O fundador das Brigadas Revolucionárias Carlos Antunes, que tentou em 1972 uma ação pacífica em Fátima de denúncia da guerra colonial, vê no papa Francisco “um homem sob o ponto de vista humano extremamente interessante” e também um revolucionário.

Sem dúvida. Este papa assume a denúncia das condições atuais dos trabalhadores e dos povos do mundo como uma grande preocupação e é capaz de transmiti-la à própria Igreja, que está instalada, sempre esteve, e não suporta ser denunciada no seu interior, sobretudo pelo seu chefe máximo”, considera à Lusa Carlos Antunes, em vésperas da visita de Francisco a Fátima, a 12 e 13 de maio.

Não sendo católico, Antunes refere que também não será este papa que o fará, mas ao mesmo tempo não deixa de ficar sensibilizado para “uma Igreja que se tenta renovar”.

Em 1972, um grupo das Brigadas Revolucionárias (BR) liderado pelo próprio Carlos Antunes tentou realizar uma ação numa peregrinação de 13 de outubro no Santuário de Fátima, em que homens disfarçados de engenheiros do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) se iriam infiltrar na cabina de som e cortar a palavra ao cardeal que ia celebrar a missa, trocando-a por uma gravação com uma mensagem de denúncia da guerra colonial.

Carlos Antunes observa que os católicos progressistas ajudaram a preparar a operação, constituindo, naquele período, uma base de apoio muito forte para as BR. “Foi isso que permitiu que chegássemos ao 25 de Abril praticamente sem baixas e sem prisões”.

Havia ainda uma dimensão pessoal, a partir da revelação em Fátima de uma dimensão de um certo Portugal que o fundador das BR ignorava, quando ali se escondera por 15 dias “por razões de segurança”, nos tempos da clandestinidade como membro do Partido Comunista, após a fuga dos presos de Peniche, em 1960.

Constatei que havia uma gente, uma população que não conhecia: é aquela gente que vai a Fátima, em condições de grande devoção, mas isso passa por um sacrifício imenso, um dramatismo que não estava habituado”, observa Carlos Antunes, referindo que Fátima e a sua prisão com presos comuns, já depois do 25 de Abril, mudaram a sua visão sobre o mundo e, no caso da primeira, inspirou a operação das BR no santuário, apesar de todos os riscos, incluindo de perceção.

“Senti sempre que nos íamos meter num terreno em que iríamos ser sujeitos a uma crítica muito forte, mesmo que resultasse. Mas achava que valia a pena porque nos transportava para a questão da guerra, e era interessante, confrontar o inimigo com ela”, assinala Carlos Antunes, que, fora de um contexto como aquele que se viva em 1972, se diz incapaz de interferir com quaisquer sentimentos religiosos:

“Eu não sou crente, mas possivelmente o mal é meu…”

Por outro lado, observa que, pela primeira vez, há “declarações interessantes” sobre as “aparições” de Fátima e “é extraordinário que estes sinais venham do lado da Igreja”, quando todos os que tentaram desmistificar este processo ao longo do último século foram maltratados: “Agora, coisas que se fossem ditas por nós eram blasfémias a própria Igreja é capaz de as dizer. É bom, porque reduz o fenómeno a um fenómeno humano e subjetivo”.

Afirma ainda ter sabido posteriormente à ação das BR em Fátima, que foi abortada quando a brigada se confrontou com a presença da PIDE no local onde pretendia atuar, que o então reitor do Santuário lhe tinha “um ódio especial, se se pode ter ódio sendo padre”, supostamente por se ter sentido enganado com a falsa narrativa dos engenheiros LNEC, a quem autorizou a trabalhar no recinto: “Se o senhor é vivo, que me desculpe. São ossos do ofício”.

Voltando a Francisco e sua visita a Fátima, o antigo líder das BR não partilha da opinião dos que acusam o Estado de exagerar no tratamento dado à visita papal e por em causa a sua laicidade, porque, “embora tolerante com outros credos, há aqui uma predominância e vantagens e nunca se é completamente neutro”.

Carlos Antunes lembrou que ele próprio, um não crente embora numa “procura filosófica para entender o complexo”, também se envolveu nos encontros de Paulo VI com os movimentos de libertação africanos.

Com este papa [Francisco], porque é este papa, não me impressiona nada que o recebam bem”, afirma, “porque de certeza que vem dizer coisas que a direita portuguesa não quer ouvir”.

Aos 78 anos, Carlos Antunes trabalha no arquivo das BR, criadas no início da década de 70 a partir de uma cisão com o Partido Comunista, e nas suas memórias, a publicar em dois volumes.

Francisco é o quarto papa a visitar Fátima, na sexta-feira e no sábado, na primeira grande peregrinação do ano a Fátima, na qual vai canonizar Francisco e Jacinta Marto. Os anteriores papas que estiveram em Fátima foram Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991, 2000) e Bento XVI (2010).