Papa em Fátima

As palavras do Papa no voo que o levou de Fátima: abusos sexuais, Trump, a “peste” na Igreja e a mensagem de paz

1.076

Os processos contra padres envolvidos em escândalos sexuais estão atrasados. A mensagem de paz de Fátima é para repetir. Esta foram algumas declarações do Papa na viagem de regresso a Roma.

Tiziana Fabi/AFP/Getty Images

Autores
  • Agência Lusa

O Papa Francisco aterrou este sábado no aeroporto Roma, depois de uma visita de cerca de 24 horas a Portugal. Na viagem de cerca de duas horas e meia, o Papa falou aos jornalistas a bordo do avião da TAP. E abordou temas como o dos abusos sexuais na Igreja ou a mensagem de paz que levou de Fátima. Mas recusou falar sobre Donald Trump.

Dois mil processos de abusos sexuais atrasados

O Papa assegurou que nunca assinou um indulto a padres envolvidos em escândalos de abusos sexuais e reconheceu que os processos estão muito atrasados. Francisco comentava o tema após a decisão da irlandesa Marie Collins de se demitir da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores.

“Ela explicou-me bem as coisas, falei com ela, é uma grande mulher, e vai continuar a trabalhar na formação dos sacerdotes, neste ponto”, disse o Papa sobre Marie Collins, que se demitiu acusando o Vaticano de “falta de cooperação”. O líder da Igreja Católica deu “alguma razão” à irlandesa, afirmando que “há muitos casos atrasados, porque se amontoavam ali”, e referiu mesmo que “há dois mil processos amontoados”.

Mas, sublinhou, estão a ser feitos avanços: “Foi preciso fazer a legislação sobre o que deviam fazer os bispos diocesanos. Hoje, em quase todas as dioceses, há um protocolo para estes casos, é um grande avanço”. Francisco explicou depois que os demitidos do estado clerical recorrem da decisão na diocese.

O recurso é avaliado então por “outro tribunal”, criado pelo Papa Francisco, e que é liderado pelo arcebispo Scicluna, “um dos nomes mais fortes contra os abusos”, disse, referindo-se ao procurador do Vaticano para a questão dos abusos sexuais “Quem recorre, tem direito a ter um defensor. Se se aprova a primeira sentença, acaba o caso”, descreveu, e ao condenado apenas resta escrever uma carta a pedir clemência ao líder católico. Mas, até agora, sem sucesso: “Nunca assinei um indulto”, garantiu.

A mensagem de paz dos três pastorinhos é para repetir

O Papa Francisco comprometeu-se a repetir a “mensagem de paz” de Fátima “com quem quer que fale”. “Fátima tem uma mensagem de paz, certamente, que foi levada à humanidade por três grandes comunicadores, que tinham menos de 13 anos, o que é interessante”, afirmou, referindo-se aos três pastorinhos que estiveram na origem do fenómeno e dos quais dois, os irmãos Jacinta e Francisco, canonizou no santuário português.

A canonização dos dois beatos “não estava planeada inicialmente, porque o processo de milagre estava em marcha, mas de repente as perícias vieram todas positivas e acelerou-se, assim juntaram-se as coisas”, relatou, admitindo que este desfecho lhe causou “uma felicidade muito grande”. Questionado pela RTP sobre o que pode o mundo esperar, após a sua visita a Fátima, a primeira que realizou, o Papa respondeu: “Paz. De que vou falar eu, daqui para a frente, seja com quem for? Paz”.

Francisco relatou que, antes de visitar Portugal, recebeu um grupo de cientistas de diferentes religiões, mas também ateus e agnósticos e, um deles, ateu, disse algo que lhe “tocou o coração”. “Peço-lhe um favor: diga aos cristãos que amem mais aos muçulmanos. Esta é uma mensagem de paz”, afirmou.

A Rádio Renascença questionou Francisco sobre o significado da referência ao “bispo vestido de branco”, na oração durante a bênção das velas na sexta-feira, a mesma expressão do terceiro segredo de Fátima e que o Papa João Paulo II associou ao atentado que sofreu em 1981.“Essa oração não a fiz eu, fê-la o Santuário”, comentou. Mas, a referência ao branco pretende exprimir “um desejo de inocência, de paz, de não fazer ao mal aos outros, não fazer guerra”, explicou.

