Apresentado oficialmente o pedido para a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), os fabricantes automóveis com produção localizada na ilha de Sua Majestade apressaram-se já a fazer um aviso ao Governo liderado pela primeira-ministra Theresa May: ainda que o Reino Unido saia da União Europeia, o executivo britânico terá de garantir, nas negociações que agora arrancarão, que as empresas continuarão a manter o acesso livre e sem taxas ao Mercado Único. Exigência que, embora compreensível, não deixa de se afigurar de difícil concretização.

A notícia é avançada pela Automotive News Europe, que dá voz, entre outros fabricantes, à norte-americana Ford, a qual considera crucial para as suas operações no Reino Unido a manutenção do acesso sem taxas aos mercados da União Europeia. Com o presidente da divisão europeia, Jim Farley, a defender que, qualquer que seja o acordo para o futuro, este deve assegurar o comércio livre com todos os países que têm acordos comerciais com a UE, e não apenas com os 27.

Maior fabricante de motores no Reino Unido, a Ford defende ainda que “assegurar um período de transição, que garanta que os consumidores não serão penalizados e no qual seja mantido um comércio sem taxas, é uma necessidade crítica”.

SMMT avisa para o risco de fecho de fábricas

A própria Associação da Indústria Automóvel do Reino Unido (SMMT) assumiu já o receio de que, sem um acordo formal, os fabricantes de automóveis com produção no país passem a ter de lidar com taxas de até 10%, nas suas exportações para os países da UE. Colocando, assim, em risco o futuro das suas fábricas.

Vamos continuar a trabalhar com o governo e com os nossos parceiros europeus, mas um futuro sem um acordo formal não é opção”, avisa o CEO da SMMT, Mike Hawkes.

Recorde-se que mais de metade dos veículos fabricados no Reino Unido, em 2015, tiveram como destino os mercados da UE. Sendo que a empresa de consultadoria PA Consulting previu já que, no caso de um chamado “Brexit duro” – ou seja, em que o Reino Unido deixe pura e simplesmente de fazer parte do Mercado Único -, o preço dos carros no Reino Unido acabe por aumentar, em média, 2.300 libras (cerca de 2.900 euros). Sem esquecer os prejuízos decorrentes da necessidade de transferir componentes entre as várias fábricas espalhadas pelo continente.

BMW exige atenção para as multinacionais

Já a BMW, marca alemã que produz no Reino Unido os modelos Mini e Rolls-Royce, avisou o governo inglês que não pode deixar de ouvir as empresas multinacionais, durante o período que durarem as conversações com a Comissão Europeia. Apontando, também ela, a manutenção das taxas zero no comércio com a UE como um aspecto crucial.

“Enquanto importante investidor e empregador no Reino Unido, a BMW acredita fortemente que o governo britânico terá de ter em consideração as posições tomadas pelas empresas multinacionais”, afirmou um porta-voz do fabricante alemão, acrescentando que “não só o comércio livre, como também a oportunidade de emprego além-fronteiras, a par de legislação unificadora e de âmbito internacional, serão benefícios confirmados tanto para os negócios, como para a economia e para os cidadãos”.

Recorde-se que, no início de Março, a BMW avisava que iria repensar as suas fábricas no Reino Unido, ainda antes da consumação do Brexit. Garantindo mesmo que, em caso de necessidade, haveria flexibilidade suficiente para que, a qualquer momento, a produção pudesse ser deslocalizada.

Pouco depois da BMW, mais concretamente a 16 de março, também a Toyota tomou posição, ao anunciar a intenção de investir cerca de 240 milhões de libras (pouco mais de 276 milhões de euros) nas suas fábricas do Reino Unido, com o objectivo de as preparar para trabalhar com base numa nova plataforma. Embora avisando desde já que a manutenção da isenção de taxas no comércio com a UE era fundamental para a continuação do negócio.

Em declarações aos jornalistas, também o vice-presidente sénior da Nissan Europa, Colin Lawther, defendia que a aplicação de taxas de 10% na exportação de modelos como o Nissan Qashqai, actualmente fabricado no noroeste de Inglaterra, e de 2,5% a 4,5% nas exportações de peças, teria “um impacto verdadeiramente desastroso” nos resultado do fabricante. Falando mesmo, durante uma intervenção na House of Commons, em Londres, numa queda dos lucros na ordem dos 500 milhões de libras (cerca de 575 milhões de euros), caso o Reino Unido passasse a reger-se, na sua relação com a UE, pelas normais regras da Organização Mundial de Comércio.

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