer o nosso papel de cidadania ativa desportiva”. E não são só os jogadores, são também os dirigentes e os clubes que têm que se esforçar para “educar”.

“Não são só os jogadores, também são os dirigentes e os clubes. É preciso mudar o clima, é preciso que se respire futebol e isso não tem sucedido. A pedagogia do sindicato também abrange as questões educacionais e estou convencido de que um jogador educado não terá uma atitude destas. Quando se verificam situações destas, o desporto não está a exercer o seu papel na sociedade”, disse o presidente do SJPF.

Joaquim Evangelista continua a ver estas situações como exceções e não como regra e acredita que a grande maioria dos jogadores não se revê no comportamento do jogador do Canelas. Isso não quer dizer que não sejam precisas penas mais pesadas. “O sucedido tem que ter consequências exemplares. É inaceitável um colega agredir outro dentro da quatro linhas, seja um jogador, um árbitro ou um treinador. Deve haver respeito mútuo e penas mais duras, com certeza”, disse o presidente.

Na mesma linha pedagógica, o dirigente assume ter “uma grande confiança” na arbitragem portuguesa e que o “incomoda” que muitos jovens que “alberguem o sonho de serem árbitros possam desistir por causa destes casos”. Não é fácil mudar comportamentos, diz Evangelista, mas “temos que fazer esse esforço” porque “ao mesmo tempo que fomos campeões da Europa, continuamos a ter estes problemas”. Tudo se resume ao que parece ainda existir entre os vários intervenientes num jogo de futebol. “Tem que haver mais humanidade no futebol, há uma grande distância entre as pessoas, há uma grande ‘clubite’, vale quase tudo e isso não é possível. Os dirigentes têm que passar mensagens de responsabilidade, que cheguem aos adeptos também”, concluiu Joaquim Evangelista.

Portugal com bons níveis de literacia financeira

Segundo a informação cedida pelo Plano Nacional de Formação Financeira, Portugal apresenta níveis satisfatórios de literacia financeira. Um estudo da OCDE e do Questionário Internacional à Literacia Financeira da População Adulta, que analisou 30 países, coloca Portugal no 5º lugar do indicador de atitudes financeiras, em 8º no indicador de comportamentos financeiros e em 13º lugar na vertente de conhecimentos financeiros. São tudo coisas diferentes, apesar de concorrem para o mesmo objetivo. As atitudes financeiras são, por exemplo, as posições que se adota em relação à poupança — se é ou não importante, e em Portugal as pessoas estão cada vez mais prudentes em relação às despesas. Já os comportamentos são, por exemplo, o endividamento.

Um inquérito realizado pelo próprio Plano Nacional de Formação Financeira, quando completou cinco anos de existência, mostra que a inclusão financeira da população portuguesa é elevada e tem vindo a melhorar desde 2010. Em 2015, 92.5% dos entrevistados dizem ser titulares de pelo menos uma conta de depósito à ordem contra os 88.9% registados em 2010, valor que atinge os 93.5% em cidadãos maiores de 18 anos (90.7% em 2010).

Na escolha de produtos financeiros , os resultados de 2015 evidenciam que existe um nível elevado de confiança dos inquiridos nas instituições, à semelhança do verificado em 2010. Para 59.1% dos entrevistados, o papel do funcionário bancário pesa mais do que a informação pré-contratual na hora de investir.

A área dos conhecimentos financeiros, apesar de hoje os resultados serem mais animadores, é aquela que precisa de maior investimento por parte dos formadores. Nas questões sobre numeracia, 58.4% dos inquiridos sabem calcular um juro simples mas apenas 39.5% reconhece o efeito dos juros compostos. Nos produtos bancários, um elevado número de pessoas sabe identificar o saldo à ordem num extrato bancário (82%) mas apenas 21,4% sabem o que é o spread e apenas 10.5% conseguem explicar o que é a Euribor.

Mesmo assim, no indicador global de literacia financeira, que tem em contra os três fatores, Portugal ocupa a 10ª posição, acima da média de todos os países analisados (13,2%) e da média dos países da OCDE (13.7%).