Em clima de maré de sorte do Governo, não há nada a fazer. Défice a cumprir metas históricas, economia a crescer, desemprego a diminuir, índice de confiança dos consumidores a aumentar. Não vale a pena “falar da parte macroeconómica e financeira”, avisou desde logo Luís Montenegro na sessão de abertura das jornadas parlamentares do PSD, que decorrem em Albufeira até quarta-feira, nem vale a pena falar do passado. A questão da disputa dos méritos e dos louros também já passou. Agora é tempo de desconstruir o país real: mostrar que há uma discrepância entre o que o Governo diz e o que se constata na rua, nas escolas e nos hospitais. Mostrar que o Governo tem “duas caras”, como disse o líder parlamentar, Luís Montenegro, e mostrar que a “retórica não cola com a realidade”, como disse o presidente do partido, Pedro Passos Coelho. Essa é a estratégia do PSD e é assim, com calma e paciência, que o partido tenciona chegar a 2019 a lutar pela “maioria absoluta”.

O PSD está reunido esta terça e quarta-feira em jornadas parlamentares no Algarve e o primeiro dia de trabalhos serviu, entre outras coisas, para os deputados fazerem uma “análise global da situação política”. Ao que o Observador apurou, numa reunião do grupo parlamentar que decorreu durante cerca de três horas à porta fechada, os deputados começaram por fazer um balanço minucioso do trabalho que tem sido feito ao nível das comissões parlamentares na Assembleia da República e, depois, dedicaram uma parte final da reunião à análise da situação política nacional: como é que o PSD se deve posicionar neste ciclo na oposição, qual se prevê que seja a atuação (e a duração) do Governo socialista até ao fim do mandato e o que se espera para o futuro. Como vai o PSD conseguir voltar ao poder? Estas foram algumas das questões levantadas pelos deputados, às quais Luís Montenegro, primeiro, e Pedro Passos Coelho, depois, procuraram dar resposta, tranquilizando os deputados. Mas a resposta é ambiciosa: só com “maioria absoluta” em 2019.

Só com maioria, mesmo que seja através da soma das partes entre PSD e CDS (embora ninguém fale em coligações), a direita conseguirá destronar a “geringonça”. Se isto já era assim antes, ganhou novos contornos desde que nas últimas legislativas não foi a força política mais votada a formar governo, mas sim aqueles que, pela soma das partes, conseguiram formar uma maioria.

Foi isso que Passos Coelho disse aos deputados esta terça-feira, sublinhando que quer voltar a ser primeiro-ministro para governar noutras condições que não as condições de emergências em que governou. Mas com o PSD em queda nas sondagens, separado do PS por cerca de 10 pontos, resta saber como é que os sociais-democratas chegam a 2019 com outros níveis de popularidade.

“Em 2012 ou 2013 também diziam que era o fim e chegamos a 2015 a ganhar as eleições”, diz uma fonte, para explicar que em política tudo muda muito rapidamente. Basta mudar uma peça na Europa (há eleições em Itália e na Alemanha, sobretudo), basta mudar uma peça nas diretrizes do BCE, e tudo muda, defende. É preciso é “paciência”, diz quem já passou por vários ciclos na oposição, em que parece sempre que “vai ser impossível” dar a volta.

Eleições antecipadas? Não, obrigado

Uma coisa é certa, o PSD não quer eleições antecipadas, porque se as eleições fossem hoje “o PS tinha maioria absoluta, se fosse preciso”. É para esperar por 2019, porque a crença que reina na direção do partido, e que foi debatida na reunião à porta fechada, é a de que o governo socialista “apostou tudo na primeira fase do mandato” pelo que, na segunda metade, e já que as expectativas estão tão elevadas, não vai ser um mar de rosas. Além de que, sem reformas estruturais não há crescimento sustentado, acreditam. E o atual Governo “não está a fazer reformas”. Nem vai fazer enquanto estiver ligado aos parceiros da esquerda.

