Empreendedorismo

Nesta escola em Alcântara, nenhuma ideia é “velha demais” para recomeçar

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Têm mais de 30 anos, estão desempregados e querem voltar a ser "donos de si", na Escola de Impacto que ocupa a antiga cozinha da estação de comboios que hoje dá lugar ao Museu da Carris, em Alcântara.

O programa da Escola de Impacto foi desenvolvido em conjunto com associações parceiras da fundação, como a ACA, AMI, CAIS, CASA, Centro Sagrada Família, Comunidade Vida e Paz, entre outras

Autor
  • Cristiana Faria Moreira

Nesta escola, o desafio do dia era fazer um desenho que representasse a ideia do negócio que querem lançar. “O que eu preciso agora é de raízes e asas para voar”, diz uma das “alunas”. Mas como é que isso se faz? Desenhando. Respondem-lhe que toda a gente pode ter uma ideia e concretizá-la. Luís Pedro, 55 anos, tem uma: quer “ser mais dono” de si com a cabeça do primeiro rinoceronte que veio para a Europa, em 1515.

Designer gráfico de profissão, Luís está desempregado há três anos, culpa da crise, que o pôs numa situação “inesperada”, conta ao Observador. “A minha vida não foi construída a pensar que aos 55 anos iria estar desempregado.” Depois de várias candidaturas sem resposta “absolutamente nenhuma”, candidatou-se à Escola de Impacto, o programa que a Fundação Ageas lançou com a comunidade de empreendedores de impacto de Lisboa, a Impact Hub Lisbon, para capacitar e integrar pessoas em situação de desemprego. Desafio: transformar experiências em ideias e ideias em negócios.

Não tinha nada a perder. Achei que era uma boa oportunidade, já que sou velho para o mercado de trabalho, mas sou novo para a reforma. Pensei que seria uma oportunidade de concretizar um sonho que sempre tive”, conta.

Na antiga cozinha e cantina da estação de comboios que hoje dá lugar ao Museu da Carris, em Alcântara, estão sentadas 14 pessoas com mais de 30 anos à volta de uma mesa. Há folhas brancas e quadros rabiscados com análises SWOT – para identificar as Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças de determinado projeto – e uma ferramenta básicas para o planeamento estratégico de um negócio – como de se uma empresa se tratasse. Ali, projetam-se negócios, mas também sonhos. E a esperança de ultrapassar uma fase menos feliz, a do desemprego.

Luís Pedro quer aliar o gosto que tem pelo desenho, desde miúdo, e pela publicidade e criar produtos de merchandising para cidades. Está a trabalhar em Lisboa, como um “teste, para ver se funciona”. Em marcha, está já o desenho: a cabeça do primeiro rinoceronte que veio para a Europa, em 1515. Um pedaço de história imortalizado numa das guaritas da Torre de Belém.

Os portugueses não sabem nada disto, mas todos os alemães sabem, todos os turistas que vêm cá querem ver a cabeça do rinoceronte”, nota. Por isso, fez o desenho do animal que pode ser adaptado a uma t-shirt, a uma peça de porcelana ou a uma base de azulejo, por exemplo.

Já Miguel Carrilho, 55 anos, quer tornar as tecnologias de informação “acessíveis a muita gente”. Paixão antiga desde que foi a uma exposição no Instituto Superior Técnico, onde viu “umas coisas que pareciam televisões com uns ecrãs verdes”. “E disse, é mesmo isto que eu quero. Isto é que é para mim”. E foi mesmo. O plano de seguir arquitetura caiu por terra. Depois chegou o seu Spectrum (computador da década de 80). “Passava horas de volta daquilo”, conta. Acabou por tirar um curso de informática, que lhe custou “uma pipa de massa”, porque na altura ainda não havia cursos de engenharia informática.

Há quase dez anos desempregado, tem tido só trabalhos “precários”. Nalguns nem sequer lhe pagaram, conta. Hoje, diz estar “completamente descontextualizado” do que é o mercado de trabalho atual. “Somos novos demais para nos reformarmos e velhos demais para trabalhar”, lamenta. Agora, quer pôr esses conhecimentos em prática para tornar as tecnologias de informação acessíveis a muita gente. Como?

As pessoas quando deixam de utilizar um equipamento, regra geral, deitam para o “Electrão”. Antes de deitarem [esses equipamentos] fora, quero fazer uma crivagem dos materiais, para serem reaproveitados e dados para [organizações não governamentais] ONG’s. Este é o meu projeto”, conta. Quer ainda utilizar no seu projeto pessoas que estejam em situação de desemprego nas áreas das tecnologias de informação para ajudarem no restauro dos equipamentos.

Integrar ideias na cadeia de valor das empresas

A Escola de Impacto arrancou no final de março e vai decorrer até ao final de junho, depois de 14 semanas de formação: dos brainstormings, aos trabalhos individuais, em grupo, ao desenho do modelo de negócio e à criação de uma proposta de valor final, acompanhadas por mentores. No final, tal como qualquer empreendedor, vão fazer um pitch (apresentação) final a empresas convidadas e investidores. A ideia é que estas empresas possam “integrar estes negócios sociais na sua cadeia de valor ou gerar emprego”, explica ao Observador Gonçalo Teixeira, diretor geral do Impact Hub Lisboa.

O programa foi criado em conjunto com associações parceiras da fundação, como a ACA (Associação Conversa Amiga), AMI, CAIS, CASA (Centro de Apoio aos Sem Abrigo), Centro Sagrada Família, Comunidade Vida e Paz, entre outras, para que estas pudessem indicar pessoas para quem o projeto pudesse ser uma mais-valia. Candidataram-se quase 50 pessoas, todas com mais de 30 anos, um dos requisitos, e com, pelo menos, o 9º ano. Nesta fase, já só estão 14, que representam as franjas da sociedade.

