A resistência de Jean-Luc Mélenchon em apelar ao voto em Emmanuel Macron na segunda volta das presidenciais francesas está a provocar algum desconforto entre os próprios apoiantes do candidato da extrema-esquerda. Numa carta publicada no jornal francês Libération, que se tornou rapidamente o texto mais lido de um jornal tradicionalmente conotado com a esquerda política francesa, um assumido apoiante de Mélenchon confronta o candidato com a importância de evitar a ascensão de Marine Le Pen: dizer não à Frente Nacional, escreve, significa evitar que “a nova manhã que começa a despontar” — uma referência às palavras do próprio Mélenchon — “se transforme numa longa e incerta noite”.

O testemunho de Baudouin Woehl, um estudante parisiense, acaba por resumir, em parte, todas as contradições e tensões que existem atualmente no seio do movimento “A França Insubmissa” que apoiou o candidato de extrema-esquerda. Se é verdade que Macron representa para a esmagadora maioria dos apoiantes de Melénchon a cristalização do establishment que queriam derrotar, uma eventual vitória de Le Pen seria o início de um ciclo negro para o futuro do país — algo que deve ser evitado a todo custo, vão defendendo.

Uma discussão que ganha força depois de Mélenchon ter anunciado que vai consultar os 450 mil militantes que compõem a sua plataforma de apoio antes de tomar uma decisão definitiva sobre um eventual apoio a Macron. Ao mesmo tempo, muitos dos apoiantes do candidato da extrema-esquerda desdobram-se nas redes sociais entre apelos à abstenção na segunda volta.

De resto, no dia em que foram conhecidos os resultados, Mélenchon não escondeu a desilusão. “Os ‘mediacratas’ [um termo pejorativo que usa frequentemente para se referir ao que considera ser a excessiva influência sobre a opinião pública exercida por alguns meios de comunicação] e os oligarcas estão eufóricos. Nada é melhor para eles como uma segunda volta entre dois candidatos que querem prolongar as instituições atuais, que não expressam nenhuma consciência ecológica e que pensam tomar as conquistas sociais mais elementares”, afirmou o candidato radical.

E é precisamente isso que começa por criticar Baudouin Woehl na carta publicada no Libération. “Fiquei perplexo”, confessa o estudante, referindo-se ao tom de “ressentimento” usado por Melénchon. Perplexo perante a resistência do candidato de extrema-esquerda entre apoiar um Macron voltado ao centro ou uma candidata como Le Pen, que quer acentuar “a monarquia presidencial”, que quer limitar os direitos dos refugiados, que quer “perpetuar a desigualdade” e cuja “política económica seria desastrosa”.

Num texto cujo título é elucidativo — “Que diabo vamos fazer?” — este confesso apoiante de Melénchon pede ao candidato que se oponha claramente à candidata de extrema-direita e que assuma um papel determinante na denúncia do “perigo” que representa Le Pen. “Não caia na lógica do pensamento anti-sistema sem conteúdo”, apela, a terminar, o estudante.