O preço para comprar uma nota de dólar norte-americano nas ruas de Luanda retomou as quedas, ligeiras, na última semana, estando esta quinta-feira a custar até 350 kwanzas (dois euros), próximo dos mínimos do ano. Esta descida, que a Lusa constatou na habitual ronda semanal pelas ruas de Luanda, acontece depois de no final de março o mercado informal ter apresentado uma subida nesta cotação indicativa, o que aconteceu pela primeira vez em mais de um mês.

Na segunda quinzena de março, cada dólar chegou a ser vendido pelas ‘kinguilas’ de Luanda, como são conhecidas as mulheres que se dedicam à compra e venda de divisas, a 340 kwanzas (1,90 euros), mínimos do ano, ainda assim mais do dobro da taxa de câmbio oficial definida pelo Banco Nacional de Angola (BNA) e que está inalterada há precisamente um ano.

Estes valores contrastam com o pico de 500 kwanzas (2,85 euros) por cada dólar dos primeiros dias de janeiro, no mercado de rua, mas, apesar das descidas desde então, mantêm-se as limitações no acesso a divisas nos bancos, inclusive nas contas em moeda estrangeira, tornando a venda paralela, para muitos nacionais e estrangeiros, a única forma de aceder a dólares ou euros em Angola.

A taxa de câmbio oficial cifra-se atualmente em cerca de 166 kwanzas (95 cêntimos de euro) por cada dólar, quando antes do início da crise das receitas do petróleo, ainda em 2014, era de 100 kwanzas. As ‘kinguilas’, que representam uma atividade ilegal e que o governador do BNA, Valter Filipe, voltou esta semana a condenar, explicam a consecutiva quebra da cotação do mercado informal com a falta de kwanzas suficientes para realizar as trocas, valorizando dessa forma a moeda nacional.

Angola tinha em circulação, em fevereiro, notas e moedas no valor de 435.659 milhões de kwanzas (2.420 milhões de euros), uma nova quebra mensal, de quase 3% e que se soma aos 10% retirados em janeiro, medida definida pelo BNA e que tem vindo a permitir a valorização da moeda nacional no mercado paralelo.

Devido à falta de moeda estrangeira, os empresários que necessitam de importar matéria-prima estão agora obrigados a dirigir uma carta ao Ministério da Indústria para solicitarem divisas nos bancos, enquanto os não residentes cambiais já não podem levantar dólares ou euros nas próprias contas, por determinação do banco central.

As taxas de rua já estiveram próximas dos 600 kwanzas por cada dólar em agosto e julho, depois de máximos de 630 kwanzas em junho, face à falta de dólares nos bancos.

O chefe da missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) para Angola, Ricardo Velloso, admitiu em março, durante a visita a Luanda, que a retirada de circulação de moeda nacional é uma medida positiva, pelas repercussões no corte nas taxas de câmbio no mercado paralelo, que permanecem em mais do dobro do valor oficial. “É uma medida muito importante, que ajuda no controlo da inflação e ajuda a reduzir o diferencial entre a taxa de câmbio do mercado de rua e a taxa oficial”, destacou o chefe da missão do FMI, questionado pela Lusa.

Angola vive desde finais de 2014 uma profunda crise financeira e económica decorrente da quebra para metade nas receitas com a exportação de petróleo, tendo desvalorizado o kwanza, face ao dólar, em 23,4% em 2015 e mais 18,4% ainda no primeiro semestre de 2016.