É oficial: a NASA vai lançar uma sonda espacial para orbitar o Sol a uma distância nunca antes alcançada para estudar os eventos solares que possam pôr em causa a vida na Terra. A missão Solar Probe Plus vai estar a 6,4 milhões de quilómetros da superfície solar, enfrentando condições de temperatura e radiações extremamente elevadas. De acordo com a comunicação da agência espacial norte-americana, Solar Probe Plus vai ser lançada entre 31 de julho e 19 de agosto do próximo ano do veículo Delta IV Heavy, o maior em funcionamento.

Esta missão, que será histórica, tem como objetivo imediato obter novos dados sobre a atividade solar e sobre novos métodos para prever grandes eventos climáticos que possam afetar a vida no nosso planeta, a 150 milhões de quilómetros da estrela central do Sistema Solar. Há trinta anos que os cientistas do espaço tentam responder a perguntas sobre do Sol. Embora esta seja uma missão já prevista nas contas da NASA desde 2009, a missão tornou-se agora ainda mais urgente: de acordo com um estudo da Academia Nacional de Ciências, um evento solar que não seja previsto pode causar danos avaliados em 2 biliões de dólares nos Estados Unidos e cortar a energia durante um ano na costa leste.

Porquê visitar o Sol?

Todos os dias temos provas do poder do Sol, uma estrela que “comeu” 99,86% da massa total do Sistema Solar. As auroras boreais, por exemplo, resultam da interacção das partículas emitidas pela nossa estrela com a atmosfera. Mas saber disto não basta: a NASA tem de se aproximar à coroa do Sol, a camada mais externa da estrela composto por material plasmático (um gás com partículas ionizadas) com 2 milhões de graus que só é enxergável da Terra em dias de eclipse — é aquela luz que circunda o disco solar quando ele está escondido. Isto por dois motivos: primeiro, porque esta é uma região muito instável do Sol e precisa de ser estudada na fonte. É aqui que são produzidos os ventos solares, partículas altamente energéticas e ejeções de massa solar que podem chegar à Terra. E depois porque há milhões de toneladas de material magnetizado que viaja a milhões de quilómetros por hora até nós.

Há outro fenómeno estranho que ninguém consegue explicar verdadeiramente acerca do Sol, uma estrela feita essencialmente de hidrogénio e hélio: porque é que a coroa solar é muito mais quente que a fotosfera, a superfície luminosa da estrela, e como é que os ventos solares se têm tornado cada vez mais rápidos? Desde 24 de outubro de 1954, num comício da Academia Nacional de Ciências, que estas perguntas entraram na lista de questões prioritárias a ser respondidas pelos astrofísicos. E o motivo é simples: a 150 milhões de quilómetros do Sol, a Terra ainda reside na atmosfera da estrela que nos ilumina e alimenta. O que acontece na coroa solar vai afetar o modo como a atividade solar vai influenciar o ambiente e infraestruturas tecnológicas da Terra. Conhecendo melhor o ambiente onde estamos incluídos também vamos poder melhorar os nossos satélites de comunicação e aumentar a qualidade de vida dos astronautas que voam até ao espaço para estudar o nosso planeta.

Mas os objetivos científicos da missão oficializada esta quarta-feira pela NASA são ainda mais específicos. Ao completar três órbitas completas ao Sol, a agência espacial norte-americana pretende saber exatamente o tamanho das camadas mais exteriores do Sol, que são onde a atividade é mais intensa e ameaçadora para a Terra. Para tal, a sonda vai aproximar-se no máximo a 3,9 milhões de quilómetros do Sol a uma velocidade de mais de 724 mil quilómetros por hora. Tudo para saber o fluxo de energia que aquece e acelera a coroa solar e os ventos solares; determinar a composição e o comportamento do plasma que compõe o vento solar; e entender as propriedades físicas das partículas energéticas lançadas pelo Sol para a Terra.

Como é que isso vai ser possível?

Tudo isto vai ser possível graças a uma sonda batizada com o nome “Parker” em homenagem a Eugene Parker, um cientista pioneiro no estudo dos ventos solares. Parker vai estar sete vezes mais próximo do Sol do que qualquer outra sonda alguma vez enviada por uma agência espacial em direção à nossa estrela e nove vezes mais perto do que Mercúrio está, em média, da superfície solar. Para proteger a sonda de um batalhão nunca antes experimentado de temperaturas elevadíssimas – 1377 ºC – e radiações mortíferas, Parker vai usar um escudo de carbono com 11,43 centímetros de espessura.

A NASA tem a viagem toda preparada: Parker vai sair da Terra a 31 de julho de 2018, provavelmente a partir do Cabo Canaveral. A 28 de setembro de 2018, a sonda deverá fazer a primeira de um total de sete passagens por Vénus. Pouco depois, a 1 de novembro, Parker já deve chegar ao ponto de aproximação mínima ao Sol. A aproximação máxima à estrela está agendada apenas para 19 de dezembro de 2024. No total, Parker vai completar vinte e quatro órbitas ao longo de sete anos de missão. Cada órbita deverá ter a duração de 88 dias.