Não nos queríamos sobrepor aquilo que já existe ao nível de respostas públicas, nomeadamente do Instituto do Emprego e Formação Profissional, da Câmara de Lisboa ou até de organizações e de IPSS e ONG’s que já trabalham diariamente no terreno com pessoas em situação de exclusão”, explica Célia Inácio, presidente do Conselho de Administração da Fundação Ageas.

Carlos Reis Marques é diretor executivo do VCW Center, que desenvolve a metodologia Value Creation Wheel (VCW), desenvolvida na School of Business and Economics da Universidade Nova de Lisboa, que está a ser aplicada na Escola de Impacto, e um dos formadores.

“Creio que a experiência tem sido boa para eles. Há pessoas que partiram com um desafio e, quando chegaram à terceira fase da metodologia, perceberam que tinham partido com o desafio errado”. Hoje, considera, eles têm uma ideia “mais concreta do que querem fazer, sabem melhor como o podem fazer e têm uma perceção mais clara da abordagem ao mercado e de como melhorar a sua oferta”.

Qualquer pessoa que tenha frequentado uma ação de formação tem noção de que as coisas estão demasiado formatadas. Não há uma grande vaidade na forma como é transmitido o conhecimento. Aqui não. Aqui sentimo-nos privilegiados porque temos acesso a pessoas que são realmente competentes naquilo que estão a transmitir e têm gosto em fazê-lo”, considera João.

São projetos para ganhar dinheiro. E não para enriquecer

Na Escola de Impacto, não há empreendedores de fato e gravata, nem querem sê-lo. Têm ideias para melhorar o próprio bairro e que, de alguma forma, se encaixam nas várias dinâmicas atuais da cidade de Lisboa. Reúnem-se três manhãs por semana e querem ter impacto social. Querem fazer de uma história menos feliz uma oportunidade para ajudar o outro.

João Antunes Pereira , 33 anos, trabalha há vários anos como promotor e DJ, dentro do mercado de música alternativa. Está há alguns meses desempregado, depois de ter trabalhado como assistente de backoffice num cliente de uma multinacional. A empresa perdeu o cliente. Ele perdeu o emprego.

Quando vim para cá, a minha ideia era organizar eventos em Marvila e ter uma editora para fazer edição física de conteúdos que apenas existem em formato digital. E também organizar um festival de música alternativa em Marvila”, conta ao Observador.

Depois destas semanas de formação, a ideia mudou. Agora, quer criar uma associação cultural, um “canal próprio para dinamizar essas iniciativas”. Vê a Escola de Impacto como uma “oportunidade” para relançar a sua carreira.

Todos nós vimos de áreas diferentes, mas temos ideias que se completam. Alguém tem sempre alguma coisa a acrescentar àquilo que nós pensamos que sabemos e que não sabemos na totalidade”, considera Luís Pedro. “Nós temos aqui um mestre em história que o sonho dele é fazer visitas guiadas a pé na cidade de Lisboa. Pode ser um parceiro para mim, porque a minha ideia é vender merchandising mas com peças que contem uma história”, nota.

Uma ideia daqui, uma ideia dali, cada um traz uma “dinâmica” para cada sessão de trabalho. “Conseguimos começar a criar grupos de trabalho entre eles de forma a que percebam que juntos podem fazer a diferença, ainda maior diferença do que sozinhos”, diz Célia Inácio.

Para Luís Pedro esta segunda fase tem sido “a doer”. “Quero saber que portas é que vou abrir, que janelas é que vou fechar para o objetivo ser focado e exatamente aquilo que eu quero. E arranjar as competências para lá chegar”, diz o designer. “Aqui temos muito tempo para parar e para pensar”. Ainda não sabe se o seu projeto vai ser aprovado, mas a ideia, diz, “tem pernas para andar”. Se passar à terceira fase, terá o apoio de mentoria para aprender a apresentá-lo e a defendê-lo.

Miguel também quer chegar ao fim mas, independentemente de conseguir ou não, quer seguir com o projeto, “com mais ou menos custo”. “Vou aproveitar toda a formação que aqui tive para poder tornar isso viável”, sublinha. Continua a arranjar computadores. “A minha garagem está cheia de equipamentos velhos e coisas desse género que são reaproveitáveis. Às vezes quando tenho oportunidade consigo construir um computador para dar alguém e quero continuar a fazer isso”, conta. Diz que faz “intenção de ganhar dinheiro” para se manter, não para “enriquecer”.

Faço questão que o projeto dê dinheiro a ganhar a algumas pessoas. E faço questão de largar o projeto quando ele estiver a andar. E depois partir para outra coisa”, diz.

Para Carlos Reis Marques, os “alunos” da Escola de Impacto estão melhor preparados para responder ao desafio que tem pela frente – o da empregabilidade. “Há ideias que são muito boas e que têm todas as possibilidades de vingarem, de terem sucesso e de resolverem as vidas deles. Não tenho a menor dúvida”, considera o professor.

A ideia, diz Célia Inácio, é conseguir fazer várias edições e fazer deste programa um “modelo” que possa ser adaptado a outros públicos “em determinada situação de vulnerabilidade”. Ao mesmo tempo que trabalham lado a lado com uma “comunidade dinâmica, jovem, criativa”, que tem ocupado a velha cantina da estação de comboios do Museu da Carris. Para lhes abrir a mente. Para lhes provar que, também eles, podem criar.

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