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25 de Abril foi “intervenção divina” para salvar culto da Ladeira

A Ladeira do Pinheiro, em Torres Novas, onde persiste um lugar de culto que teve o apogeu na década de 1980, deve a sua sobrevivência à revolução de Abril de 1974, vista ali como “intervenção divina"

AFP/Getty Images

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  • Agência Lusa

A Ladeira do Pinheiro, em Torres Novas, onde persiste um lugar de culto que teve o seu apogeu na década de 1980, deve a sua sobrevivência à revolução de Abril de 1974, vista ali como “intervenção divina” a seu favor.

“Se não tem havido 25 de Abril, a Ladeira tinha sido mais um caso arrumado”, disse à Lusa Aurélio Lopes, antropólogo que fez a sua tese de doutoramento sobre o culto surgido em torno da figura de Maria da Conceição, na década de 1960, na Meia Via (Torres Novas), a escassos 25 quilómetros de Fátima, também no distrito de Santarém.

A “mensageira de Deus”, como é apelidada Maria da Conceição num dos placares colocados no interior da catedral de Nossa Senhora das Graças que narra a sua história, bem procurou o reconhecimento da igreja católica romana, mas foi excomungada e perseguida pelas autoridades, que chegaram a fechar o local em 1972.

Nascida em Riachos, Torres Novas, em 20 de agosto de 1930, com uma infância marcada pela doença, é já adulta, durante um internamento no hospital da Misericórdia da Golegã, em outubro de 1959, que tem a primeira “visão” – uma imagem do Senhor dos Passos a mexer-se -, à qual atribuiu a cura quando já estava “perdida para a vida corporal”.

Os seus êxtases, relatos de visões e de conversas com santos, e alegados milagres, começaram a atrair um cada vez maior número de seguidores, num fenómeno que Aurélio Lopes assegura ser, “do ponto de vista estatístico, extremamente raro ser aceite” pela igreja católica.

Além da proximidade geográfica com Fátima, à qual Maria da Conceição se esforçou por associar o culto da Ladeira, o que, lembra o antropólogo, levou o bispo de Leiria a escrever aos peregrinos pedindo que as excursões não passassem pela Ladeira e, se passassem, que escusavam de ir a Fátima, e do enquadramento histórico, social e político distinto do vivido em 1917, a própria natureza dos videntes foi determinante.

“Ser jovens – como no caso dos pastorinhos de Fátima – é uma coisa, adultos é outra completamente diferente. É muito mais fácil controlar videntes crianças que adultos”, disse à Lusa, citando vários outros casos ocorridos com “mulheres, carismáticas com ascendente sobre os outros”, como em Vilar de Chã (Alfandega da Fé, na década de 1940) e no Escorial (próximo de Madrid, entre 1981 e 2002), e que acabaram por praticamente desaparecer.

“São líderes que depois entram em confronto com a igreja. A maior parte das visionárias são pessoas honestas, sinceras, que se sentem como escolhidas de Deus para passar a sua mensagem, o que lhes confere uma importância que a sua existência até ali prosaica não tinha. Estão tão convencidas disso que o facto de a igreja reagir contra elas normalmente as exalta”, realça.

É este “carisma” de Maria da Conceição que, segundo o antropólogo, explica também os sucessivos afastamentos das igrejas ortodoxas que a abertura religiosa surgida com a revolução de 25 de abril de 1974 permitiu que se instalassem na Ladeira do Pinheiro, dando o “selo de reconhecimento” que ela procurava e que evitou o desaparecimento do culto.

O primeiro reconhecimento aconteceu em 1978 com o arcebispo metropolita primaz da Igreja Católica Ortodoxa de Portugal João Gabriel I – falecido em 1997 e cujo corpo se encontra sepultado na catedral de Nossa Senhora das Graças –, mas, em 2000 (ano de inauguração da catedral), o seu sucessor, João I, e Maria da Conceição são excomungados pelo metropolita da Igreja Ortodoxa Autocéfala da Polónia, da qual dependiam canonicamente como uma Província Eclesiástica.

Uma das razões terá estado no facto de, no final de 1999, o arcebispo primaz da Igreja Apostólica Episcopal Portuguesa António Raposo ter começado também a celebrar culto na Ladeira do Pinheiro.

A vontade de Maria da Conceição de transformar a catedral (construída com o dinheiro que foi angariando) num local “ecuménico”, para a prática de vários cultos, associada ao protagonismo que continuou a assumir (ainda hoje as cassetes com as suas gravações são ouvidas pelas suas seguidoras), levou igualmente ao afastamento de D. João I, em 2003, que a acusou de se ter tornado “uma espécie de contrapoder que não aceita qualquer regra, ultrapassando todos os limites”.

A morte da que ficou conhecida como “santa da Ladeira” ou “mãe Maria”, como lhe chamam as seguidoras do seu “Exército Branco”, poucos dias depois, a 10 de agosto de 2003, criou um vazio, preenchido pelo homem que presidiu ao seu ritual fúnebre, Estevão da Costa.

Reclamando-se bispo metropolita para Portugal da Igreja Ortodoxa Búlgara Alternativa, que registou em maio de 2004, Estevão da Costa tornou-se figura controversa, sendo abertamente contestado pelas seguidoras de Maria da Conceição.

Estas acusam-no de se ter apoderado da fundação criada em 1998 por Maria da Conceição e o marido Humberto Rosa, e que gere atualmente dois lares de idosos (o mais recente inaugurado em 2013), e, sobretudo, não lhe perdoam o ter afastado a sucessora nomeada pela “mãe Maria”, a sua filha adotiva Teresinha, que afirmam estar “cativa” e a viver “de esmolas”.

Apesar das várias abordagens da Lusa, Estevão da Costa recusou qualquer entrevista, alegando que a Ladeira “não precisa de publicidade” e que se têm escrito “muitas falsidades”, e só após muita insistência permitiu, no final do culto, a recolha de imagens no interior da catedral.

O próximo momento alto do culto na Ladeira do Pinheiro vai acontecer na Páscoa, cuja data este ano coincide com a da celebração católica romana.

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