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A ilha de Mindanao, no sul do país, está sob lei marcial desde dia 23 de maio, quando um grupo o exército filipino entrou na cidade de Marawi, à procura de Isnilon Hapilon, o líder do Daesh nas Filipinas e homem principal da fação terrorista Abu Sayyaf. Quando chegaram, a cidade estava tomada por cerca de 100 extremistas, e a luta começou. Dos cerca de 200 mil habitantes da cidade, cerca de 85 mil já terão sido retirados para centros de proteção. O governo tem estado em permanente confronto com os insurgentes e, em menos de uma semana, já morreram pelo menos 103 pessoas.

Já esta sexta-feira, 37 pessoas morreram num ataque a um casino de Manila. A polícia nega que o tiroteio tenha sido um ataque terrorista mas o Daesh reivindicou, mesmo assim, o incidente como obra dos “soldados do Estado Islâmico”.

Os extremistas tomaram conta da cidade, queimaram uma catedral e um hospital, capturaram um padre católico e terão morto cerca de 15 pessoas, que foram encontradas numa vala comum na quinta-feira, depois de estas, segundo relatos de habitantes da zona, não terem conseguido recitar de cor passagens do Corão.

Estes são três exemplos de como o arquipélago das Filipinas pode tornar-se um dos principais centro da atividade do auto-proclamado Estado Islâmico (Daesh) no Sudeste Asiático, se não o seu primeiro “território”, referem especialistas em terrorismo.

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Como e por que é que o Daesh tem presença nas Filipinas?

As Filipinas são um país maioritariamente católico — o terceiro mais católico do mundo. Cerca de 90% da população disse, nos últimos Census, ser praticante desta religião. Porém, os muçulmanos estão concentrados maioritariamente em Mindanao, Palawan, e o arquipelago de Sulu, uma área conhecida com Bangsmoro e representam cerca de 11% da população, mais de 10 milhões de filipinos.

Proteção Civil filipina ajuda algumas a crianças a escapar de Marawi, uma cidade no sul do país, que esteve sob domínio do Daesh uma semana TED ALJIBE/AFP/Getty Images

A insurgência muçulmana é antiga nesta área. A Frente Moro de Libertação Islâmica (MILF, na sigla em inglês) há muito que reclama um território independente para a minoria muçulmana. Já desde a ocupação espanhola que esta zona é conhecida pela resistência a qualquer tipo de governo que não seja um feito pelos moros para os moros. Recentemente, depois da eleição de Rodrigo Duterte há um ano, uma esperança apareceu no horizonte, já que o Presidente tinha prometido trazer a paz à região.

Enquanto isso não acontece, a região tem sido tomada de assalto por várias guerrilhas, nem todas ligadas ao Estado Islâmico. Muitas são apenas grupos de assaltantes ou assassinos a soldo que há muito tornaram a área uma das mais violentas do país. Quando Duterte era Presidente da Câmara de Davao, também na ilha de Mindanao, as coisas estavam ‘na ordem’, mas não a impôs sem recurso à violência. Ainda hoje resistem suspeitas de que o próprio Duterte tenha estado ligado aos “esquadrões da morte”, grupos de “justiceiros em nome próprio”, que “limpavam” as cidades dos criminosos, traficantes e ladrões.

Para além disso, Mindanao tem ligações próximas com a Indonésia e Malásia, sede de outros grupos terroristas igualmente extremistas e igualmente fiéis ao auto-declarado Estado Islâmico.

O grupo de análise de conflitos internacionais Soufan Group estima que cerca de 900 soldados extremistas tenham saído do Sudeste Asiático com destino à Síria e ao Iraque. A revista The Diplomat reuniu números de várias agências de informações e fala num contingente que pode ter até 1.800 pessoas. Há medida que o Daesh perde terreno nos seus principais redutos, é normal que os combatentes tentem voltar a casa, quer para esquecer a guerra e seguir em frente, quer para prosseguir a “jihad” nos seus países de origem. E é nos grupos extremistas que já existiam nas Filipinas que eles estão a encontrar apoio.

O procurador-geral das Filipinas, José Calida, disse que o objetivo dos dois maiores grupos, o Maute e o Abu Sayyaf, era “criar uma província do Estado Islâmico em Mindanao”. Em declarações à agência de notícias Reuters, Calida disse que “toda a gente estava em perigo, muçulmanos e cristãos” e que o perigo era precisamente que já tivessem conseguido radicalizar “muitos jovens filipinos”. O mesmo disse o Presidente Duterte: “O Estado Islâmico já cá está”, disse.

Problema alarga-se ao resto do Sudeste Asiático?

A alguns países, sim. A Indonésia é o país com o maior número de muçulmanos do mundo: 203 milhões de pessoas. E o país tem mais de 30 organizações terroristas que já juraram fidelidade ao Estado Islâmico. A cadeia de televisão britânica BBC fala em vários vídeos onde os soldados do Estado Islâmico pedem aos seus apoiantes que cometam ataques nos sítios onde estão se não conseguirem viajar até ao Médio Oriente. Taufik Andrie, diretor do grupo Yayasan Prasasti Perdamaian, que ajuda homens radicalizados pelo Daesh, disse, também em declarações à BBC, que 40% dos 400 militantes libertados pelas autoridades desde do seu regresso da Síria já terão voltado a integrar as suas redes radicais.

