Mais do que um novo fenómeno, é um fenómeno em reaparecimento: nos últimos meses têm-se multiplicado os vídeos de train surfing — uma espécie de sub-modalidade, muito mais perigosa e arriscada, do parkour — publicados nas redes sociais um pouco por todo o mundo. E as notícias de incidentes associados à prática, já com mais de uma década de História, também. Alguns foram fatais, como o que vitimou o adolescente inglês Nye Frankie Newman, de apenas 17 anos, no metro de Paris, na noite da última passagem de ano; outros, como o que o Observador noticiou esta segunda-feira, não acabaram em morte — mas quase.

Um rapaz, de apenas 13 anos e de origem marroquina, caiu das juntas de ligação de carruagens, na linha 1 do metro de Madrid, e ficou sem as duas pernas, amputadas em consequência do acidente — só não morreu, garantem os media espanhóis, porque, apesar dos ferimentos, conseguiu rolar o corpo na direção de um poço de ventilação e evitou ser atropelado pelo metro seguinte. O incidente foi imediatamente relacionado com a prática do train surfing.

Com direito a página na Wikipedia, o train surfing remontará ao século XIX e se, no início, estava associado às faixas mais pobres da sociedade que, sem dinheiro para pagar bilhete, se penduravam na parte exterior de comboios e elétricos para viajarem de borla, hoje é descrito como uma modalidade ultra radical do parkour. Que, com o surgimento e democratização das câmaras de vídeo acopláveis à roupa ou ao corpo, que permitem o registo das manobras e posterior partilha nas redes sociais, está cada vez mais em voga numa série de países em todo o mundo.

No YouTube é fácil encontrar imagens de train surfers em cima de comboios na África do Sul, Alemanha, Rússia, França, Austrália, Índia ou Estados Unidos. Na rede de metro de Nova Iorque, por exemplo, há anos que existem avisos de perigo, afixados nas paredes e até nos próprios bilhetes: “Surfe a Internet, não o comboio”.

Em Portugal, garantem CP e Metro de Lisboa ao Observador, o fenómeno não tem dimensão. Pelo menos em Lisboa, porque o dispositivo de segurança montado nas estações e dentro dos próprios veículos não o permite e porque as carruagens não se prestam à prática: “Este tipo de situações não se têm verificado no Metro de Lisboa face às características do material circulante (composições, na sua maioria, com interligação/fole) e às medidas de segurança habitualmente implementadas”, explicou, via email, fonte da empresa.

Ainda assim, já houve casos, como comprovam vídeos partilhados no YouTube há quase uma década em que jovens se equilibram na parte traseira de comboios na linha de Sintra.

António Marques é, além de entusiasta de comboios (trainspotter é a designação universal), operador de manobras da CP. Durante o horário de trabalho, tem vista privilegiada para as carruagens em circulação, fora dele passa o tempo de câmara em punho a documentar tudo o que circule sobre carris — já filmou comboios e metros subterrâneos e de superfície em todo o país, do Minho ao Algarve, passando pelo Douro, pelo Ribatejo e pelo Alentejo.

Só em três ocasiões, garante ao Observador, viu train surfers em ação: “Na linha de Sintra os comboios são duplos, já vi pessoas em cima do engate que une as duas composições, apoiadas nos pára-brisas, mas acho que o faziam mais para fugir ao pica do que por adrenalina. A primeira vez foi há quase 14 anos, a outra há uns 5 ou 7. Depois, em 2011, numa viagem de lazer no Algarve, entre Portimão em Tunes, filmei dois indivíduos que viajavam pendurados do lado de fora. Assim que os vi peguei logo na câmara, não fosse acontecer algum acidente e depois as famílias ainda irem processar a CP”.

[jwplatform WfFg4JRA]

Esperando que a moda não regresse a Portugal, o trainspotter recorda um vídeo filmado em Portugal há cerca de dez anos, que se tornou viral antes mesmo de o adjetivo existir, e alerta para os perigos do train surf: “Era um grupo de três pessoas de pé, em cima de um comboio suburbano do Porto, algures entre Aveiro e o Porto, mesmo junto ao pantógrafo, que é a peça que faz a captação de corrente da catenária para o comboio. Era uma coisa completamente estúpida. Estar a menos de um metro de distância da catenária — são 25 mil volts — já é estúpido, fazê-lo em movimento, sujeitos a serem sugados para ela ou a serem projetados para o chão, nem se fala. Não percebo esta busca de adrenalina gratuita”.

Alguns vídeos publicados no último ano dão conta da “modalidade” exatamente nas linhas de metro do Porto, cujos comboios chegam a circular à velocidade de 80 km por hora. O Metro do Porto não quis pronunciar-se sobre o assunto, mas o Observador sabe que há pelo menos quatro anos que a empresa se debate, a espaços, com alguns casos.

[jwplatform IIZ4iw2L]

Com mais de metade da frota composta por veículos com os vidros frontais e traseiros inclinados (o que propicia o equilíbrio durante a circulação das carruagens), o Metro do Porto tem sido alvo de train surfers, invariavelmente em idade escolar, entre os 12 e os 18 anos, que muito ciclicamente sobem para as composições em paragens junto a escolas e desafiam a morte — muitas vezes à razão de três a cinco casos por dia, mas em períodos muito distantes no tempo. Nunca uma dessas viagens acabou em acidente, só em idas para a esquadra e telefonemas para os encarregados de educação.

Lá fora, como acontece na comunidade de parkour, já existem coletivos organizados de train surfers, que se juntam, geralmente de cara tapada, para invadir estações e abordar comboios. Os Sky High Idiots — lema: “A sensação nunca é tão boa à segunda ou à terceira vez. Vive o momento” –, de Melbourne, na Austrália, onde morreram três train surfers nos últimos quatro anos (e foram multados outros 10), são dos mais ativos nas redes sociais.

Em novembro passado, depois de um jovem de 20 anos ter caído do topo de um comboio para o rio Yarra, que atravessa a cidade de Melbourne, ficando gravemente ferido no processo, dois dos Sky High Idiots deram uma entrevista a um canal de televisão local: “A decisão é inteiramente nossa e se nós quisermos arriscar as nossas vidas a fazer isto, então é isto que vamos fazer“.

Questionados sobre se alguma coisa os faria parar com o train surfing, responderam categoricamente: “Nem por isso, só a morte”.