A chanceler alemã Angela Merkel denunciou esta segunda-feira a proibição imposta pelas autoridades turcas a deputados alemães que pretendiam deslocar-se a uma base onde estão estacionados militares alemães e admitiu uma possível retirada das tropas.

“É lamentável”, declarou Angela Merkel durante uma conferência de imprensa do seu partido, e quando diversos deputados pretendiam deslocar-se esta semana à base de Incirlik, centro das operações da coligação internacional contra o grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico (EI). Após recordar que a Alemanha já se confrontou no passado com dificuldades em organizar a visita de deputados a esta base, que acolhe atualmente 270 militares alemães, Merkel evocou “a procura de alternativas a Incirlik” e “uma alternativa possível que seria a Jordânia”.

Apenas posso repetir o que afirmei quando surgiram as primeiras dificuldades: a Bundeswehr [o exército alemão] é um exército parlamentar e assim é absolutamente necessário que os nossos deputados possam visitar os nossos soldados nas suas instalações”, insistiu Merkel, numa referência ao estatuto particular do exército alemão, que apenas intervém em operações no exterior do seu território após voto favorável dos deputados alemães.

Desde há cerca de um ano que se regista um agravamento das relações diplomáticas entre Berlim e Ancara, com a Turquia a acusar sistematicamente a Alemanha de ingerência ou de apoio às formações políticas que contestam o Presidente Recep Tayyip Erdogan. Esta nova querela surge após a profunda crise da primavera, quando Erdogan acusou Berlim e outras capitais europeias de práticas “nazis” após as proibições de diversos comícios de apoio à reforma constitucional que reforça os poderes do Presidente turco.

Em 2016 a Turquia tinha já rejeitado uma visita de deputados alemães a Incirlik, e após o Bundestag (câmara baixa do parlamento) ter reconhecido o genocídio dos arménios pelo poder otomano no decurso da I Guerra Mundial. Berlim considera que Ancara decidiu agora punir a Alemanha devido à decisão em conceder asilo político a militares turcos que solicitaram o pedido após as vastas purgas desencadeadas na sequência do fracassado golpe militar de julho de 2016.

Talvez [a proibição tinha sido decidida] devido às decisões de autoridades alemãs independentes relacionadas com membros do exército turco”, considerou por sua vez o porta-voz da diplomacia alemã, Martin Schäfer.

Centenas de diplomatas, militares e membros das suas famílias solicitaram asilo na Alemanha. Desde janeiro que Ancara pressiona Berlim para rejeitar semelhantes pedidos e exige igualmente a extradição dos alegados golpistas que se refugiaram na Alemanha. Segundo referiu Schäfer, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Sigmar Gabriel, vai ainda abordar com os responsáveis turcos o contencioso em torno de Incirlik numa reunião da coligação anti-EI que decorre esta semana em Washington.

Caso Berlim opte por um novo local para as suas tropas e os seus aviões Tornado que efetuam missões de reconhecimento ou reabastecimento sobre os territórios controlados pelos ‘jihadistas’ na Síria, a Jordânia será o local mais conveniente. “A Jordânia dispõe de melhores condições, mesmo que não seja comparável a Incirlik, no que respeita às relações de segurança e a coordenação com os aliados”, considerou a propósito Jens Flosdorff, porta-voz do ministro da Defesa.