Depois de saudar o Benfica, de que é adepto, Luís Marque Marques deu o pontapé de saída para os temas mais controversos. Autárquicas, a situação no Brasil e aquilo a que chamou o “deslumbramento” de Mário Centeno, foram os temas quentes no espaço de comentário que o antigo líder do PSD tem na SIC, aos domingos.

Na “rubrica” que inaugurou a semana passada, em que analisa duas câmaras municipais à luz das expectativas dos partidos para as eleições autárquicas, Marques Mendes, disse que a grande questão na cidade do Porto será a de ver se Rui Moreira, candidato independente, consegue ou não alcançar a maioria absoluta. “Rui Moreira, como [Fernando] Medina, tem todas as condições para ter uma maioria absoluta porque é popular, fez um bom mandato, mas teve uma rutura com o Partido Socialista. Se tem uma maioria, é uma vitória a sério, se não, uma vitória pírrica”.

Outra questão a que o comentador se referiu tem a ver com a posição do PS. Mendes perguntou: “Será que ficará em segundo lugar depois de passar os últimos quatro anos a apoiar um candidato independente?”. Quanto ao PSD, Marques Mendes diz que o partido “já deve estar um pouco arrependido de não ter catapultado para o cargo uma figura de primeiro plano” porque, apesar de “não estar em causa a competência do candidato”, tem “um grau baixo de notoriedade”. Os sociais-democratas perdem assim, diz o ex-líder, “uma oportunidade para crescer e até ficar em segundo lugar”.

Fafe foi qualificado como um “caso único” por Marques Mendes. Na sua terra natal há um candidato do PS apoiado pela estrutura nacional dos socialistas, Raúl Cunha, e um outro apoiado pelo PS local, Antero Barbosa. O PSD é o único a poder “capitalizar com a divisão”, acrescentou.

Madona também foi alvo de apreciação pelo jurista. A cantora norte-americana Madonna colocou várias fotografias nas redes sociais durante uma recente estada na capital e, segundo Marques Mendes, Madonna “quer mesmo vir viver para Portugal”. A culpa é de Donald Trump. “Madonna decidiu vir viver para a Europa depois da eleição de Donald Trump. Esteve a considerar Espanha e Itália e parece que quer mesmo fixar cá residência habitual”.

Sublinhando que Madonna não é um caso único, que “Portugal está na moda” e que o regime fiscal para os residentes não habituais ajuda à fixação de cidadãos estrangeiros, o verdadeiro trunfo do país é, na opinião do advogado, “a segurança”.

“É como juntar o útil ao agradável. A boa imagem do país não tem necessariamente a ver com a política ou com o governo, mas com o facto de Portugal ser visto como um país moderno, tolerante, cosmopolita e seguro, um ativo muito importante não apenas para o turismo, mas para quem fixar residência”, disse no seu comentário habitual no Jornal da Noite.

Quem parece estar a procurar nova residência é Mário Centeno, que esta semana fez manchetes com uma possível mudança para Bruxelas, onde fica a sede do Eurogrupo, um grupo constituído pelos ministros das Finanças dos Estados-membros da União Europeia que adotaram a moeda única e que o Centeno pode vir a liderar. Para Marques Mendes, há nesta história “mais parra do que uva”. Mário Centena está “bem visto lá fora”, mas isso pode não chegar.

“O próximo presidente do Eurogrupo tem que ser um ministro das Finanças da área socialista porque o Partido Popular Europeu já tem vários lugares na Europa: Conselho, Parlamento e Comissão e há poucos ministros das Finanças socialistas dentro do Eurogrupo. Há um outro, também prestigiado, o de Itália [Pier Carlo Padoan] mas também já há muitos italianos em cargos chave. Ele poderia aceder ao cargo por exclusão de partes”, argumentou Marques Mendes.

Mesmo assim, ainda lhe restariam algumas pedras no caminho. Por um lado, a Alemanha tem “um peso enorme” na escolha do presidente do Eurogrupo e, depois, porque esta questão “só se colocará a partir de outubro”, depois das eleições gerais no país que Angela Merkel, segundo as sondagens, deve continuar a dirigir. Quem não é grande adepto da solução governativa de Portugal é Wolfgang Schäuble, ministro alemão das Finanças, o que pode frustrar as expectativa de Centeno.

Para Marques Mendes, Centeno “está a fazer uma campanha de auto-promoção” e está “deslumbrado”. O comentador diz que o ministro tem direito a querer dirigir o Eurogrupo, porque isso tem a ver com “ego, orgulho e vaidade” mas pede “mais humildade” ao ministro e diz que Centeno está “a abrir ele mesmo as portas que ninguém lhe abriu” promovendo-se de uma forma “até um pouco ridícula”. Ter um português lá fora “é sempre bom; menos bom é ter um ministro a part-time”.

Quando ao caso BPN, que esta semana fechou um dos seus capítulos com a condenação de 12 dos 15 arguidos, Marques Mendes disse que, apesar de ainda haver a hipótese de recurso, é um passo na direção certa porque “se prova que a culpa não morre solteira” e ajuda a que as pessoas não pensem que “os poderosos se safam sempre”. Além dos 12 condenados, para Marques Mendes há outro culpado: o Banco de Portugal que “nunca chegou a agir”.

Sobre a greve da Funçaõ Pública, que se realizou nesta sexta-feira, “foi politicamente correta” e “até conveniente” para todos os envolvidos. “Os sindicatos da CGTP, que são acusados de terem sido instrumentalizados pelo poder político, fizeram prova de vida, o Partido Comunista tem vantagens porque estamos perto das eleições autárquicas e eles têm que mostrar que continua autónomo e que não se deixou desaparecer por estar na geringonça, e o governo ganha também porque a sua preocupação é mostrar uma atitude e linguagem moderadas”, argumentou Marques Mendes.

O Brasil, afirmou Marques Mendes, está envolto numa crise política com ramificações à esquerda e à direita num caso grave que “faz lembrar a Operação Mãos Limpas” dos anos 1990, em Itália. Tal como então, “não ficará pedra sobre pedra na classe política” e Mendes prevê “uma profunda renovação”. Esta questão só se resolverá com eleições e Temer está “politicamente morto”. Para o final, guardou um ditado: “Com ferro matas, com ferro morres”.

Marques Mendes deixou, ainda, palavra para o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que não está a conseguir lidar com toda a gente que chega ao país. As filas nos aeroportos dão “má imagem ao turista” e “é preciso preservar o turismo”, disse.