Agustina Bessa-Luis dispensa sobrenomes. É Agustina. A sua aura, a sua importância, o facto de ser a maior escritora portuguesa viva não explicam porque é que a editora Guimarães, do grupo Babel, tenha deixado de publicar, divulgar as suas obras e de pagar os direitos contratuais à escritora. Mas explicam porque é que desde que se tornou pública, num artigo da revista Sábado, a rutura entre Paulo Teixeira Pinto/Álvaro Sobrinho e a família da autora que muitas editoras portuguesas se tenham precipitado numa competição para ver quem conseguia ser a nova chancela de Agustina. Esta quinta-feira foi anunciada a vencedora: a Relógio D’Água, de Francisco Vale, também ele responsável por ter resgatado outro escritor ao esquecimento imposto por um grande grupo editorial: José Cardoso Pires.

Depois de 60 anos fiel à família Cunha Leão, fundadora da editorial Guimarães, Agustina começa agora uma nova época e, em entrevista ao Observador, a filha, Mónica Baldaque, diz “estar muito entusiasmada com a nova fase que aí vem” e acredita que a escritora, ainda que impossibilitada de saber destas novidades, “iria adorar a possibilidade de ser lida e interpretada por pessoas de outras gerações, que modernizem e desvendem a sua obra a outro públicos que não apenas uma elite”.

Personalidade ímpar, dona de uma fulgurante inteligência e talento, Agustina foi também uma mulher radicalmente corajosa e livre

Mónica Baldaque contou ainda que “a rescisão com a Babel já aconteceu em novembro, devido a vários incumprimentos contratuais por parte da editora”, e que a célebre retirada dos livros de Agustina da livraria Babel, na Biblioteca Nacional, foi apenas “uma reação deles a esta decisão da família”.

“Foi a ponta de um iceberg”, conclui. “Porque o problema não era apenas a falta de pagamento mas, sobretudo, o facto de terem deixado de publicar as obras, de não fazerem qualquer divulgação, os livros estavam esgotados há anos nada era reeditado”.

Ao Observador Francisco Vale afirma também que “a Babel deixou Agustina e outros autores completamente ao abandono e nunca teve um plano editorial coerente para gerir uma obra como a da autora, que tem mais de 50 livros, uma linguagem complexa, e que precisa de ser reenquadrada na atualidade e promovida junto de novos públicos”.

Para já a editora conta lançar ainda 10 livros até ao final do ano “prefaciados por escritores de várias gerações que conheçam bem a obra da autora e façam a ponte para outras gerações”. Confirmados estão já Gonçalo M. Tavares para prefaciar A Sibila (mas a decisão da obra ainda não é definitiva), Pedro Mexia, António Mega Ferreira, o poeta João Miguel Fernandes Jorge e Hélia Correia, que fará o prefácio de Fanny Owen. Francisco Vale afirma que vai apostar ainda “na edição de uma biografia” e na divulgação dos filmes e peças de teatro que foram feitos a partir de obras da autora. Lourença Baldaque, neta de Agustina, e Alberto Luís, o marido serão os responsáveis pela fixação do texto das obras editadas e inéditas.

A Sibila é o livro mais famoso da autora que Eduardo Lourenço aproxima de Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes

Depois de A Sibila seguem-se Fanny Owen, As Pessoas Felizes, O Manto, Ternos Guerreiros, O Mosteiro, Os Meninos de Ouro, Vale Abraão, Dentes de Rato e ainda um livro inédito. A partir de 2018 a editora promete fazer sair um novo volume de dois em dois meses ao longo dos próximos anos.

Francisco Vale contou também que, há cerca de um ano, tentou, junto de Paulo Teixeira Pinto, um dos proprietários e responsáveis editoriais da Babel, negociar a publicação de três livros de Agustina na sua coleção de Clássicos, mas “não encontrou qualquer recetividade ao seu projeto”. No entanto esse gesto terá sido determinante para a decisão da família de escolher a Relógio D’Água como chancela para a escritora.

“De facto Francisco Vale já nos tinha abordado o que muito nos comoveu, e depois a excelência do catalogo da Relógio D’Água levou-nos a tomar a decisão. Estivemos vários meses a ponderar, tivemos muitas ofertas de grandes e pequenas editoras, mas o projeto do Francisco entusiasmou-nos”, diz Mónica Baldaque.

Nem a filha de Agustina, nem Francisco Vale revelam detalhes do contrato e se a nova editora continuará a pagar uma avença à escritora, pelo prestígio de a ter no catálogo, de resto uma prática habitual entre editoras e autores consagrados.

Em Fevereiro saiu pela Fundação Gulbenkian a recolha da obra de Agustina publicada na imprensa ao longo de 58 anos

Recorde-se que recentemente a Babel já perdeu os direitos de Jorge de Sena e dos livros da Anita (Martine) para outras editoras. O Observador tentou sem sucesso falar com Paulo Teixeira Pinto e Armando Paulino da Silva, que é quem, neste momento, comanda o destino de várias chancelas do grupo.

Quem também recentemente teve a iniciativa de promover a obra de Agustina foi a Fundação Calouste Gulbenkian, ao coligir em três grossos volumes mais de 3 mil páginas, tudo o que a autora escreveu para a imprensa ao longo da vida A primeira edição esgotou em dois meses e esta semana foi posta à venda a segunda edição (500 exemplares).

Agustina Bessa-Luís, que sofreu, em 2006, um acidente vascular cerebral, fará 95 anos em Outubro. Além da sua obra vasta, que toca múltiplos géneros literários, a escritora foi diretora do jornal Primeiro de Janeiro e do Teatro Nacional D. Maria II e membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social.