Sobre o significado do segredo, o então cardeal Ratzinger (que viria a ser o Papa Bento XVI), na altura prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (2000), “explicou tudo claramente”. A jornalista de origem argentina Elisabetta Piqué, autora de uma biografia sobre Francisco, mencionou que este sábado, dia 13 de maio, faz 25 anos que Jorge Bergoglio recebeu a informação de que seria apontado bispo-auxiliar de Buenos Aires, o que pôs um fim a uma espécie de exílio que sofreu em Córdoba, a 1.200 quilómetros da capital da Argentina. “As mulheres sabem tudo”, desabafou o Papa, sorrindo.

Francisco admitiu que na sexta-feira, enquanto rezava em frente à imagem de Maria na Capelinha das Aparições, em Fátima, é que se lembrou desta coincidência. “Somente ontem [sexta-feira], quando estava em frente à Senhora, me lembrei que tinha recebido o telefonema há 25 anos. Pedi perdão por todas as minhas falhas”, contou.

Os padres devem fugir da “peste da Igreja”

O Papa Francisco criticou o “clericalismo”, que classificou como “uma peste na Igreja” de que os padres “devem fugir”, porque “afasta as pessoas”. O papa respondia a uma pergunta da agência Lusa, em nome dos jornalistas de língua portuguesa, sobre o distanciamento entre populações de maioria católica mas cuja organização é contrária às orientações da Igreja, como o casamento entre homossexuais, a despenalização do aborto ou a eutanásia.

Francisco considerou que está em causa “um problema político”. Também, a consciência católica não é consciência, às vezes, de pertença total à Igreja. Por detrás, não há uma catequese matizada, uma catequese humana”, comentou.

Para Francisco, “falta informação e também cultura”, além de um “trabalho de catequese, de consciencialização, de diálogo, de valores humanos”. De seguida, o líder da Igreja Católica disse que “é curioso que em algumas regiões, como Itália, como a América Latina, são muito católicos, mas são anticlericais”. “É um fenómeno que acontece”, referiu.

Questionado se este fenómeno o preocupa, respondeu afirmativamente. “Claro que me preocupa. Por isso digo aos sacerdotes: fujam do clericalismo, porque o clericalismo afasta as pessoas“, salientou. “Fujam do clericalismo, e acrescento: é uma peste na Igreja”, disse ainda.

Papa recusa falar de Trump, com quem se encontrará este mês

O papa Francisco rejeitou tecer considerações sobre o Presidente norte-americano, que receberá no próximo dia 24, e defendeu a necessidade de haver “diálogos sinceros” porque “a paz é artesanal e faz-se todos os dias”.

Questionado sobre as suas expectativas sobre o encontro, previsto para dia 24 de maio, com o Presidente norte-americano, Donald Trump, Francisco respondeu: “Não quero fazer um juízo sem sentir a pessoa”. “Na nossa conversa, eu digo o que penso, ele dirá o que pensa”, referiu.

Francisco sublinhou que “a paz é artesanal, faz-se todos os dias”, tal como “a amizade, o conhecimento mútuo, a estima”. Instado a comentar o tema dos migrantes, que Donald Trump rejeita e cujo acolhimento Francisco tem defendido, o papa apontou que “há sempre portas que não estão fechadas”.

“Devemos aproximar-nos das portas que estão, pelo menos, um pouco abertas, entrar, falar sobre as coisas comuns e andar em frente, passo a passo”, considerou. Sobre estas conversas, Francisco sublinhou a necessidade de manter o respeito e a sinceridade. “É preciso dizer o que se pensa, mas com respeito. Mas dizer, ser muito sincero sobre aquilo que cada um pensa”, salientou.

O Papa deverá receber Donald Trump no dia 24 de maio na Santa Sé, durante a visita do Presidente dos Estados Unidos a Itália para participar na cimeira do G7, nos dias 26 e 27 na Sicília.

    Se tiver uma história que queira partilhar ou informações que considere importantes sobre abusos sexuais na Igreja em Portugal, pode contactar o Observador de várias formas — com a certeza de que garantiremos o seu anonimato, se assim o pretender:

  1. Pode preencher este formulário;
  2. Pode enviar-nos um email para abusos@observador.pt ou, pessoalmente, para Sónia Simões (ssimoes@observador.pt) ou para João Francisco Gomes (jfgomes@observador.pt);
  3. Pode contactar-nos através do WhatsApp para o número 913 513 883;
  4. Ou pode ligar-nos pelo mesmo número: 913 513 883.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Política

O vídeo das nossas vidas

Helena Matos
904

Beija-mão presidencial ao Papa em Monte Real. Um primeiro-ministro a brincar às amas. O país olha para o lado. E indigna-se com o "Correio da Manhã". É a propaganda, senhores. É a propaganda.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)