14 de fevereiro de 2014. A Netflix é uma realidade distante dos portugueses mas muitos já ouviram falar nela. Uma das razões é “House of Cards”, uma das poucas produções do serviço de streaming até então (“Master of None”, uma das melhores séries da companhia, ainda nem tinha sido aprovada), versão norte-americana criada por Beau Willimon de uma séria britânica da década de 1990. Tem nomes fortes associados (David Fincher, Kevin Spacey, Robin Wright) e enche o desejo dos telespectadores por um bom drama político que não existe há anos para televisão. A primeira temporada deixou água na boca e a esperança de que poderia existir aqui um bom substituto para “Os Homens do Presidente”.

Nesse longínquo Dia dos Namorados de 2014, estreou-se a segunda temporada. A Netflix entregou os episódios todos de uma só vez e o mundo estagnou durante umas horas para ver como é que Frank Underwood (Kevin Spacey) chegaria ao seu sonho: tornar-se presidente dos Estados Unidos da América. O clima era incrível, a ideia de receber todos os episódios de rajada ainda era um conceito que se estava a perceber (agora já nem se pensa muito nisso) e era obrigatório ver tudo o mais rapidamente possível para não deixar ninguém no escritório estragar a festa. Muitos casais de certeza que passaram esse dia a ver os episódios da segunda temporada. Outros tiveram jantares tensos. Há relatos de alguns que passaram um São Valentim normal.

10 de julho de 2016. Portugal joga a final do Euro 2016 contra a França. Ainda está tudo muito incrédulo e daqui a umas horas há razões para se estar ainda mais incrédulo. Portugal vence a competição e, depois, do golo do Éder e do apito final, há euforia mas também uma sensação de “e agora?”. Chegou-se ao topo, o sonho da selecção nacional ganhar um troféu internacional maior do que o Torneio Sky Dome está finalmente concretizado. Anos a sofrer para isto, os portugueses que se interessam por bola – ou seja, todos naquele dia – sentem que chegaram ao topo. Sim, falta ganhar um Mundial. Mas se isso acontecer será diferente: agora pode-se sonhar com isso com os pés na terra.

A segunda temporada de “House of Cards” e a vitória de Portugal partilham esse sentimento de “e agora?”. Frank Underwood, ao chegar à Casa Branca no último episódio, deixa a sensação de que tudo está cumprido. Ainda há razões para se avançar na história, mas não será a mesma coisa. O desejo disso acontecer invocado logo no início da série cumpre-se ali. O público não tinha pensado bem no que queria ver depois disso se concretizar, ou o que poderia esperar. A materialização daquilo que se idealizou desde o início criou um efeito de esmorecimento progressivo pela série que se sente até hoje.

30 de Maio de 2017. A quinta temporada de “House of Cards” estreia-se. A Netflix apresenta todos os episódios de uma assentada, mas em Portugal as regras são diferentes: devido a acordos existentes antes do serviço entrar no mercado nacional, o primeiro episódio chega mais logo ao TV Séries (00h00), com a transmissão regular de um episódio por semana. Nestes três anos, uma série norte-americana, que também passa no TV Séries, tornou-se na melhor série política da década: “Veep”. Também é uma adaptação de uma série britânica (“The Thick of It”) e com o decorrer das temporadas teve a ousadia de se tornar melhor do que o original.

Nos três anos e nas duas temporadas que passaram desde que Frank Underwood chegou à Casa Branca em “House of Cards” aconteceu muita coisa. Há tensões no casamento dos Underwood, há tensões com a Rússia, Frank é alvejado e a série encontra o seu próprio Daesh (ICO). O final da quarta temporada deixou o espectador num impasse, Underwood está a concorrer para um segundo mandato e as coisas não parecem favoráveis, decide utilizar o terror como cartada final a semanas das eleições. No mundo real, entretanto, aconteceu Donald Trump.

O mundo político mudou bastante no último ano e “House of Cards” tem poucas esperanças de se tornar num “Os Homens do Presidente”. Depois de chegar àquele topo no final da segunda temporada, não voltou a ser a mesma série, a criar o mesmo entusiasmo. É difícil voltar a tornar-se tão relevante, mas tem condições para abraçar a loucura que actualmente se vive no contexto mundial. “Veep” como abraçou isso logo no início, ainda se mostra pertinente e, de certa forma esclarecedor, na sua sexta temporada: em parte porque decidiu assumir riscos com a sua protagonista (Julia Louis-Dreyfus) na última tranche de episódios.

“House of Cards” precisa de fazer o mesmo, de iniciar um novo ciclo. O modelo inicial da série está esgotado, os momentos em que Frank Underwood se dirige ao telespectador têm pouco ou zero impacto. Para continuar a ser relevante, esta quinta temporada tem que abraçar a loucura do mundo actual. Tem de ter um presidente disposto a abraçar alguma demência e mostrar ao mundo que a ficção também pode bater a realidade: e é possível que assim seja, apesar de tudo foi essa a promessa deixada no final da quarta temporada.

Ou correr um risco maior, se Frank Underwood vencer as eleições, fazer com que abandone o cargo ao fim de uns meses e passe o testemunho à sua mulher, Claire (Robin Wright), que concorre a seu lado como vice-presidente. Seria uma reviravolta até algo lógica para a importância de Claire ao longo da série. E um óptimo prémio para Robin Wright. Ou pode correr um risco ainda maior, tal como “Veep” fez na sua quinta temporada: os Underwood perdem as eleições. E, a partir daí, criar uma nova narrativa sobre os Underwood continuarem a minar o poder depois de terem estado na Casa Branca.

Qualquer um destes cenários é uma possibilidade deixada no final da quarta temporada. Há uns lógicos, outros que poderiam ser surpreendentes. Há outros além destes três. Aconteça o que acontecer no regresso de “House of Cards”, é essencial que se renove, que encontre algo para além da fórmula que entregou na primeira temporada, que tornou a série num sucesso mas que se esgotou, cansou o espectador. Apesar da fadiga, continua a ser uma boa série política. Já não faz parar o mundo nem mudar os planos no dia de São Valentim. E esta é a última oportunidade para mostrar ao espectador que ainda existem ali ideias para voltar a tornar isso possível.