Não entram bebidas nem comida. Só são permitidas malas de pequena dimensão, mas até essas são sujeitas a uma revista exaustiva. E há objetos expressamente proibidos: chapéus de chuva grandes, lasers, lanternas e bandeiras não podem entrar nos recintos. Estas são as “regras de segurança muito apertadas” pelas quais devem passar os espectadores dos concertos de Ariana Grande, cantora pop norte-americana de 23 anos, de acordo com as explicações dadas ao The New York Times pelo CEO da SMG, a empresa responsável pela segurança da Manchester Arena. É, garante Wes Westley, “uma segurança tão firme como em qualquer lugar nos Estados Unidos”. Mas não foi suficiente para evitar um ataque terrorista, entretanto reivindicado pelo Estado Islâmico, em que um homem fez rebentar uma bomba artesanal matando 22 pessoas (entre elas crianças e adolescentes) e ferindo outras 59.

As últimas notícias sugerem que o homem terá detonado a bomba numa zona não abrangida pela segurança. Tudo terá acontecido já à saída do concerto, numa zona pública que liga a Arena à estação ferroviária de Manchester Victoria. Era lá que vários pais esperavam pelos filhos que assistiram ao concerto. Ainda assim, a SMG defende-se dizendo que esse é “um espaço público fora da Manchester Arena” onde as pessoas podem entrar sem passarem por quaisquer procedimentos de segurança porque não pertence ao recinto onde Ariana Grande havia atuado instantes antes perante um público de 21 mil pessoas, todas maiores de seis anos. São apenas menos mil do que as que a esperam em Portugal a 11 de junho no MEO Arena, em Lisboa, no âmbito da tour “Dangerous Woman”. Mas como é que se prepara um dispositivo de segurança em concertos de grande dimensão no país?

Quantos seguranças são precisos?

Número de seguranças depende do número de espectadores

Em primeiro lugar, é preciso consultar uma portaria publicada em maio de 2014 em Diário de República sobre a segurança privada em “espectáculos e divertimentos em recintos autorizados”. Segundo essa portaria, há um número mínimo de agentes da segurança que deve ser destacado para esses concertos e que é calculado em função do número de pessoas previstas para o evento. Em espectáculos com um máximo de cinco mil pessoas devem estar no local doze seguranças. Se houver entre cinco mil e dez mil pessoas no evento, é obrigatória a presença de pelo menos vinte elementos, um número que sobe para trinta quando o espectáculo tem entre dez mil e quinze mil pessoas. Em espectáculos com mais de quinze mil pessoas, o organizador do evento deve ter mais dois agentes por cada mil pessoas. Isto significa que, num espectáculo com casa cheia no MEO Arena, devem estar no local 40 agentes de segurança privada.

Qual o papel da polícia?

Dar OK ao plano de segurança apresentado pelo promotor

Numa circular disponibilizada pela Polícia de Segurança Pública (PSP) em 2014, é explicado que, em eventos com mais de três mil pessoas realizados ao ar livre, deve ser preparado um plano de prevenção e segurança obrigatório. Primeiro, o projeto do evento é licenciado pela Inspecção-Geral das Atividades Culturais. A seguir, a Câmara Municipal dá ou não licença para a sua realização. O plano de segurança tem de ser depois elaborado pela empresa organizadora do evento, a empresa de segurança que trabalha com a produtora, a Protecção Civil, o INEM e os bombeiros. Esse plano de segurança deve ser apresentado pelo promotor à PSP até trinta dias úteis antes do início do espectáculo. 24 horas antes do evento é necessário informar as forças de segurança territorialmente responsáveis de quantos bilhetes foram vendidos e quantas pessoas deverão assistir ao espectáculo.

E os seguranças privados?

