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Presidente Trump

Trump e Jinping: trunfos e armadilhas na véspera do encontro dos dois líderes

Os presidentes dos EUA e da China vão reunir-se durante dois dias na Florida. Trump espera acordos "muito dramáticos" e "bons" para ambos os países, mas os dois líderes guardam cartadas estratégicas.

JOHANNES EISELE/AFP/Getty Images

Um tremendo bluff ou um negociador astuto?

O encontro de dois dias que Donald Trump vai ter nas próximas quinta e sexta-feira no resort (de que é proprietário) de Mar-a-Lago, na Florida, com o presidente chinês, Xi Jinping, pode resultar numa vitória da diplomacia norte-americana ou numa mão-cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Os assuntos em cima da mesa? Serão sobretudo dois: a ameaça norte-coreana — que importa travar o quanto antes, Trump dixit — e a negociação de como se desenvolverá o comércio na Ásia e no Pacífico daqui em diante, um comércio que não favorece (segundo Pequim e o próprio Trump) a China nem os Estados Unidos.

Trump tem cartas na manga. Jinping tem-nas também. Trump foi crítico da China quando ainda não era presidente e chegado à Casa Branca criou um imbróglio diplomático ao conversar telefonicamente (terá sido, alegadamente, Trump o contactado, embora o Washington Post afirme que o telefonema foi preparado ainda antes das eleições) com a presidente de Taiwan. A China não gostou — e Trump viu-se obrigado a dar o dito por não dito quanto à questão da soberania chinesa sobre a ilha. Mas a China gosta de Jared Kushner, o genro de Trump. É também por Kushner (que organizou este encontro de líderes juntamente com o embaixador chinês nos Estados Unidos) que passará o sucesso ou insucesso no final da semana.

O fator Kushner

Vamos começar por ele, Jared Kushner. É que se é verdade que a China sempre viu Donald Trump como um homem desconcertante, de discursos inflamados, vê agora em Kushner a água na fervura que a diplomacia exige. O New York Times recupera a história da relação amor-ódio de Trump com a China e desconstrói a importância do marido de Ivanka e conselheiro do sogro na Casa Branca. E porque é que Pequim o vê como tal? Talvez por Jared Kushner ser, a par do experiente secretário do Comércio, Wilbur Ros, o único da administração Trump que não atacou a China e a postura económica chinesa em algum momento: o secretário de Estado Rex Tillerson — que entretanto já viajou até Pequim e à volta falou de cooperação “win-win” entre as partes –, Peter Navarro, diretor do Conselho Nacional de Comércio, Robert Lighthizer, representante do Comércio, todos o fizeram.

E quando é que Jared Kushner primeiro interveio entre Washington e Pequim? Pouco depois de Trump ser eleito. Não, o agora presidente não precisou tão pouco de assentar arraiais na Casa Branca para virar do avesso o protocolo norte-americano e ter contactado diretamente com a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen. A última vez que um contacto deste tipo se estabeleceu foi em 1979. A China entendeu-o como uma “provocação” e um “truque barato”, o vice de Trump, Mike Pence, falou em “mera cortesia” e “uma tempestade num copo de água” por parte dos chineses. Trump iria desdizer-se logo a seguir ao telefone com Xi Jinping e aceitaria (algo que começou com Jimmy Carter e não mais foi discussão até agora) a política de “uma China só”, ou seja, os Estados Unidos (de Trump) aceitam a soberania da China sobre Taiwan.

Agora, e a poucos dias do encontro entre os dois presidentes, o New York Times explica que foi Jared Kushner, a par do embaixador chinês nos EUA, Cui Tiankai, quem organizou a deslocação de Jinping aos Estados Unidos, quem definiu o resort na Florida (mesmo sabendo que o presidente chinês detesta jogar golfe, por exemplo) como o lugar do encontro. E, acrescenta o jornal, Kushner e Tiankai estão mesmo a preparar o draft para uma declaração conjunta no final do encontro de dois dias.

Curiosamente, e ainda a três dias do encontro na Florida, não é certo que o genro de Trump esteja presente em Mar-a-Lago. Kushner está no Iraque em visita oficial, informou este domingo um funcionário da administração norte-americana. Até agora não foram divulgados pormenores sobre a viagem, mas é provável que Kushner (que viajou com o general Joe Dunford, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas) esteja a a trabalhar a diplomacia em torno da coligação internacional que os Estados Unidos lideram contra o Estado Islâmico. No mês passado, as forças iraquianas (apoiadas por esta coligação) lançaram uma ofensiva para reconquistar ao grupo extremista a parte ocidental de Mossul, principal cidade do norte do Iraque e bastião do Estado Islâmico.

