Antes de qualquer jogo, sobretudo do Benfica por estar na frente da Primeira Liga, mesmo que uma pessoa não queira tropeça em qualquer coisa ligada ao futebol. E o que se ouvia hoje? “O Jonas vai marcar quatro, o Benfica ganha 5-0”, “O Jonas fez muita falta com o Sporting mas agora já vai jogar”, “O Benfica ganha e o Jonas marca”. O Benfica, o Benfica, o Jonas, o Jonas, para resumir a conversa. E foi a isso que se assistiu na Luz. Benfica 1-0 por Jonas, Benfica 2-1 por Jonas. Pelo meio, o Estoril empatou e atirou duas bolas ao poste. Podemos sempre falar daquela estrelinha da sorte que protege os campeões. Mas, na verdade, há outro fator que faz toda a diferença nas contas da Primeira Liga: aos 33 anos, Jonas não soma. Multiplica.

Ficha de jogo

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Benfica-Estoril, 2-1

31.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Hugo Miguel (Lisboa)

Benfica: Ederson; Nélson Semedo, Luisão, Lindelöf, Grimaldo; Fejsa, Pizzi; Salvio (Carrillo, 63′), Cervi, Jonas (Filipe Augusto, 77′) e Mitroglou (Raúl Jiménez, 70′)

Treinador: Rui Vitória

Suplentes não utilizados: Júlio César, André Almeida, Samaris e Rafa

Estoril: Moreira; Mano, João Afonso, Dankler, Ailton; Diogo Amado, Allano (André Claro, 79′), Mattheus; Licá (Matheus Índio, 75′), Carlinhos (Bruno Gomes, 84′) e Kléber

Treinador: Pedro Emanuel

Suplentes não utilizados: Luís Ribeiro, Gonçalo Brandão, Joel e Yarchuk

Golos: Jonas (29′, g.p. e 66′) e Kléber (60′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Ailton (20′), Nélson Semedo (34′) e Allano (66′)

O Estoril começou bem, organizado, inteligente, sagaz na tentativa de sair bem em transições rápidas que, mais do que a defesa do Benfica, tiveram como grande inimigo a bandeirola do árbitro assistente a assinalar foras-de-jogo. E foi assim que decorreram os primeiros dez minutos, com ligeira supremacia das águias na posse de bola mas a ideia que os visitantes poderiam disputar o jogo. Porque a nível de ações ofensivas dos encarnados, zero.

Foi preciso chegarmos aos 16’ para haver a primeira situação de perigo junto da baliza do antigo guarda-redes (e campeão) do Benfica, Moreira. E porque houve uma conjugação de dois fenómenos raros na metade inicial: ao momento raro de desposicionamento da defesa canarinha juntou-se um raro passe longo bem conseguido por Pizzi mas Salvio, que fizera uma diagonal da direita para o centro, não conseguiu mais do que um remate desviado para canto. Quase dez minutos depois – e até calha bem, porque continuamos a falar de fenómenos raros –, Mattheus, o filho de Bebeto, atirou em jeito mas ao lado.

O Benfica melhorou quando praticamente encostou os centrais Luisão e Lindelöf a Fejsa. De forma assumida, quis jogar apenas a meio-campo, mesmo sabendo que estava completamente exposto cá atrás. Confiou nos seus instintos e nos números, que nos mostram que os atuais campeões não sofreram golos em lances de transições rápidas ou contra-ataques. E passou a arriscar mais na recuperação de bola em zonas adiantadas. Foi assim que nasceu o primeiro golo.

Licá fez aquilo que não se deve fazer em qualquer parte do campo mas que é completamente proibido na área: tentar pontapear uma bola sem antes perceber se havia alguém perto de si. Havia, Nélson Semedo. E foi mesmo penálti.

Jonas, como é habitual, não falhou. E inaugurou o marcador (29’).

Ainda assim, o Estoril não acusou o golo e conseguiu fazer aquilo que andava à procura desde o primeiro minuto: isolar uma das unidades mais avançadas, neste caso Kléber, que conseguiu o mais difícil (surgir sozinho em frente a Ederson), fez o difícil (tirar o guarda-redes da jogada) mas esqueceu-se do mais fácil: encontrar forçar para, depois desse toque, ir ao outro lado desviar a bola para a baliza. Aos 33′, os canarinhos perdiam a oportunidade de ouro para empatar antes do descanso, que não chegaria sem que antes Cervi (37′) e Salvio (44′) se juntassem ao desperdício.

A segunda parte começou com 15 minutos verdadeiramente infernais do Estoril: obrigou Ederson a algo que nenhum guarda-redes tinha ainda feito (uma defesa, aos 51′, com Kléber isolado); desperdiçou a melhor oportunidade do encontro até aí (Licá, de cabeça após cantos, aos 55′); atirou uma bola à trave (Ailton, num remate de fora da área, 56′); acertou com uma bola no poste (Mattheus, num livre direto, aos 58′). A bola teimava em não entrar mas os canarinhos não desistiram e, para Kléber, à terceira foi mesmo de vez: lançamento para as costas de defesa de Ailton e remate certeiro do brasileiro que apontou assim o quarto golo contra os encarnados (60′).

Filipe Augusto preparava-se para entrar, voltou para o banco (63′).

Carrillo rendeu Salvio mas o Benfica continuava à nora com o período em que sofreu o maior domínio do adversário em casa esta época. Não conseguia ligar setores, não acertava passes, não chegava à área contrária. Até que a bola chegou aos pés de Jonas, a meio da segunda parte. E pior, mesmo fora da área teve espaço.

Jonas, como é habitual, resolveu. E fechou o marcador (66’).

Foi um golo formidável, vindo quase do nada. A verdade é que o Benfica, tal como o Estoril e todas as outras equipas da Primeira Liga, trabalhou horas e horas a fio no treino para, no fim-de-semana, ver esse esforço recompensado por uma individualidade que parece gozar com a idade no Cartão de Cidadão. Sem preparação, fuzilou.

Filipe Augusto foi de novo chamado ao banco e preparou-se para entrar (77′).

Aos 78′, Jiménez obrigou Moreira à primeira e única defesa do encontro, por sinal o primeiro que fez em toda a carreira contra o Benfica na Luz. E nem foi complicado, porque o mexicano falhou o remate. Dois minutos depois, Grimaldo correu tanto, tanto, tanto que, isolado, não teve o discernimento para rematar enquadrado. Mas a verdade é que, depois da saída de Jonas e da entrada do médio brasileiro, os encarnados não jogaram muito mas também não deixaram jogar, acabando em sofrimento mais pelas bolas paradas do adversário do que em jogo corrido.

O encontro terminou, o Benfica ganhou e Jonas, com a maior calma do mundo, atravessou o relvado numa pose tranquila, muito calma. Ele voltou a ser o herói da equipa numa vitória que pode valer o título. Mas ele é um jogador que já está habituado a isso. Mesmo numa temporada onde esteve a meio gás.