Lista completa com identificações entregue 6 horas antes

A empresa contratada para garantir a segurança privada do evento tem mais deveres. Depois de elaborar o plano de segurança, deve ser nomeado um coordenador da equipa de vigilância: é ele quem vai dirigir e supervisionar os restantes funcionários destacados para o evento. A lista completa de seguranças privados deve ser entregue com pelo menos seis horas de antecedência à polícia e incluir os números de cartão profissional de cada um deles. Todos são designados “Assistentes de Recinto de Espectáculo”: alguns terão uma farda identificadora, mas outros podem circular anonimamente entre o público.

O que se faz nos festivais portugueses?

Do selfie sticks à comida

João Carvalho, fundador do festival Vodafone Paredes de Coura, lembra que “as medidas de segurança foram reforçadas nos últimos anos” por causa de acontecimentos como os vividos na noite de segunda-feira em Manchester, mas as regras são basicamente as mesmas desde o início, há 25 anos: há uma revista à entrada, objetos que não podem entrar no local, agentes da polícia espalhados pelo recinto e algumas zonas com segurança mais apertada. Entre essas zonas está o campismo, junto à praia fluvial do Taboão, onde os polícias — tanto fardados como à paisana — vigiam o espaço; e a entrada, onde há mais concentração de agentes. Tudo com discrição, conforme acordado com a polícia, para “não beliscar a privacidade” dos participantes, afirma João Carvalho.

Quanto à revista à entrada, onde os festivaleiros trocam os bilhetes por pulseiras num pórtico, são deixados para trás “quaisquer objetos que ponham em causa a vida de alguém”, explica João Carvalho. Há dois anos, a maior parte dos festivais (como o Super Bock Super Rock ou o NOS Alive) decidiram colocar os selfie sticks, que servem para tirar fotografias com o telemóvel, na lista de objetos proibidos. À época, à New in Town (NIT), a Everything is New — organizadora do NOS Alive — justificou a decisão dizendo que foi tomada “a pensar na segurança e conforto do público”. Quanto ao fundador do Paredes de Coura, essa nunca foi uma preocupação da segurança no local: “Não me lembro de ver selfie sticks em Parede de Coura. Num sítio cheio de árvores, era mais fácil arrancar um galho, que era mais perigoso. Nunca tivemos esse tipo de problemas”. No site do festival em Paredes de Coura, esclarece-se ainda que “é proibido entrar com qualquer tipo bebidas ou alimentos no recinto”. No entanto, no campismo, as regras são diferentes: “Apenas não poderás levar alimentos ou bebidas em garrafas de vidro. Tudo o resto fica à tua responsabilidade”.

A lista de proibições do Super Bock Super Rock, festival que recebe até 20 mil pessoas por dia, também está disponível online: é proibida a entrada de bebidas, latas, máquinas fotográficas e de filmar profissionais não creditadas e com objetiva amovível, capacetes, selfie sticks, armas ou objetos que possam servir como arma e animais de estimação (excepto cães-guia para invisuais).

A lista preparada para o NOS Alive é mais específica: não entram canivetes, armas ou correntes, nem cintos ou pulseiras pontiagudas. As garrafas de plástico só podem entrar se a tampa for deixada lá fora. É proibida a entrada de bebidas alcoólicas e de caixas com comida, bem como qualquer objeto que possa ser arremessado. Também não entram selfie sticks, objetos de vidro, gravadores de som nem máquinas de fotografar ou filmar. Todos os objetos incluídos nesta lista de proibições do NOS Alive podem ser guardados gratuitamente num bengaleiro.

E como é a segurança à saída?

Basicamente, não há

O atentado terrorista de Manchester aconteceu já no final do concerto, junto a uma das saídas do recinto. Isso colocou a hipótese de o terrorista ter entrado no Manchester Arena com a bomba artesanal, mas só a ter detonado no final do espectáculo e junto a uma das saídas para onde se dirigiam os espectadores. Ou de nem sequer ter entrado. De acordo com João Carvalho, não é feita qualquer revista à saída do recinto. Assume-se que, se um indivíduo entrou num local controlado por segurança privada e pela polícia, então não tinha qualquer objeto que fosse uma ameaça para a vida dele ou dos outros. “Provavelmente o que aconteceu em Manchester foi uma falha de segurança. As revistas são um processo delicado porque as pessoas queixam-se e porque provocam filas. Mas no Paredes de Coura não facilitamos e somos muito rigorosos com esse processo”, garante João Carvalho.

