Se o Twitter existisse em 1997, a palavra “Blairmania” teria com certeza figurado na coluna das trends do dia 1 de maio desse ano — um ano inesquecível tanto para Tony Blair, pessoalmente, como para o Partido Trabalhista britânico pelo qual chegou a primeiro-ministro com um mandado de granito, o maior de sempre dos trabalhistas. Nem a emocionante vitória de Clement Attlee, em 1945, foi tão esmagadora. Attlee conseguiu uma maioria de 145 assentos do Parlamento, Blair chegou aos 179 deputados a mais do que os conservadores. Dos 659 lugares em Westminster, o Labour ocupou 418 naquele ano.

Vinte anos passados e o partido que liderou durante 10 anos é uma outra coisa. Quase em tudo diferente do New Labour que Blair idealizou: um partido moderno, com um grande foco no investimento público e social, mas que também perfilhou algumas das ideias mais controversas de Margaret Thatcher, como o controlo dos sindicatos ou o apoio claro à economia de mercado. Chamar a alguém “Blarite” no Labour de hoje, de Jeremy Corbyn, é mais ou menos o equivalente europeu a chamar “comunista” a um norte-americano, só que ao contrário. Não deve ter sido por acaso — é difícil conceber alguma altura em que Thatcher tenha dito ou feito alguma coisa por acaso — que a ex-primeira-ministra conservadora elegeu Tony Blair como o seu maior legado.

A sua ligação à Guerra do Iraque, ao lado de George W. Bush, foi a decisão mais controversa e, mesmo para muitos admiradores, manchou para sempre o seu currículo. Mas isso não impediu Tony Blair de dizer, nesta segunda-feira, que está preparado “para sujar as mãos” e lutar contra o hard-Brexit de Theresa May, uma declaração que foi lida pela comunicação social como um regresso à política.

“É ou não é uma nova madrugada esta que hoje nasce?”

Tony Blair ganhou no final de uma década que viu a libertação de Nelson Mandela, a campanha de Bill Clinton, o saxofonista amigo dos Pearl Jam, Lech Walesa, tornar-se presidente da Polónia e Mikhail Gorbachev receber o prémio Nobel da paz. Ser britânico tinha voltado ser cool, e até o enfant terrible da pop, Liam Gallagher, não só frequentava Downing Street como tinha guitarras com a bandeira nacional — que, por sinal, também andava estampada no pouco pano que Geri Halliwell usava nos concertos das Spice Girls.

A “nova madrugada” de Blair, que o líder trabalhista anunciou nas pequenas horas da manhã enquanto o sol ameno de maio ia chegando às casas nas margens do Tamisa, em Londres, deu os seus frutos mas, mesmo assim, o Labour perdeu o élan. Porquê?

As razões são muitas, as análises multiplicam-se a partir dos mais diversos pontos de vista: imigração, perda de identidade, colapso dos últimos bastiões industriais, crise económica, acusações de ter “estoirado” o cartão de crédito britânico, erosão do centro político e Jeremy Corbyn. Será, se calhar, injusto imputar apenas a um homem o que se prevê como um colapso histórico para o Labour nas eleições de 8 de junho próximo, até porque os membros do Labour elegeram por duas vezes Corbyn para a sua liderança com duas históricas maiorias, a primeira até maior do que a de Blair em 1994.

As sondagens já mostraram um cenário bem mais negro (em que os trabalhistas conseguiriam apenas 140 deputados nas próximas eleições) mas continuam a dar conta de uma diferença bastante acentuada entre Corbyn e Theresa May: os últimos números mostram os conservadores entre 11 e 17 pontos à frente. Isto no meio de uma tempestade por causa das negociações do Brexit. E é precisamente por culpa da cisão com o bloco dos restantes 27 Estados-membros da União Europeia que Tony Blair surgiu de novo em cena.

