Sim, era enguiço. Não havia forma de o FC Porto “molhar a sopa” contra o Belenenses, quanto mais vencer: sempre que se defrontaram esta temporada — primeiro no Restelo para o campeonato e depois no Dragão a contar para a Taça da Liga — deu sempre empate. E sempre a zero. Esta noite, não podia dar empate. Aliás, até final, e depois do 1-1 na Luz, o FC Porto só poderá vencer e esperar que o Benfica não o faça uma vez que seja. Só assim poderá ser líder, ficar com o caneco no final e evitar o tetra do rival.

Ora, é nestas alturas que os mais supersticiosos se usam do que têm à mão: uma mezinha, um amuleto quiçá. E o FC Porto até tem uma pata de coelho, que é como diz: Danilo. Sempre que o capitão (hoje foi-o na ausência de Marcano) marca, os azuis-e-branos vencem. E não são tão poucas vitórias “à custa” de Danilo assim: com a desta noite, dez. Dez golos, dez vitórias. Ele há avançados — ouviste Depoitre? — que não se podem orgulhar de tal registo.

Mas até ao golo de Danilo (e não tarda chegaremos lá) o Belenenses até conseguia ter mais vezes a posse da bola. Sobretudo em zona defensiva — chegar à frente é que ’tá quieto ó mau. Isto porque a pressão do FC Porto era mais à zona (e não era bem, bem “pressão”; diga-se dela que foi mais um “estou-te a ver”) do que ao portador da bola. Mas fica a ideia que o FC Porto permitia que a equipa do Restelo o fizesse. Ou seja, logo que esta, confiante, de peito feito, subisse, o FC Porto tentaria surpreende-la em contra-pé. Dito e feito.

O que agora lhe vou contar não é propriamente uma “oportunidade” — mas é o que de melhor se viu até aos 11′. André André desmarcou Maxi na direita — lá está: nas costas da subida defesa dos visitantes –, o uruguaio foi mais veloz do que o defesa esquerdo do Belenenses, Florent, ganhou-lhe a frente e, em esforço, quaaaaase em cima da linha de fundo, cruzou. O cruzamento saiu-lhe para o segundo poste, Soares saltou nas costas de João Diogo, cabeceou, tentou colocar a bola no poste contrário, mas tanto tentou colocar, que o desvio saiu muito para lá do poste à guarda de Cristiano.

O Belenenses reagiu. Uma só vez na primeira parte, mas reagiu. E também remataria à baliza. Aos 15′ ele fez tudo sozinho. E não tendo a quem passar, continuaria a fazê-lo até a final. “Ele” é Diogo Viana. Um driblador nato, um autêntico prega-cuecas e ex-FC Porto — na altura da sua passagem pelo Dragão dizia-se dele que tinha “pinta” de Quaresma –, Viana viu-se de frente para a baliza de Casillas, tinha uma nesga de espaço para rematar e rematou. O espanhol segurou à segunda, sin temblar.

Viu Soares na Luz? Não? Não foi desatenção sua, sossegue. O brasileiro esteve desastrado no que toca a finalizar diante do Benfica. E hoje, pelo menos na primeira parte, continuava a estar. A visão periférica (e ele tem-na apuradíssima) de André André percebeu que Maxi estava a pedir-lhe a bola lá longe, na direita, dentro da área, e num passe longo e preciso André colocou-a lá, Maxi partiu os rins a Florent, entregou a bola a Soares e este, sem oposição de maior, lá chutou. Saiu-lhe rasteiro e fraco, segurando a bola Cristiano. Foi aos 25′.

Pouco depois, aos 37′, livre à esquerda. Pedia-se um pé direito para o bater e bateu-o o de Brahimi. A bola sairia longa do argelino, cruzada em arco e para dentro da área, ao segundo poste André Silva amorteceu a bola para o primeiro, Danilo surgiu lá, teve tempo de “matar” a bola no peito e rematá-la depois (sem que caísse no chão) de cima para baixo. Cristiano nem a viu. O FC Porto estava na frente e na frente foi para o intervalo.

O recomeço foi um déjà vu: é que tal como na primeira parte, o Belenenses estava a ser superior ao FC Porto nos primeiros minutos. Um exemplo disso? Na gíria diz-se de Abel Camará que é um “cavalão”. Jogava-se o minuto 60 quando, vindo da esquerda, Camará levou tudo à frente, Maxi, André André, mais viessem e mais levaria, chegou à esquina da área do FC Porto e rematou. Saiu à figura de Casillas.

Pow, pow! Numa das áreas (a que na segunda parte foi do Belenenses) do estádio do Dragão há um buraco. Um buraquinho, vá. Culpe-se Óliver, que aos 66′ espetou duas valentes palmadas lá. O porquê da fúria? É que o cruzamento de Maxi para a área caiu-lhes nos pés, recebida que estava a “menina” Óliver driblaria em seguida o guarda-redes Cristiano, rematou de pé esquerdo e em queda, mas só depois viu que no meio da baliza estava Domingos Duarte, o central do Belenenses que lhe negou o golo. É realmente caso para se aborrecer.

O que agora se segue são dois golos de enfiada — e os dois para o FC Porto, pois claro. Três minutos bastaram para arrumar de vez com o jogo e chegar à liderança (ainda que à condição) do campeonato.

Primeiro, aos 70′, do canto de Alex Telles à esquerda não resultaria nada. Então e o golo? Calma… A bola atravessou toda a área sem que ninguém do FC Porto a desviasse na direção da baliza. Mas o dito canto acabaria por colocar a bola no flanco contrário, em Corona. O mexicano logo tratou de “entortar” o lateral Florent — que noite desassossegada a do francês –, cruzou para a área e, agora sim, alguém desviaria para o golo: e foi Soares. O brasileiro não o fazia desde a vitória (4-0) do FC Porto em Arouca, tendo na altura conseguido fazer dois. Depois, a “secura”: não voltaria a marcar nem à Juventus, nem ao Setúbal, nem ao Benfica. Ainda assim, e contando com o desta noite, a média de golos de Soares é para lá de boa: nove jogos de Dragão ao peito, duas mão-cheias de golos.

Mas falemos do golo (aos 73′) que fechou o placard. Pediu-se penalty no Dragão e o árbitro Fábio Veríssimo concordou. Vindo da esquerda onde habitualmente está, Brahimi entrou em dribles dentro da área, passou por João Diogo como faca quente em manteiga… mas não passaria por Domingos Duarte. É que o central derrubou-o de “carrinho” e viu cartão amarelo. Depois, e na hora de a converter, foi o próprio Brahimi quem à frente se chegou, a bola foi mesmo para o centro, forte e bem coloca, Cristiano caiu cedo demais para a direita e 3-0 para o FC Porto no final.

E agora? Agora é com o Benfica. Não vencendo, deixa de ser líder. Vencendo, volta a ser. E talvez seja sempre assim até final: quem primeiro jogue (benfiquistas ou portistas, tanto faz) vai sempre pressionar o que jogar a seguir. E assim é que isto tem graça, não é?