Como é lá fora?

Segurança reforçada, mas há sempre penetras (como Marcus)

No ano passado, durante a época de festivais de verão, a Associação Portuguesa de Festivais de Música (APORFEST) dizia que estas medidas não bastavam. O Rock in Rio Lisboa foi o único evento que montou medidas de segurança mais significativas depois dos ataques terroristas levados a cabo na Europa, ao montar um posto móvel no recinto para verificação ao segundo de todas as câmaras instaladas para o evento.

Lá fora, as novas medidas de segurança foram mais apertadas do que as preparadas cá em Portugal nos restantes festivais: no Festival Roskilde (Dinamarca), os trabalhadores receberam formação para identificar comportamentos suspeitos e como reagir no caso de um atentado terrorista. No Festival Sziget (Hungria), criou-se um sistema de verificação da identificação do cliente na troca do bilhete pela pulseira, instalou-se uma rede de câmaras de segurança controladas durante todo o evento e aumentou-se o número de agentes da polícia e de segurança privada no recinto. Na Alemanha, o Festival Wacken Open Air proibiu totalmente a entrada de mochilas ou qualquer outro tipo de saco. À Billboard, o organizador desse evento, Thomas Jensen, afirmou não ter outra hipótese: a 24 de julho de 2016, um bombista suicida fez-se explodir no Festival Ansbach Open — um festival de entrada livre alemão — ferindo doze pessoas, uma delas gravemente, à entrada do recinto. O festival foi cancelado e o local foi evacuado. “Nós atualizamos constantemente o nosso plano de segurança, tendo em conta eventos recentes como as tempestades e a segurança na Alemanha. Por causa disso, a nossa equipa sabe o que fazer e está bem preparada”, disse Thomas Jensen.

Mas furar as barreiras de segurança de concertos e festivais não parece ser difícil para alguns. Marcus Haney, o fotógrafo oficial dos Mumford and Sons que também já trabalhou para o canal HBO, fá-lo há muitos anos. É uma espécie de ‘penetra’ profissional. Foi assim que assistiu a concertos em grandes espectáculos mundialmente conhecidos. Entre 2010 e 2014, Marcus entrou em cinquenta eventos. Nunca pagou um bilhete para entrar em nenhum deles. E embora seja sempre apanhado pelas autoridades ao fim de algum tempo, acaba por conseguir chegar aos palcos principais, conversar com as bandas e filmar o ambiente. A primeira vez que o fez foi em 2010 no Coachella (Califórnia, Estados Unidos), onde entrou com um amigo para se encontrar com uma rapariga de quem gostava. A uma sexta-feira às quatro da manhã, depois de terem apanhado boleia de um rapaz que conheceram na Internet, os dois saltaram a vedação do evento completamente vestidos de preto e dormiram dentro das casas de banho do festival. Só saíram quando o Coachella recomeçou, ao meio-dia de sábado. Noutros eventos onde Marcus entrou ilegalmente, conseguiu falsificar pulseiras e bilhetes, fingir que era um dos artistas convidados ou convencer os seguranças de que era membro da imprensa.

Um dos eventos onde Marcus conseguiu entrar foi no Glastonbury, um dos festivais mais protegidos do mundo. Fê-lo de modo simples: enquanto os seguranças tentavam resolver alguns problemas com participantes, Marcus passou por eles e escondeu-se dentro de um camião. Mas mais impressionante foi que conseguiu furar a segurança dos Grammy: passou a segurança e os scanners, passou os detetores de metais e conseguiu chegar aos bancos da frente, onde estavam sentados os nomeados. Com todas estas experiências, Marcus conseguiu fazer um filme sobre o ambiente nestes espectáculos: “No Cameras Allowed”.