Parte das peças da exposição “Plano das Coisas” de Jorge Dias apanharam a chuva quente de Maputo. Não foi acidente, foi propositado, porque esta não é uma exposição convencional.

Grande parte está dentro da galeria do Centro Cultural Português, com quadros pendurados na parede onde se sobrepõe colagens de diferentes materiais locais: fio, corda, réplicas de bichos em plástico (aranhas, lacraus, gafanhotos e outros) e tintas de muitas cores.

E sementes, muitas sementes que, com o tempo acabam por se decompor e às vezes cair, ou seja, são esculturas que nascem, vivem e morrem, descreve Jorge Dias.

Certa vez até “viviam insetos numa peça” com sementes, que acabaram por desaparecer, e que representam um lado imaterial, “outra dimensão” da sua arte — dimensão efémera e que acabará por ficar apenas na memória de quem a apreciou.

Um lado imaterial que, a par dos materiais que usa, serve para dar mais intensidade à interpretação das peças, como no conjunto de três peças “Habitantes Transitórios”.

São esculturas penduradas lado a lado em que às três dimensões se junta mais uma: a de um país, Moçambique, “que tem um passado cíclico de conflitos em que as pessoas se deslocam”.

“Na casa que deixamos, fica uma aura”, representada por insetos que preenchem o vazio por entre pequenas esculturas coloridas de casas africanas que pontuam a composição, com uma base de materiais rugosos e coloridos.

Em “Aldeia Comunal”, as mesmas casinhas distribuem-se de forma concêntrica, enquanto na “Simetria em Doze Badaladas”, a ‘eskupa’, porta-moedas local de cana entrelaçada, forma um círculo.

Outra parte da exposição são peças que ocupam o pátio do Centro Cultural Português, a céu aberto.

Jorge Dias reciclou os casulos, esculturas do tamanho de uma pessoa, feitas com jornais e cordas e usadas noutras instalações artísticas.

Agora foram esticadas e entrelaçadas para formar o corpo de um longo animal esguio com patas de madeira que o erguem ao longo do pátio.

“Já choveu, mas faz parte” da vida peça, guardiã de todos os outros bichos e insetos, réplicas de plástico ou habitantes das sementes.

Alexandra Pinho, diretora do Centro Cultural Português, aponta a coprodução com Jorge Dias como “um convite” para outros artistas poderem no futuro expor “no espaço convencional da galeria”, mas também com outros formatos e no exterior.

“As peças são muito bem aceites, mas não são facilmente vendáveis”, lamenta Jorge Dias — que nesta exposição tem peças entre os 45 mil meticais (635 euros) e os 145 mil meticais (2050 euros), com exceção da metamorfose dos casulos, que chega aos 650 mil meticais (nove mil euros).

Jorge Dias nasceu em Maputo em 1972, cidade onde estudou cerâmica na Escola Nacional de Artes Visuais.

Depois estudou escultura na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Brasil.

É membro fundador do Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique (MUVART) e diretor e docente da Escola Nacional de Artes Visuais de Maputo.

A exposição “Plano das Coisas” vai estar patente no Centro Cultural Português de Maputo até 04 de maio e depois no Centro Cultural Português da Beira entre 12 de julho e 10 de agosto.