É, pois, essa a margem de progressão do PSD. Não é através de uma mudança radical de discurso, nem através de novas bandeiras, mas sim através da intensificação das “idas ao terreno” para “constatar a realidade” e sublinhando o que o PSD faria de diferente se estivesse no Governo. Foi o que transmitiu Pedro Passos Coelho aos deputados, depois de ter estado no hospital distrital de Faro a constatar a realidade da “falta de médicos e enfermeiros”, do “aumento do tempo de espera”, da “falta de recursos e de investimento” e a negar-se a responder aos jornalistas sobre outro tema que não fosse o do setor da saúde na região do Algarve.

Nessa ocasião, Passos não falou de agências de rating, num dia em que António Costa, Mário Centeno, Manuel Caldeira Cabral e até Marcelo Rebelo de Sousa falaram sobre isso, dizendo que era altura de rever a notação de Portugal. Passos optou por não falar sobre o assunto quando foi questionado pelos jornalistas. Caso contrário, admitiu, não passaria para a comunicação social nenhuma mensagem sobre o estado do setor da saúde. E era essa a mensagem que queria passar.

Enquanto o Governo, o PS e a esquerda vão falar de economia, défice, agências de rating, desemprego, o PSD vai ficar a falar sozinho. Mas não se importa: é a forma de desconstruir a narrativa do Governo e contornar o “problema de comunicação” que Luís Montenegro admite existir. “Parece que não temos iniciativa e somos acusados de falar sempre das mesmas coisas, mas temos inúmeras iniciativas, temos é de fazer uma avaliação da nossa capacidade de transmitir essas mensagens”, disse no arranque dos trabalhos esta terça-feira.

Pacote legislativo sobre o Algarve

Por isso, o primeiro dia de jornadas — que não contou com a presença de Maria Luís Albuquerque, o rosto das finanças do PSD — deu logo lugar a um conjunto de iniciativas. Mas só sobre o Algarve. Na sequência das visitas dos deputados aos 16 concelhos do distrito de Faro resultou um pacote legislativo para a região, que dará entrada no Parlamento ainda esta semana.

Além desse, saem destas jornadas outras propostas, como a velha ideia da reforma do sistema político, nomeadamente através da redução do número de deputados e da possibilidade de serem os eleitores a escolhê-los. A ideia não é nova, tem sido defendida por Passos Coelho e também por António Costa, mas não é do agrado dos partidos com menor representatividade parlamentar. O desafio do PSD ao PS é fazer a discussão sobre esta reforma depois das autárquicas e a dois anos das legislativas.

Para a região do Algarve, o pacote legislativo inclui oito projetos de recomendação ao governo sobre várias áreas, da agricultura à requalificação da estrada N125, passando pelo turismo de cruzeiros e a apanha de bivalves e culminando na recomendação para a construção de um novo hospital central do Algarve, que, diz o PSD, deve voltar a estar no topo das prioridades do Governo, como estava em 2006 na depois de ter sido feito um estudo independente sobre as prioridades de construção de novas unidades hospitalares. Algumas das propostas já não são novas, mas são novas tentativas de as ver passar na Assembleia da República.

Uma das propostas que o PSD vai fazer ao Governo, segundo explicou o deputado Cristóvão Norte aos jornalistas, passa pela requalificação da N125 no troço Olhão/Vila Real de Santo António e pela suspensão da cobrança de portagens nesse mesmo troço enquanto decorrerem as obras. Outra das recomendações diz respeito à inclusão da ferrovia ao aeroporto de Faro no conjunto de obras a realizar no âmbito do Plano Ferrovia 2020.

O argumento do Governo para explicar o facto de não ter dado seguimento a essa construção tem sido o facto de essa zona estar inserida numa área protegida e, por isso, serem precisos mais estudos de impacto ambiental antes de avançar para a obra. Para o PSD, contudo, isso não passa de “uma desculpa” no sentido em que a única coisa que a lei prevê que se faça nesta fase é a avaliação ambiental estratégica, e essa já foi feita. Os projetos de resolução deverão dar entrada no Parlamento ainda esta semana.