“Vou ser uma parte ativa na tentativa de modelar o debate político e isso quer dizer que tenho que voltar a percorrer o país e a procurar reconstruir uma ligação com as pessoas”, disse Tony Blair numa entrevista ao diário Daily Mirror publicada neste domingo. De volta à ribalta? “Não, na medida em que não vou concorrer para ser deputado”, disse Blair, mas isso não quer dizer que não exista “um ideário que muita gente poderia vir a apoiar”. Haverá um novo movimento político na forja? A cisão do Labour em dois deixou de ser uma ideia chocante para muitos membros.

O que resta do New Labour?

Está tudo aberto na discussão — até o legado de Blair. Se há quem lembre a instituição de um salário mínimo ou a devolução de poderes aos parlamentos dos restantes países, além da Inglaterra, que constituem o Reino Unido, também há quem diga que, de entre todo o confetti, muito foi revertido por subsequentes políticas conservadoras. Há uma escola dentro do Labour de Corbyn que diz que o problema do partido é precisamente o legado de Blair: os seus fatos italianos, a sua agenda pró-elites, a sua vida desafogada, que afastou os “trabalhadores” dos políticos.

Mas, afinal, o que ficou da nova marca criada por Tony Blair?

A certeza, entre os deputados, de que a esquerda dura não é o caminho

O sucesso de Tony Blair ainda parece mais surpreendente quando comparado com os anos em que a ala mais à esquerda do partido o liderava. Michael Foot, em 1983, só conseguiu 27% dos votos, e Neil Kinnock, em 1987, voltou a perder, por menos, porque menor foi também a influência das políticas introduzidas por Foot no partido. Ambos apoiavam medidas como o fim da NATO, eram contra a União Europeia (CEE à data) e defendiam o controlo da banca pelo Estado. Corbyn é casado com o mesmo ideário e o seu morno apoio à causa europeia valeu-lhe as maiores críticas desde que foi eleito. Vários membros do Labour pediram já a Jeremy Corbyn, que não confirmou ter votado “Remain”, que se afaste da liderança mas ele não cede. Não cedo também porque nunca antes cedeu. Votou contra o próprio partido mais de 500 vezes durante as três décadas em que foi deputado.

A aposta numa economia de mercado

Os trabalhistas de Blair acabaram com a IV cláusula da sua “constituição” que se comprometia com a nacionalização dos serviços públicos. Corbyn tentou relançar o debate recentemente, comprometendo-se a lutar, por exemplo, pela nacionalização dos caminhos-de-ferro. Isto também significaria aumentar os impostos para os salários mais baixos, taxar mais as grandes empresas e as escolas privadas, por exemplo. O manifesto de Corbyn fala, sem qualquer problema, de “criadores de riqueza” e “ladrões de riqueza”.

Já Blair alinhou com o seu todo-poderoso ministro das Finanças, Gordon Brown, na necessidade de controlo da despesa. Durante o tempo de Blair, a economia cresceu 2,4% ao ano, contra a média de dois pontos durante os 50 anos anteriores. Mas Brown também deu ao o sistema bancário britânico uma espécie de bilhete cativo para o parque de diversões da alta finança, no que acabou por resultar em bancos emaranhados na dívida uns dos outros.

O salário mínimo

É uma conquista de Blair, mas uma luta de sempre dentro do partido. Jeremy Corbyn quer subi-lo para 10 libras por hora (cerca de 12,5 euros). Quando foi introduzido, em 1998, estava nas 3,60 libras (cerca de cinco euros). A 1 de abril de 2017 fixou-se nas 7,50 libras (cerca de 10 euros). As estatísticas do Instituto Nacional de Estatística britânico revelam que cerca de 1,5 milhões de pessoas podem ter conseguido sair da pobreza graças a esta medida.

Ainda assim, a promessa de reduzir o fosso entre os mais ricos e os pobres, que Blair repetiu nos seus discursos “para todos e não para alguns”, não foi totalmente cumprida. A diferença nos ordenados continuou mais ou menos igual, de acordo com a análise feita pela BBC, ilustrada com um gráfico elaborado pelo centro de análise económica Resolution Foundation.