A Indonésia foi palco de um dos mais chocantes ataques terroristas da primeira década do século XXI: o bombardeamento de Bali, em 2002, que matou 202 pessoas. Logo no ano seguinte, em 2003, um ataque ao hotel Marriott em Jacarta, mata 12 pessoas. No mesmo ano, um carro armadilhado explodiu à frente da embaixada australiana e vitimou 10 indonésios. Já em 2016, uma série de explosões perto do centro comercial de Sarinah mataram oito pessoas. Foi o primeiro atentado reivindicado pelo Daesh. O Jemaah Islamiyah (JI), o grupo por trás dos bombardeamentos de Bali, retirou o apoio ao Daesh depois de o ter oferecido, mas as suas fileiras voltaram a engrossar. O JI terá agora perto dos 2000 militantes, um número próximo daquele registado na altura dos bombardeamentos de Bali, no auge do recrutamento extremista neste país.

Tropas do governo chegam a Mindanao para reforçar o combate contra os extremistas do Daesh TED ALJIBE/AFP/Getty Images

A Malásia, que tem 25 milhões de muçulmanos, também está sob alerta. Desde 2013, 122 pessoas foram presas na no país por ligações ao auto-proclamado Estado Islâmico e outras 200 foram identificados pelo seu apoio a radicais jihadistas. De acordo com dados divulgados em abril passado, entre 60 e 150 malaios são membros ativos de Daesh no Médio Oriente. O Daesh também lançou, em 2016, um serviço de notícias em malaio, um esforço extra para tentar aumentar a sua base de apoio no país. O primeiro ataque do Daesh aconteceu no país no verão passado, quando dois homens lançaram uma granada para dentro de uma discoteca em Kuala Lumpur. Apesar de ninguém ter morrido, o país ficou em choque.

Alguns problemas de governabilidade do Sudeste Asiático, o enorme número de jovens desempregados e a relativa falta de leis fortes em algumas das áreas mais isoladas destes países, são três motivos que podem contribuir para a radicalização. Por exemplo, as minorias muçulmanas nas Filipinas sentem-se ostracizadas há séculos, tal como no na Birmânia, onde são perseguidas com violência. Se os governos autorizam — ou pelo menos não se opõem com veemência a essa discriminação — está criado o ambiente para desejos de vingança e auto-determinação.

O arquipélago de Sulu, nas Filipinas, onde a atividade extremista está concentrada, faz fronteira com o estado de Sabah na Malásia e com a ilha de Sulawesi, na Indonésia e com as águas dos mares de Sulu e Celebes — por onde circulam armas, militantes e mercadorias vendidas no mercado negro para financiar estes grupos.

A formação e expansão do Katibah Nusantara, um grupo filiado no Daesh que se descreve como um exército de soldados da Malásia, Filipinas, Indonésia e Singapura, também é preocupante uma vez que, quando mais unidos estiverem os militantes, mais força vêm na sua base, como analisa Thomas Kortuh Samuel, que escreveu uma extensa tese sobre a permeabilidade do Sudeste Asiático às ideologias extremistas. Já de acordo com Otso Iho, analista para o Centro para Análise para Terrorismo e Insurgência, JANE, “a cooperação cada vez mais estreita entre os diferentes países é um passo certo na construção de uma frente unida, especialmente no sul das Filipinas”.

O que é o Abu Sayyaf?

É um dos grupos terroristas mais conhecido das Filipinas. Criado em 1991, e com ligações à al-Qaeda de Osama Bin Laden, operou durante muitos anos quase exclusivamente do sudoeste, nas ilhas de Sulu e Basilan. Eram conhecidos pela violência das suas ações, nomeadamente decapitações, tortura e rapto de estrangeiros, métodos que se tornaram a imagem de marca do Daesh nos seus redutos do Médio Oriente.

Em 2002, os Estados Unidos enviaram forças militares para ajudar o exército filipino a irradicar o Abu Sayyaf. As baixas foram significativas mas em 2014 o grupo declarou a sua lealdade ao “califado” do auto-proclamado Estado Islâmico na Síria e no Iraque e o seu líder, Isnilon Hapilon, o homem que o exército quis capturar na passada terça-feira, declarado o representante oficial do grupo do Sudeste Asiático. Principal responsabilidade: construir um “califado” nas Filipinas.

E o grupo Maute?

O grupo está sediado em Lanao del Sur, em Mindanao, e foi criado em 2012 por Abdullah Maute (aka Abu Hasan) e o seu irmão Omar. Apesar de ter apenas uma centena de militantes identificados, o primeiro encontro com as autoridades filipinas aconteceu em 2013, quando atacaram um posto de segurança em Mindanao. Em 2015 aliaram-se ao Daesh mas, no início de 2016, as tropas oficiais filipinas destruíram o seu centro de comando, matando mais de 40 rebeldes. Apesar disso, as autoridades identificam o grupo Maute com um dos mais radicais, parte da rede Khilafah Islamiya, um dos grupos mais violentos ligados ao extremismo islâmico. O grupo tentou detonar uma bomba em 2016, perto da Embaixada dos Estados Unidos em Manila, e declararam-se os autores de um outro ataque num mercado noturno em Davao onde morreram 15 pessoas.

As suas ligações pessoais e familiares estão diretamente associadas ao MILF, o grupo de “moros” que pretendem um Estado autónomo.

A sua última e mais bem sucedida tentativa de converter uma cidade num “califado” aconteceu precisamente na terça-feira, quando tentaram tomar Marawi.