Quando todas as luzes (All of the lights) de Kanye West invadem o palco do Sapphire, em Orlando, nos Estados Unidos, há 30 mil pessoas preparadas para ouvir Bill McDermott. Troca-se uma rock star por outra, deixa-se o hip- hop pela tecnologia. E o CEO da SAP, a multinacional alemã que é líder no mercado de software e aplicações empresárias, explica porque é que as empresas que querem fazer parte daquela que é a quarta revolução industrial – a digital – têm de apostar tudo no “novo ouro” dos negócios: os dados.

“As empresas estão a reinventar os modelos de negócio. Estão a mudar [a forma como operam] da ideia de ativos para a ideia de rede na economia de partilha. E, enquanto fazem isto, enfrentam a competição mais dura de sempre”, explicou o CEO do SAP, na abertura do maior evento mundial da empresa que conta com 350 mil clientes em 180 países e está presente em 97% das universidades de topo do mundo. No Sapphire, há uma coisa que fica clara sob as luzes da remistura do hit de Kanye West com Rihanna: “as máquinas vão tornar-se cada vez mais espertas”.

Toda a gente fala de um radical de inovação novo hoje, chamam-lhe ‘negócios digitais’, mas o que isto significa é que agora temos inteligência a conectar pessoas, empresas, negócios. E se fizermos isto bem, podemos fazer mais pelos nossos clientes. E a melhor forma de fazermos isto bem é com os dados. Os dados são o novo ouro das empresas. Pensem nisto”, afirmou o homem que desde 2014 lidera as operações da multinacional alemã.

Porque quer “assegurar que os dados são diferenciadores”, Bill McDermott não se fica por eles. Junta-lhe o outro ingrediente secreto para ter sucesso na revolução digital: a velocidade. “A outra chave dos negócios digitais é a velocidade. Todas estas ferramentas que temos – a inteligência artificial, o machine learning (aprendizagem máquina), a internet das coisas, a blockchain – tratam todas de aumentar a velocidade e a agilidade”, afirmou num palco que se ilumina de azul e ecoa pelo centro de congressos de Orlando. “Lembrem-se que já estivemos aqui. O mundo já se reinventou várias vezes ao longo da história”, continuou.

A SAP ajuda empresas de várias dimensões e indústrias a melhorarem a forma como o seu negócio funciona em variados departamentos: na administração, nos armazéns, nas lojas ou em movimento, através de dispositivos móveis ou na nuvem (cloud). Bill McDermott simplifica a sua missão numa dieta personalizada. “Queremos cortar o colesterol das empresas. Queremos empresas saudáveis a crescer depressa”, referiu antes de chamar ao palco o “grande amigo” que é outra estrela de rock desta concerto tecnológico: Michael Dell.

O icónico fundador da Dell lembrou os tempos em que fundou a empresa no dormitório da universidade e explicou que, atualmente, “o custo de tornar uma coisa inteligente está a aproximar-se de zero dólares”.

Hoje, temos a internet, a cloud, a internet das coisas. E quando se tem todos destes dados, de centenas de biliões de aparelhos, e lhe adicionas a inteligência artificial, então tens mesmo a quarta revolução industrial. E é a oportunidade para as empresas se reinventarem”, afirmou.

Para levar avante esta revolução digital, Michael Dell diz que as tecnologias de informação têm de fazer parte da evolução estratégica da empresa. “Uma transformação digital não é um projeto do departamento de tecnologias de informação, tem de ser um projeto do CEO. Se o CEO não entender isto, não há como explicar. A organização do departamento de tecnologias de informação tem de estar completamente alinahda com a estratégia da empresa. Não podes fazer nada sem elas. Não podes desenhar um produto, vendê-lo, ter relações com os teus clientes”, afirmou, lembrando que “esta transformação é real” e que está a chegar depressa.

“Os sistemas estão a tornar-se cada vez mais autónomos”

A atração principal do Sapphire – e a solução dos olhos de Bill McDermott – chama-se Leonardo e é um sistema de inovação digital que junta as capacidades de machine learning, internet das coisas, big data e blockchain na SAP Cloud Platform, ou seja, na nuvem, para mudar processos de negócio que são impossíveis de modificar com uma só tecnologia. Objetivo: disponibilizar ferramentas aos clientes que permitam construírem o que precisam para se reinventarem.

As novidades deste sistema de inovação assentam num conjunto de novas aplicações com funcionalidades de machine learning para funções corporativas, da faturação ao atendimento e retenção do cliente; e num serviço de SAP Cloud Platform Blockchain para a construção de extensões às aplicações e novas soluções usando a tecnologia blockchain – plataforma de transações na rede onde assenta, por exemplo, as moedas virtuais, como as bitcoins.

Os sistemas estão a tornar-se cada vez mais autónomos e vão ter tempo para ficarem-se nalgumas atividades. Acredito que esta mudança vai acontecer mais depressa do que o que pensamos”, afirmou o CEO da SAP aos jornalistas.

Para Bill McDermott, “as máquinas vão tornar-se cada vez mais espertas com o tempo” e isto “vai acontecer muito depressa”. “Ouvir o consumidor é a coisa mais importante que temos para fazer. Nós ouvimos os nossos clientes e isso ajuda-nos. É como um desporto de equipa”, afirmou o CEO da SAP, para quem nem a geopolítica se pode intrometer nesta relação.

A realidade é que o mundo está num estado de transição. Se olharmos para a União Europeia agora, com as eleições de Macron e as que se avizinham na Alemanha, parece que a União Europeia vai continuar a com um mercado único, exceptuando o Brexit. Estou encorajado em termos de economia global, que o o mundo vai continuar a ser maior e não mais pequeno”, assegurou o líder da tecnológica, no dia em que a SAP e a Google reforçaram a sua parceria de co-inovação estratégica.

No palco do Sapphire, a Google e a SAP anunciaram o Intelligent App Challenge, uma competição que desafia os ecossistemas de parceiros da Google e da SAP a construírem aplicações inteligentes usando ferramentas da multinacional alemã. É desta forma que os dois gigantes planeiam acelerar a transformação digital das empresas. Como? Combinando a experiência da SAP em processos de negócios com os serviços de machine learning da Google, como as ferramentas de tradução, por exemplo. Nos vários palcos do Sapphire, all of the lights are on. Online e Offline.

*A jornalista viajou para Orlando a convite da SAP