Contam-se pelos dedos os presidentes que falharam o jantar anual de Correspondentes da Casa Branca. De 1924 até agora, apenas três falharam o evento. Donald Trump avisou cedo — logo em fevereiro, via Twitter — que não contassem com ele para o jantar deste sábado à noite (21h30, em Washington; 01h30, em Lisboa). Um deles tinha sido Richard Nixon — no auge do escândalo Watergate, dias antes de pedir a demissão, em 1974 — com um clima de conflito com os media que Trump também alimenta agora.

Coincidência ou talvez não, no jantar deste sábado à noite estarão presentes os jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, os então estagiários do Washigton Post responsáveis pela investigação do Caso Watergate, que levou à demissão do presidente Nixon. O que também não parece inocente é que ambos vão falar sobre a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, precisamente aquela que, entre outros direitos fundamentais, impede a limitação da liberdade de imprensa. A mesma intervenção vai falar da importância do jornalismo para a democracia. O evento decorre no Washington Hilton Hotele pode ser visto em streaming no C-SPAN.

O jantar começou em 1921 e, desde que em 1924 o então presidente Calvin Coolidge marcou presença, foram poucos os que faltaram à cerimónia. Nixon falhou duas vezes (além de 1974, também falhou em 1972). Jimmy Carter também falhou o jantar em 1978, alegando cansaço. Mesmo assim, já há 36 anos que nenhum presidente falhava o jantar. O último a faltar foi Ronald Reagan, mas não por opção: encontrava-se a recuperar de um atentado, em que foi baleado a 31 de março de 1981. Apesar de não poder estar presente, Reagan enviou uma gravação que passou no jantar onde brincou com o próprio ataque de que tinha sido alvo:

Se querem um conselho, quando alguém vos diz para entrarem rapidamente no carro, entrem!”

Houve ainda alturas em que os presidentes ou a associação de correspondentes acharam por bem cancelar o jantar. Em 1930, aconteceu devido à morte do ex-presidente William Howard Taft. Foi também cancelado em 1942, após a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial e em 1951, com Harry Truman a justificar o cancelamento com a “incerteza da situação mundial.”

Quanto a Donald Trump, não estará presente mesmo por opção e marcou um grande comício na Pensilvânia, que começa duas horas antes do jantar e em que assinala os 100 dias da sua presidência.

Dois meses antes do jantar, Trump já tinha anunciado que não estaria presente no jantar, desejando a todos uma “grande noite”.

Donald Trump tem acusado a comunicação social norte-americana de produzir “notícias falsas”, de ser “desonesta” e até “inimiga do povo [norte-americano]”, bem como de ser maioritariamente apoiante dos democratas. Nenhum membro da sua equipa marcará presença. De acordo com o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, “a administração está em solidariedade com o presidente, que tem sido injustamente tratado [pela imprensa].” O mesmo Sean Spicer diz todos “esperam, incluindo o presidente, que as coisas melhorem de forma a que a administração possa participar no jantar do próximo ano.”

Susan Page, correspondente do USA Today na Casa Branca, já afirmou que este ano tudo vai ser “claramente diferente”: “No ano passado, estava na mesa de Kendall Jenner e este ano estou na mesa de Madeleine Albright.” Em 2016, estiveram presentes figuras como Will Smith, Emma Watson, Helen Mirren ou Carrie Fisher.

Como habitual, o anfitrião será um comediante. O escolhido para este ano foi Hasan Minhaj do The Daily Show, programa da Comedy Central que não é propriamente simpático para Donald Trump. A escolha está cheia de simbolismo. O próprio Minhaj, filho de imigrantes muçulmanos indianos, chegou a referir-se a Donald Trump como “White ISIS”

O presidente norte-americano não participa no jantar, mas fê-lo noutros anos, tendo em 2011 sido o alvo de Barack Obama. Há até quem especule que foi essa humilhação pública que motivou o magnata a candidatar-se à presidência. Nessa cerimónia de 2011, Trump não acreditava que Barack Obama tinha nascido nos EUA, alinhando na teioria da conspiração conhecida como “Birther”. No jantar, o anterior presidente foi demolidor, embora Trump tenha esboçado um sorriso:

O registo dos presidente norte-americanos costuma ser mais informal nestes jantar e, as intervenções de Obama foram autênticos momentos de stand up comedy. Em 2016, último ano como presidente, Obama voltou a visar Trump.

O Presidente norte-americano começou por fazer notar a ausência de Trump na cerimónia. “Uma sala cheia de jornalistas, celebridades e câmaras e [Trump] diz que não. Será o jantar demasiado rasca para o TheDonald? O que pode estar ele a fazer? Estará em casa a comer um Trump Steak? Ou a tweetar insultos contra Angela Merkel?”.

A plateia ria e pedia mais. E Obama não poupou a falta de experiência política do milionário — que então já liderava a corrida presidencial do lado dos republicanos. “[Trump] passou anos a reunir-se com líderes de todo o mundo: com a Miss Suécia, com a Miss Argentina, com Miss Azerbaijão…”, atirou Obama, referindo-se ao concurso Miss Universo organizado pelo magnata.Donald Trump não guarda assim as melhores memórias do jantar onde hoje não estará presente.

Os donativos do jantar são destinados a bolsas de estudo que visam financiar programas de jornalismo universitário e jovens talentos. É curioso que, até 1962 — mesmo que existisse mulheres correspondentes na Casa Branca — o jantar era aberto exclusivamente a homens. Nesse ano, o presidente John F. Kennedy disse que só iria se o jantar fosse aberto também a mulheres. Foi feita a vontade do presidente.

Nos últimos anos, têm sido feitas algumas críticas ao jantar, nomeadamente que ela é o rosto de alguma promiscuidade entre os correspondentes da Casa Branca e a administração. O facto de ser uma feira de vaidades, com várias figuras de Hollywood a roubar o espaço mediático aos jornalistas premiados, tem igualmente sido alvo de críticas. Após o jantar de 2007, o ensaísta e colunista do New York Times, Frank Rich, sugeriu mesmo que o jornal não participasse mais nos encontros, que disse serem a imagem “dos fracassos da imprensa na era pós-11 de setembro”.