A julgar pela votação que o jornal La Vanguardia conduziu durante o debate entre os três candidatos à liderança do Partido Socialista dos Trabalhadores (PSOE), Pedro Sánchez esmagou os adversários: 81% das quase 10 mil pessoas que votaram na página do jornal dizem que Sánchez se saiu melhor que Susana Díaz, presidente do governo regional de Andaluzia, e Patxi Lopez, antigo presidente da Região Autónoma do País Basco e ex-secretário-geral do ramo basco do PSOE.

Mas enquanto prometia soluções para o país, Pedro Sánchez falou da “via portuguesa” e do “acordo vanguardista de esquerdas” orquestrado por um tal de António Soares, supostamente o primeiro-ministro de Portugal. A reação nas redes sociais foi imediata:

Apesar de ter confundido o apelido do primeiro-ministro como o de outro socialista famoso (Mário Soares, também ele primeiro-ministro, só que em 1976 e 1983), a intenção de Sánchez era a de apresentar como possibilidade para a realidade fragmentada da política espanhola a “via portuguesa”.

No debate desta segunda-feira, a grande discussão foi entre Díaz e Sánchez. Díaz acusou Sánchez de representar “o passado volátil” de um PSOE “que perde eleições”. Sánchez não ficou atrás ao argumentar que a presidente da Andaluzia deixou passar o governo do Partido Popular (PP) de Mariano Rajoy ao ter escolhido abster-se no debate de investidura do atual Executivo espanhol.

As discussões atuais no seio dos socialistas espanhóis centram-se muito nesta questão: será que foi sensato viabilizar um governo de inspiração conservadora, pejado de escândalos, ou, por outro lado, teria sido melhor o que propunha Sánchez, uma posição intransigente contra a investidura do PP? Sánchez, que então liderava o partido, tentou segurar o seu emprego à frente dos socialistas mas foi rejeitado por 132 membros do partido depois de quase 12 horas de debate interno. Na altura Susana Díaz disse que “as necessidades do país têm que estar antes das necessidades do partido”, e que Sánchez estava a colocar Espanha “no caminho de uma terceira eleição geral”.

Para Susana Díaz, a “raíz do problema” que atormenta o PSOE é precisamente o facto de Sánchez não se ter demitido logo depois das duas eleições que perdeu face a um PP “infame e tóxico”. A primeira, em Dezembro de 2015, quando a coligação de esquerdas roubou bastantes votos ao PSOE (que perdeu 20 deputados) e, a segunda, em junho de 2016 quando a coligação de esquerdas perdeu o élan que tinha conseguido em dezembro e também não conseguiu viabilizar qualquer governo deixando essa tarefa para os socialistas — que deixaram o PP “passar” através da abstenção.

Num debate que se revelou, em certos momentos, duro, foi Díaz quem desferiu os golpes mais violentos, com Patxi Lopez quase servindo de “mediador”, pedindo “união”, criticando ambos pelos ataques mútuos e pedindo que se esqueça o passado e se passe para a discussão de políticas. Os dois principais candidatos, contudo, não lhe prestaram muita atenção e continuaram a discutir. Depois de uma série de acusações de Sánchez, Díaz disse aquela que já foi eleita como frase do debate: “No mientas, cariño!(“Não mintas, querido!”), pediu a Pedro Sánchez.

Díaz quase nunca desarmou: “Será que não estamos a beneficiar o PP escolhendo um candidato à liderança que é um perdedor?” E continuou: “Eu não sou o seu problema, Pedro, você é o seu próprio problema”, disse Díaz. A líder andaluz justificou a acusação com o facto de o ex-secretário-geral ser “um vira-casacas”, que não se importou de defender uma aliança com os liberais do Ciudadanos para agora defender uma outra com o Podemos, que está muito à esquerda do PSOE .

Apesar da posição combativa de Díaz, uma sondagem realizada pelo instituto Sigma Dos para o El Mundo mostra que 52% dos inquiridos optariam por Sánchez, contra 27,1% que escolhem a presidente do governo da Andaluzia e 14,4% preferem o ex-líder do País Basco.

O jornal foi ainda tentar entender com qual dos três líderes o PSOE conseguiria melhor votação em caso de eleições legislativas. A vantagem volta a ser de Sánchez: os espanhóis liderados por ele subiriam 5,7 pontos em relação à última sondagem, conseguindo 28,2% das intenções de voto, muito perto dos 29,9% do Partido Popular do primeiro-ministro Mariano Rajoy. Com Susana Díaz ao leme, o PSOE subiria dois pontos, conseguindo 24,7% contra 29,4% do PP. Quase 200 mil socialistas votam no domingo para escolherem a liderança do seu partido.