Carros que se autoconduzem são uma fonte de preocupação, por diversos motivos. Enquanto uns encaram a tecnologia de condução autónoma como uma miragem e defendem que essa realidade estará ainda muito distante, outros encaram-na com desconfiança – grande parte deles considerando que dificilmente um “computador” ao volante fará melhor serviço que o ser humano. E há, também, o receio (legítimo) do desemprego que esta solução de mobilidade possa vir a aportar. E, sejamos claros, não serão apenas os motoristas da Uber e concorrência que deverão ficar temerosos perante a possibilidade de o seu posto de trabalho ficar em risco. Mas ficar pelas preocupações é como que ficar pelo lado negro da condução autónoma. Há um outro lado, que vai muito para além da tecnologia, da segurança, dos congestionamentos, do ambiente, etc. Chama-se liberdade. Surpreendido? Nós explicamos.

Imagine um cego que pode ver, um paralítico que anda e um surdo que ouve. Impossível, certo? Correcto, o que significa que, para além de portadoras de deficiência, estas pessoas têm ainda outra coisa em comum: dependem de outros para se locomover, fruto da limitação física de que padecem ou que lhes confere necessidades especiais. Para estas pessoas, a condução autónoma não será uma ameaça. É, antes, uma esperança: a de conseguirem deslocar-se livremente.

É neste sentido que apontam as conclusões de um relatório elaborado pelo Securing America’s Future Energy (SAFE), uma organização não-governamental empenhada em reduzir a dependência dos EUA do petróleo, em conjunto com a Ruderman Family Foundation. O documento (se tiver tempo e interesse, pode lê-lo aqui) foca-se nos benefícios trazidos pelos veículos autónomos a pessoas com deficiência – e são mais de 57 milhões só nos EUA. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o número rondará os 1.000 milhões no mundo inteiro (dados de 2011).

De acordo com esse estudo, que se cingiu aos EUA, os automóveis autónomos permitirão que 2 milhões de pessoas com deficiência possam entrar no mercado de trabalho.

Outra das conclusões passa pelas poupanças que os carros que dispensam condutor trariam ao sistema de saúde. Isso mesmo: segundo este trabalho, cerca de 11.2 milhões de consultas médicas não se realizam anualmente, porque o paciente em causa também padece de outro mal – não tem acesso a transporte. Com a pesquisa a estimar que os veículos autónomos, neste caso, permitiriam à América poupar 19 mil milhões de dólares por ano.

A par disso, sustenta o relatório, há que considerar ganhos em matéria de produtividade, eficiência de consumo, segurança (menos acidentes de viação), entre outras vantagens. Feitas as contas, 1.3 biliões de poupança.

Como o saldo é positivo, a SAFE e a Ruderman Family Foundation deixam algumas recomendações sobre a forma como consideram que se deve orientar a política futura em relação aos automóveis autónomos. Nomeadamente, defendendo que os governos não devem exigir a presença de um operador licenciado em veículos com nível 4 de autonomia (aquele em que a intervenção humana é já dispensável). Por outro lado, sugerem que as administrações locais devem colocar os veículos autónomos ao serviço da democratização da mobilidade, servindo, sobretudo, pessoas com deficiência e os mais idosos.

Ficam, ainda, mais dois “recados”. Um para a própria comunidade de portadores de deficiência: que se unam, no sentido de colocar as suas necessidades nesta matéria, na agenda. Outro para os construtores: é certo que desenvolver a tecnologia de condução autónoma implica um grande investimento, mas os carros autónomos devem ser o mais acessíveis que seja possível – o que se conseguiria seguindo uma espécie de “base” universal.