O ministro dos Negócios Estrangeiros sustentou esta quarta-feira que a Europa tem “culpas a expiar” por “desatenção recente” com África, defendendo uma maior cooperação entre os dois continentes para resolver problemas como as migrações.

“É preciso mais cooperação entre a Europa e África, é preciso mais proximidade entre a Europa e a África. Quem tem culpas a expiar nesta relação, por desatenção recente, não é África, mas sim a Europa”, disse esta quarta-feira Augusto Santos Silva, intervindo como convidado de honra na comemoração do Dia de África (25 de maio), organizada pelo corpo diplomático africano em Portugal.

Atualmente, acrescentou, os europeus têm “uma enorme responsabilidade adicional”. “Com a perspetiva de alguma viragem na política norte-americana quanto ao multilateralismo e às grandes agendas comuns, do clima ao desenvolvimento, a Europa tem a responsabilidade acrescida de liderar essas agendas”, sustentou o ministro.

A agenda para o desenvolvimento sustentável das Nações Unidas (agenda 2030) “casa-se bem com a agenda 2063 da União Africana” e as duas regiões partilham das mesmas preocupações sobre as alterações climáticas.

Só é possível resolvermos alguns dos nossos problemas europeus, por exemplo o das migrações, se pedirmos ajuda – insisto, se pedirmos ajuda -, a África. Só há uma maneira: sermos parceiros em projetos comuns”, considerou Santos Silva.

Portugal, acrescentou, “entende que a sua responsabilidade, como ponte que é entre África e Europa, é ajudar a Europa a compreender tudo isto”, ou seja, “situar a Europa do lado do futuro, ou seja, a Europa tem de estar situada do lado de África”.

O chefe da diplomacia portuguesa advogou a necessidade de a Europa ter “mais consciência de quão importante é a parceria com África”, mas reconheceu que há avanços nesta matéria, exemplificando que a relação com os africanos foram os temas escolhidos pelas presidências italiana e alemã do G7 e do G20, respetivamente. “Esta consciência de que África é um parceiro essencial do ponto de vista económico, político, da segurança, estratégico, é hoje muito mais clara na Europa”, referiu.

Portugal, afirmou, reconhece a “riqueza de África como um mercado económico e uma economia global”, mas isso mesmo “sabe a China, sabe a Índia, sabe a América” e “a União Europeia deveria saber melhor”. Santos Silva justificou por isso que os portugueses têm procurado convencer a Europa a “regressar a África, não da forma como a explorou durante séculos, mas como um parceiro”.

Antes, a embaixadora de Marrocos em Lisboa, Karima Benyaich, referiu que África “é o continente do futuro” e os jovens africanos são o “recurso mais precioso e a maior esperança”. Além da riqueza natural do continente, “a coisa mais bela que África pode oferecer ao mundo é a sua mistura cultural, única, rica e variada”.

A diplomata comentou ainda o regresso, no início do ano, de Marrocos à União Africana, que havia abandonado em 1984 em desacordo com o controverso processo do Saara Ocidental. Uma decisão que, justificou, pretendeu “reforçar a unidade e solidariedade africana”.