Ainda faltam mais de quatro meses para a corrida aos votos, mas já se sente o cheiro a eleições autárquicas no ar. Com o Governo socialista a surfar a crista da onda, com indicadores económicos positivos que até Bruxelas convencem e com a ideia generalizada de que há margem para desapertar o garrote imposto pelos anos de crise, os socialistas têm agora de gerir as expectativas de quem, no local, espera mais investimento. Carlos César que o diga: no arranque das jornadas parlamentares do PS, em Bragança, o líder parlamentar e presidente do partido, teve de colocar alguma água na fervura: “Há bons sinais, mas não estamos em condições de fazer a reversão completa” da herança do anterior Governo.

Carlos César respondia assim às reivindicações de Manuel Pereira, presidente da Obra Social Padre Miguel, uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) bragantina que serve como lar social a 60 pessoas e de creche para mais de 66 crianças até aos três anos. O responsável bem aproveitou o encontro com o presidente do PS para lembrar que o aumento do salário mínimo obrigou a instituição a um esforço acrescido, e que a evolução para os 600 euros até ao final do mandato deveria ser acompanhada por um compensação às IPSS. Até sugeriu que a instituição precisa de construir um novo andar para acolher mais pessoas. Mas sem sorte.

No final da visita, em declarações aos jornalistas, Carlos César foi perentório: há condições para “proceder a esse aumento de salário mínimo sem necessidade” de compensar as IPSS e, bom, “aspirações” para novos projetos “existem um pouco por todo o país”. É preciso paciência, contenção e ponderação, sugeriu o socialista.

Mesmo assim, o líder parlamentar do PS não deixou de fazer uma crítica ao próprio partido e ao Governo socialista: “Existe uma espécie de complexo de esquerda, que também passa um pouco pelo PS e às vezes pelo Governo de que as IPSS são instituições em relação às quais deve haver, primeiro, reserva e depois um apoio comedido. O que queremos provar nestas visitas é que o primeiro gesto em relação a estas instituições é dizer que elas são absolutamente necessárias ao sistema de proteção e de apoio social”. Estava dado o recado a Vieira da Silva, ministro do Trabalho e da Segurança Social.

E aqui, um pormenor: o edifício da Obra Social Padre Miguel foi inaugurado em 2009 pelo então primeiro-ministro José Sócrates e por Vieira da Silva, que repete a pasta no Executivo de António Costa. A placa de descerramento, com os nomes dos dois responsáveis pela inauguração, está devidamente assinalada num jardim que circunda a instituição. Ainda antes de falar aos jornalistas, e percebendo o impacto que o enquadramento daquela imagem poderia causar, Carlos César gracejou: “Não vou para onde vocês [jornalistas] querem que eu vá”.

Quanto ao resto, o líder parlamentar do PS manteve a tónica que tem acompanhado todas as intervenções dos socialistas desde que foram revelados os números do crescimento económico: é preciso evitar euforias. Apesar dos indicadores positivos, “isso coincide com um país que ainda tem dificuldades, grandes desigualdades, grandes dissonâncias. Estes sucessos tem de ser continuados, duradouros e atingir o Portugal inteiro”, defendeu Carlos César.

E nem a pressão da maioria parlamentar de esquerda que sustenta o Governo incomoda o presidente do PS. “O nosso trabalho não é acalmar os partidos [de esquerda], é dar respostas aos portugueses” e ajudar o Executivo a “governar melhor”. Uma palavra para a esquerda e uma bicada à direita: o PS podia ter aproveitado “esta época do ano para ir para lugares turísticos e ficar por aí”, mas decidiu ir para Bragança porque ainda há zonas do país “em grandes dificuldades”. Detalhe: o PSD agendou as suas jornadas parlamentares para Albufeira. O que Carlos César poderá ter esquecido é que os deputados do Bloco de Esquerda também vão para a região do Algarve, mais concretamente Tavira. Fogo amigo entre parceiros parlamentares ou dano colateral?