Educação. Mais propinas, mais horas de infantário, apoio ao privado

Houve alturas em que Blair parecia ter mais apoio entre os conservadores do que nas suas trincheiras, com o consistente apoio não só às escolas públicas, mas também ao setor privado. Tudo em nome da “escolha”. O legado de Blair na educação, o mais citado, pelo menos, é a instituição do programa “Sure Start”, um grupo de novos centros de acolhimento para crianças nas primeiras fases da vida, onde pudessem ter acesso não só à educação mais apropriada (os pais escolhem o foco das atividades), mas também à avaliação das condições de saúde e ao apoio social que os pais mais carenciados não lhes poderiam dar em casa.

Os apoios à família subiram em termos reais 52% entre 1999 e 2005, apesar de o número de crianças dependentes em cada agregado ter diminuído. Um outro grande objetivo da Administração Blair foi o de alargar o número de horas “grátis” de infantário para todas as crianças até aos três anos, permitindo aos pais alargar os seus horários de trabalho.

O investimento no ensino superior também foi significativo, mas a introdução de propinas (primeiro fixadas em mil libras e depois num regime aberto em que as universidades podiam cobrar até 3.000) causou-lhe problemas. Foi, também, Blair que substituiu as bolsas por empréstimos com juros baixos que hoje garantem a educação superior a milhões de alunos — incluindo muitos europeus — mas são também um dos compromissos mais onerosos do governo.

Abertura à imigração

Quando a União aprovou a sua maior expansão, em 2004, admitindo boa parte do bloco soviético, só três países é que escolheram não impor restrições temporárias à entrada de novos imigrantes. O Reino Unido de Blair foi um deles (Suécia e Irlanda os outros dois). Blair acreditava que a globalização precisava de mão-de-obra e que a entrada de mais gente poderia atrasar o declínio industrial do seu país.

O permanente fluxo de mão-de-obra barata ajudaria a economia a expandir-se sem os salários a pesar-lhe sobre os ombros. Blair continua a pensar o mesmo. Na entrevista ao Daily Mirror que assinalou os 20 anos da sua eleição de 1997, Tony Blair disse que, se o Brexit resultar numa limitação à imigração, o Reino Unido “terá que encontrar forma de ir buscar essas pessoas outra vez porque elas são essenciais para o crescimento”.

Guerra e Paz – O Iraque e a Irlanda do Norte

O que “resta” do New Labour também é isto: um acordo de paz na Irlanda do Norte e um controverso apoio à Guerra do Iraque, iniciada por George Bush mas com o apoio de um dos seus maiores aliados, o Reino Unido. Esse é hoje sempre um assunto espinhoso nas suas entrevistas e o antigo primeiro-ministro oscila entre o “arrependimento pelos erros no Iraque” e o “não me posso arrepender das minhas decisões“. A investigação aos motivos que levaram à invasão do país nunca ficaram provados e o Relatório Chilcot, uma investigação para apurar responsabilidades que só foi finalizado uma década depois da invasão, diz claramente não existirem à altura “informações que provassem sem qualquer sombra de dúvida que Saddam Hussein tinha continuado a produzir armas de destruição maciça ou armas biológicas”.

Uma sondagem da empresa YouGov mostra que 53% dos britânicos “nunca irão perdoar” Tony Blair pela decisão de aprovar a invasão enquanto que apenas 8% consideram que ele não fez nada de errado. A mesma pergunta colocada apenas a membros do Partido Trabalhista mostra que apenas 25% dos inquiridos estão dispostos a perdoar Blair.

No plano interno as coisas correram melhor. É seu também o esforço para por um final no conflito entre as fações religiosas que mergulharam a Irlanda do Norte em 30 anos de violência. O acordo conhecido como “Good Friday Agreements” foi assinado a 10 de abril de 1998 e, em maio, aprovado em referendo. Finalmente a Irlanda do Norte tinha uma assembleia onde inimigos milenares teriam que se sentar e debater. A violência ainda volta às ruas, mas já não é a regra. O Exército Republicano da Irlanda (IRA) depôs as armas.

Martin McGuinness, o encarregado das negociações de paz por parte do Sinn Fein (o braço político do IRA) disse, numa entrevista ao diário Guardian pouco antes de morrer que sem Blair não teria existido paz mas que “o Blair do Iraq é uma contradição total do Blair da Irlanda”.