O presidente da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), Afonso Dhlakama, considerou esta quarta-feira que o caso das dívidas ocultas de Moçambique é “uma traição” pela qual o Estado não deve pagar.

“Qualquer país faz dívida, é legítimo. Mas aquilo que está a acontecer em Moçambique é uma traição”, referiu o líder do maior partido da oposição numa declaração via telefone para jornalistas e simpatizantes da Renamo.

“As dívidas que foram contraídas por algumas empresas ligadas aos chefes da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique)” devem ser da responsabilidade dessas empresas.

“Não é preciso oficializar essa dívida como se fosse dívida externa. O povo de Moçambique está cansado”, referiu. “Isto é inaceitável”, sublinhou, relativamente ao caso sobre o qual a Procuradoria-Geral da República (PGR) de Moçambique prometeu divulgar até final do mês o resumo de uma auditoria às contas.

Em causa está o destino de cerca de 2,2 mil milhões de dólares de dívidas contraídas entre 2013 e 2014 por três empresas estatais junto de bancos estrangeiros com garantias do Governo que não foram aprovadas no parlamento nem inscritas nas contas públicas.

O escândalo rebentou em abril de 2016 e o Fundo Monetário Internacional (FMI) e um grupo de 14 doadores internacionais congelaram os apoios ao orçamento de Estado e exigiram uma auditoria como condição prévia para retomar os apoios.

O Estado assumiu a incapacidade para pagar as prestações aos credores e o país entrou em ‘default’, caindo na classificação das agências de notação financeira.

O país fechou 2016 com uma inflação de 25%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) moçambicano, e o metical terminou o ano entre as dez moedas do mundo que mais se desvalorizaram, ao perder cerca de um terço do seu valor – tendência entretanto invertida.

Dhlakama pegou no caso para concluir que “o desenvolvimento de Moçambique com a Frelimo no poder é difícil”, mesmo com o início de exploração dos megaprojetos de gás natural, com receitas milionárias para o Estado, a partir de 2023.

“Vão entrar bilhões e bilhões”, mas “vão para a dívida que não acaba e não reconhecemos e para corrupção”, concluiu.