É sempre o problema da gestão das expetativas. Jerónimo de Sousa citou sabedoria popular e os tradicionais “caldos de galinha…” mas foi António Costa a tomar cautelas para não se exceder em festejos pelas boas notícias das últimas semanas. De frente para Luís Montenegro, do PSD, o primeiro-ministro voltou a usar a seu favor aquela péssima gestão de expetativas que Pedro Passos Coelho fez desde que perdeu o Governo. Reforçou o discurso: “Invertendo a vossa política, saímos do Procedimento por Défices Excessivos”. Mas a seguir voltou a refrear os ânimos para mais tarde não lhe caírem também as palavras em cima: “Não é o paraíso, mas seguramente não é o inferno”.

É mais ou menos a meio caminho. E a meio caminho entre o paraíso e o inferno fica o purgatório, onde se purificam as almas, onde o país tem passado os últimos anos a “purificar” as contas. Pode ter sido um ato falhado. António Costa pode até não ter dado conta, mas ao colocar-se nesse limbo, reconhece que caminha sobre brasas. Do ponto de vista financeiro e orçamental, entre o paraíso e o inferno, existe um grau de incerteza. No purgatório continua-se sob avaliação e vigilância. Por mais que não queira, mantém-se a influência de uma espécie de austeridade. A direita chama-lhe austeridade de esquerda (cativações , falta de investimento e etc.), e a esquerda chama-lhe a necessidade de ir mais longe (para acabar com essas cativações, falta de investimento e etc.).

A herança e a cartilha de Sócrates. Como atacar boas notícias

Com Costa limitado no sentido de não parecer que estava a “embandeirar em arco”, como lhe recomendou o Presidente da República, coube a João Galamba fazer a descrição da realidade mais aproximada do paraíso. Para o porta-voz do PS, a saída do PDE “valida a estratégia económica do Governo”, contra todos os que vaticinaram o contrário. Encontrar um adversário externo que se vence é uma tática política antiga: “É o reconhecimento a contragosto porque muitas instituições disseram que não era possível”. Mais. Tudo reforça a narrativa da esquerda contra a direita: “Esta é a principal reforma estrutural deste Governo: recusar o caminho que os senhores [a direita] dizia ser a única alternativa e ousar fazer diferente do que os senhores fizeram. Aconteceu exatamente o oposto de tudo o que disseram.”

Galamba embandeirou. E não embandeirou apenas contra a direita. Embandeirou perante a Europa. Como se a “geringonça” fosse a salvação para a saída portuguesa do purgatório, e como se as políticas do Governo português fossem o antídoto salvífico contra os populismos e a desagregação da União Europeia. “A democracia europeia não sobreviverá enquanto for uma democracia de caminho único”, disse Galamba. “Não é lesa-Europa fazer diferente”. E então embandeirou um pouco mais ao dizer que a Europa precisava era de políticas que “podem contrariar a ortodoxia no início” mas que depois funcionam, para as pessoas não se refugiarem “em movimentos xenófobos ou racistas”, ou para não enveredarem pelo “nihilismo”. Galamba foi o mais solto e o menos defensivo da tarde.

Neste debate quinzenal, o que percebemos foi esta dificuldade de todos os partidos manterem um discurso coerente, por estarem limitados, cada um à sua maneira. O PS para evitar o otimismo excessivo. O Bloco e o PCP a fazerem tudo para não elogiarem a superação de uma prova que para eles é uma chantagem de Bruxelas e isso não se aplaude, combate-se. E a direita com a dificuldade cada vez maior em encontrar o tom certo entre o elogio contido e a crítica necessária. Apesar de tudo, desse lado do hemiciclo, o CDS foi quem conseguiu o melhor equilíbrio, mesmo que Assunção Cristas não tenha estado na tarde mais inspirada (tréguas uma semana depois da cena das estações do metropolitano?).

Conforme o Governo vai obtendo resultados, sejam bons ou moderados, o PSD reforça as dificuldades em contrapor argumentos à retórica socialista. Mais uma vez com Passos Coelho calado a seu lado, Luís Montenegro disse não ter problemas em “cumprimentar o Governo português”, mas depois enredou-se naquilo que é cada vez mais um beco de onde os sociais-democratas não conseguem sair: a discussão sobre os louros das boas notícias, o crescimento mais acelerado, a redução do desemprego ou a saída do PDE. “É preciso não desbaratar a herança”, avisou. “Quer viver dos rendimentos que recebeu”, lançou. “Tem uma boa herança e uma boa conjuntura”, constatou. E pediu reformas. A posição do PSD é cada vez mais difícil. Costa tomou posse há ano e meio. Faltam quatro meses para umas eleições. E Passos Coelho ainda não encontrou o tom certo de forma a passar uma mensagem para que os portugueses percebam que a toika já saiu da São Caetano.

Montenegro só somou pontos quando recuperou “a cartilha socialista antes do resgate”, e recordou as medidas de austeridade implementadas por José Sócrates no tempo dos sucessivos PEC. Uma parte do friso do Governo estava, nessa época, a leste do paraíso, ao lado dessa austeridade. Depois foi o Diabo…