A final da Taça de Portugal no Jamor é, por si só, um fator de distração a todos os níveis. E não, hoje nem alinhámos no pré-jogo da imperial e da bifana (com alguma pena nossa, a vida é mesmo assim). Mas todo aquela ambiente apura-nos os sentidos. A visão, com farpelas que demoram dias e dias a serem pensadas para brilhar na festa; o olfato, com aquela cheirinho a refogado de quem trouxe o farnel de casa; a audição, com o estalar do courato e da entremeada na grelha; o tato, com os copinhos de plástico que são ali improvisados para acabar o barril. E o paladar. Que, no final, será o do futebol. E que acaba da forma do costume: com o Benfica a ganhar.

Entrar no Estádio Nacional é abrir a porta a um mundo idílico. Quem foi, guarda para sempre no seu imaginário; quem não foi, cria todo um imaginário. Até a bola chega numa versão atualizada do Regresso ao Futuro II com algo parecido a um skate. Depois, há o apito inicial. E tudo se resume a quatro linhas, 22 jogadores e duas balizas. Nem essa coisa do passado histórico conta. São 90 minutos para entrar na história.

“Pedro Martins mexe apenas uma peça”, escrevia-se antes do início do jogo. Bem, mexia mais do que uma porque Miguel Silva substituiu Douglas na baliza. Mas isto é citado para falar de outra coisa: os vimaranenses trocaram mais do que Raphinha por Texeira. Isso era no papel; em tudo o resto, na atitude, na entrega, na capacidade de entrega, na abordagem tática nas diferentes fases de jogo, parecia outra equipa. E foi nessa mudança que entroncou o resumo da primeira parte, sem grandes incidências de registo.

Houve remates de início, desenquadrados e para os dois lados. De Hurtado e Pizzi. Mas o primeiro grande momento acabou por ser mesmo a lesão de Fejsa, a meio da primeira parte, que obrigou Rui Vitória a lançar Samaris numa fase precoce do encontro em que as equipas estavam demasiado encaixadas no meio-campo para fazerem a diferença lá na frente. Antes, apenas Luisão, em cantos ou livres laterais, conseguia ameaçar.

O Benfica tentava fazer aquele seu jogo apoiado, de tabelas curtas, dominando a posse mesmo quando estava em terrenos mais recuados da baliza do V. Guimarães. Mas a coisa não estava mesmo a funcionar. Por lentidão, pelo bom posicionamento defensivo dos comandados de Pedro Martins, por uma questão de atitude. Os encarnados estavam com o fato de campeão guardado e apresentavam-se com roupa casual de domingo. E os vimaranenses, de fato de operário a preceito, iam chegando à baliza de Ederson. Jogavam em profundidade, ganhavam em velocidade e rematavam mais.

Hernâni, com um disparo bem puxado ao poste bem defendido por Ederson aos 28′, teve a melhor oportunidade até ao intervalo, que não chegaria nem mais um problema físico, desta feita para o vimaranense Hurtado. Mas a grande figura foi mesmo o lateral Bruno Gaspar, curiosamente formado nos encarnados – atacou melhor do que os alas, recuperou mais bolas do que os médios, intercetou mais bolas do que os defesas. Caso Nélson Semedo saia mesmo, o cartão de visita ficou entregue a Rui Vitória.

Ao intervalo, Pedro Martins lançou Celis para o lugar de Hurtado. A decisão foi má. Mas não foi por isso que o Benfica, em menos de dez minutos, ganhou dois golos de avanço nas primeiras duas oportunidades flagrantes que teve. E a primeira nem pode ser descrita como tal: Jonas rematou de fora da área, Miguel Silva deixou a bola ir para a frente e Raúl Jiménez, num toque de classe, picou a bola por cima do guarda-redes (48′). Em dia de coisas estranhas, o mexicano celebrou com uma máscara de lutador de luta livre. Dizem que era o Sin Cara, lutador de wrestling. Mas ele tem cara. E nome. O mesmo que já tinha carimbado a vitória em Vila do Conde frente ao Rio Ave que praticamente assegurou o título.

Logo a seguir, o tal controlo emocional que Pedro Martins tinha pedido ficou-se apenas pelas palavras e Salvio, na sequência de uma boa jogada coletiva, deu o melhor seguimento na área a um cruzamento de Nélson Semedo e fez o 2-0 de cabeça (53′). O V. Guimarães mexeu, arriscou um esquema onde deixava apenas três defesas em ações ofensivas deixando as alas para Bruno Gaspar e Raphinha, mas foi Jonas que voltou a estar perto da festa, cabeceando à trave um cruzamento bombeado de Grimaldo (66′).

Cada vez que o V. Guimarães chegava à área, havia sempre um pé ou uma perna adversária a travar os intentos dos comandados de Pedro Martins, que se mostrava tão destemido em termos táticos como a dar indicações à chuva de camisinha encharcada. E essa garra minhota acabou por relançar a partida aos 78′: no seguimento de um canto, Zungu ainda reduziu a desvantagem para 2-1 e deu ânimo para os instantes finais. No entanto, o coração ganhava à cabeça. E sem cabeça, de pouco vale o coração.

A primeira parte do Benfica nem foi de candidato. A segunda foi de campeão. À campeão. E nem era preciso esperar tanto tempo para se perceber o filme: depois do Campeonato, os encarnados ganhavam a Taça de Portugal, a 26.ª do seu historial na 11.ª dobradinha. E são favoritos na Supertaça, em agosto.