O escritor Fernando Campos, autor de romances históricos, entre os quais A Casa do Pó, morreu no sábado em Lisboa aos 92 anos, revelou à agência Lusa fonte familiar.

Licenciado em Filologia Clássica, docente durante vários anos, Fernando Campos estreou-se tarde no romance, aos 62 anos, precisamente com A Casa do Pó, em 1986, que continua a ser uma das obras mais conhecidas do autor. Trata-se de um romance histórico passado no Portugal (e não só) do século XVI e que tem como protagonista um homem que não sabe de onde vem nem qual a sua ascendência. A única pista que o pode levar a alguma resposta é o medalhão que sempre teve ao peito.

A capa da edição comemorativa dos 25 anos de “A Casa do Pó”, de Fernando Campos (Alfaguara)

A Casa do Pó surgiu após mais de uma década de estudo e preparação. As referências históricas e temporais — que passam pelas cortes de D. Manuel I e D. João III — foram um dos elementos elogiados então pela crítica, que apontou Fernando Campos como nome que passava a ser obrigatório e renovador para um género de estruturas fixas. O livro haveria de multiplicar-se em edições e vender mais de cem mil exemplares.

Em 2011 publicou A Rocha Branca, biografia romanceada da poetisa Safo. É uma viagem à antiguidade clássica, colocando a ação na ilha de Lesbos. No livro de Fernando Campos, Safo, jovem e apaixonada, está limitada no mundo físico pela velhice. Ao contrário, o seu grande amor — Fáon — é um espírito envelhecido rodeado por um corpo novo e forte. Este dilema é o centro da narrativa criada pelo autor.

Ravengar surgiu dois anos depois. Publicado num altura em que a editora Alfaguara relançava a obra de Fernando Campos, Ravengar era um regresso à infância, aos momentos em que o escritor ouvia as histórias que a mãe contava sobre os anos durante os quais vivera no Brasil (tratava-se de “The Shielding Show”). Esta em particular falava de um “Sir Ravengar”, personagem de um filme mudo que depois era também herói de um folhetim publicado durante semanas. Este “Sir” despertava paixões e curiosidade porque defendia uma donzela do respetivo marido, pessoa pouco recomendável. Foi partindo daí que criou a trama romântica e misteriosa publicada em 2012.

“Ravengar”, de Fernando Campos (Alfaguara, 2012)

Antes, Fernando Campos tinha já publicado títulos como Psiché (1987), O Homem da Máquina de Escrever (nesse mesmo ano), O Pesadelo de dEus (1990), A Esmeralda Partida (de 1995, distinguido com o prémio Eça de Queiroz da Câmara Municipal de Lisboa), A Sala das Perguntas (1998), Viagem ao Ponto de Fuga (1999), A Ponte dos Suspiros (2000), …que o meu pé prende… (2001), O Prisioneiro da Torre Velha (2003), O Cavaleiro da Águia (2005), O Lago Azul (2007) ou A Loja das Duas Esquinas (2009). Um início tardio que revelou depois uma dedicada frequência na edição.

Fernando Campos nasceu em 1924 em Águas-Santas, freguesia da Maia. Estudou Filologia Clássica na Universidade de Coimbra e foi professor do ensino secundário. Começou pelo Porto e haveria de mudar-se para Lisboa, para dar aulas no Liceu Pedro Nunes. Grego, Latim e Português foram as disciplinas que o acompanharam durante muitos anos, que misturavam as suas duas paixões maiores: a Língua e a História.

Vivia no bairro do Arco do Cego, numa casa onde a coleção de livros tinha a concorrência próxima de um número aparentemente interminável de filmes nas estantes — Fernando Campos era um cinéfilo incurável. Mas foi um livro específico que lhe mudou a história e as histórias que viria a escrever. Numa conversa com Luís Ricardo Duarte, publicada na revista Ler por alturas da publicação de “Ravengar”, Fernando Campos recordava o impacto que lhe deixou “O Itinerário da Terra Santa”, de Pantaleão de Aveiro.

Estávamos em 1976. Já conhecia o título do final do século XVI mas nunca o tinha lido até ao fim. Descobriu-o numa “banca de livros e histórias aos quadradinhos, que havia no cruzamento entre a Avenida de Roma e a Rua João XXI, em Lisboa”. Disse o autor, nessa mesma entrevista:

“[a vendedora] Pediu-me cinco mil escudos, o que era muito mais do que eu ganhava em vários meses de ordenado”. Com a insistência haveria de conseguir aquele exemplar da quarta edição por mil escudos.

Foi esse encontro fundamental com a História escrita que levou Fernando Campos (que também foi colaborador do Jornal de Letras, onde assinou crónicas) ao primeiro “A Casa do Pó”, o tal que lhe definiu o método, feito de duas dimensões essenciais. Uma era a recolha de documentação e informação. A outra o próprio autor assim a definiu no mesmo artigo da revista Ler: “Respeito o que está documentado. O resto, invento”.