O problema “coreano”

Voltando ao que se vai negociar. O ponto prévio na conversa já foi apresentado por Trump na entrevista que deu esta segunda-feira ao Financial Times: Coreia do Norte. Sim, Trump aceitou a política de “uma China só”. Mas não há almoços grátis com ele. Em troca pretende que a China apoie os Estados Unidos pressionando a Coreia do Norte, a qual os EUA pretendem ver desmilitarizada do ponto de vista nuclear – e em breve. Como é que a China pode auxiliar – e sem intervenções militares? O que mais “dói” a Pyongyang – e faz recuar (ou abrandar) Kim Jong-un – são as sanções económicas. Sempre foram as sanções. E havendo sanções de um país do qual a Coreia do Norte está tão economicamente dependente como a China, Jong-un recuará. Trump acredita nisso.

A China não se comprometeu nem reagiu à entrevista de Trump. Mas afinal, o que é que o presidente norte-americano disse? Mais sucinto e direto não poderia ser: “A China tem uma grande influência sobre a Coreia do Norte. E é a China que vai decidir se nos ajuda com a Coreia do Norte ou não. Bem, se a China não vai resolver o problema da Coreia do Norte, vamos nós! Como? Não vou dizer. Não somos os Estados Unidos do passado, que te diziam onde era o próximo ataque no Médio Oriente…” O Guardian avança que é expetável que a Coreia do Norte, de forma provocadora, prossiga com os testes com mísseis balísticos por altura do encontro.

O ponto é importante do ponto de vista da segurança, sim. Mas também de economia se falará na Florida. Na entrevista ao Financial Times, Donald Trump invocou as trocas comerciais com a China como incentivo para Pequim fazer o que Washington quer. “Acho que o comércio é o incentivo. Trata-se sempre de comércio”, atirou de chofre.

A propósito do comércio: há não tanto tempo assim, Trump acusou a China de ser uma “manipuladora de divisas”, ou seja, de desvalorizar a moeda chinesa de forma artificial e, com isso, prejudicar a economia norte-americana — daí surgiu outra acusação grave: a de que a China está a “roubar postos de trabalho” aos norte-americanos. O diretor do Conselho Nacional de Comércio, Peter Navarro, mas sobretudo Stephen K. Bannon, o conselheiro-chefe de Trump, chegaram a propor, em retaliação, um imposto de 45% sobre as importações chinesas para os Estados Unidos. Trump chegou a escrever no Twitter: “A China, por acaso, perguntou-nos se era OK desvalorizarem a sua moeda, aprovarem impostos altos sobre os nossos produtos que entram no país ou construírem um complexo militar massivo no meio do Mar do Sul da China? Não me parece!”

Trunfos e armadilhas

Quanto ao “complexo militar massivo no meio do Mar do Sul da China”, Trump não terá grande sorte e este por lá continuará. Mas no resto talvez tenha. O que Trump realmente quer é negociar bilateralmente com a China um acordo de comércio para a Ásia e Pacifico e sair daquele que foi negociado (entretanto até já assinou um decreto para o “rasgar”) pela administração de Obama, o Acordo de Associação Transpacífico, que foi firmado em fevereiro por 12 países: Estados Unidos, Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Singapura e Vietname.

A China não negociou, pois claro. Pelo que o abandono dos Estados Unidos deste Acordo de Associação Transpacífico será favorável a ambos, mas sobretudo à China, que continuará a ser a potência hegemónica daquela zona do globo. Mas os Estados Unidos dão ponto sem nó? Ou melhor: Trump dá ponto sem nó? Não. A China é um dos maiores investidores em dívida pública dos Estados Unidos. A negociação dessa dívida pode ser uma contrapartida.

Uma coisa é certa: Trump está otimista. E na entrevista ao Financial Times, falando de um “grande respeito” pela China, defende: “Eu não ficaria de todo surpreso se fizéssemos algo que seria muito dramático e bom para ambos os países – e espero que sim”.

O encontro entre os dois líderes vai decorrer em Mar-a-Lago, onde Donald Trump tem recebido outros líderes internacionais.

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