Não se pode ler António José Forte (1931-1989) sem colocar de lado a ideia, plantada em regime intensivo, na cultura portuguesa, de que a arte é sinónimo do Bem, de que a poesia é sinónimo do Bem. Que qualquer ação que se diga cultural é justa e serve aos cidadãos e ao bem comum. Para ler no sentido Forte — no sentido que este dava à leitura (“ler é ruminar como os bois”) — é pois preciso aceitar que antes de ser o Bem a poesia é o Mal. Comecemos pois por Isadore Ducasse, Conde de Lautreàmon, cuja obra influenciou profundamente Forte, e é um exemplo que, fazendo poesia com o horror e a crueldade, se constrói corajosamente um inferno para nos ensinar a voar sobre o abismo. De resto esta ideia também está presente na obra de Herberto Helder, e a ela o poeta volta no prefácio que assinou para Uma Faca Nos Dentes, obra completa de António José Forte, acabada de sair na editora Antígona.

Filho das noites do Café Gelo, surrealista sem nunca cair nos lugares comuns do Surrealismo, voz desesperada, revoltada, por vezes melancólica, mas nunca sentimentalista, foi o mais amado por Mário Cesariny que o publica logo em 1959 e o virá a incluir em todas as antologias que organiza. Apesar disso Forte soube libertar-se desse “pai simbólico e tentacular” que era o “gato velho”, como Forte e os amigos lhe chamavam. Herberto Helder sabe que há o risco de se classificar António José um mais um discípulo de Cesariny, por isso neste prefácio (escrito originalmente em 2003, quando saiu a primeira antologia de AJF na editora Parceria AM Pereira) trata de se explicar esse equívoco. Escreve:

“A voz de Forte não é plural, não é direta ou sinuosamente derivada, não é devedora. Como toda a poesia, a verdadeira possui apenas a sua tradição (…) imemorial, dinâmica, abrindo para trás ou para a frente, única maneira de entender-se a tradição. Não se trata de modo ou moda, forma ou fórmula, acidentalidade ou incidentalidade. O teor é o da inteligência fundamental do mundo.” (Nota Inútil. Em Uma Faca nos Dentes, ed. Antígona)

AJF sempre se assumiu como surrealista, ao contrário de outros poetas da década de 50, nomeadamente vários saídos do café Gelo. Hoje são muitos os estudiosos que o consideram sobretudo um Abjecionista (movimento que, em Portugal, derivou do surrealismo, que tinha por máxima a frase de Pedro Oom: “O que pode fazer um homem desesperado quando o ar é um vómito e nós seres abjetos?”. Forte colocará esta frase em epígrafe no seu primeiro livro lançado em 1960, 40 noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas. Um título que é todo ele um desafio, uma provocação e uma maneira de afirmar: daqui não levam facilidades até porque “já não há tempo para confusões”, escreve.

Uma Faca nos Dentes e outros textos, foi editado agora pela Antígona.

Não se pode querer compreender a poesia deste autor sem se ter deslumbrado com aquele que Jorge de Sena dizia ser “o mais belo poema épico da literatura francesa”: os Cantos de Maldoror, sem ter lido Baudelaire, Rimbaud, Alfred Jarry, António Maria Lisboa. As premissas de AJF eram rígidas, intransigentes. Não aceitava qualquer literatura ou qualquer poesia que se esgotassem em si mesmas, que não fossem expressão de uma ação poética sobre o mundo. Isto é, uma ética ativa. O artista era portanto um homem político, e estaria sempre desfigurado “enquanto houvesse sobre a terra um homem desfigurado”.

“A ação poética implica: para com o amor uma atitude apaixonada, para com a amizade uma atitude intransigente, para com a revolução uma atitude pessimista, para com a sociedade uma atitude ameaçadora. As visões poéticas são autónomas, a sua comunicação esotérica (…) por isso, para que não me confundam nem agora, nem nunca, declaro a minha revolta, o meu desespero, a minha liberdade, declaro tudo isto de faca nos dentes, de chicote em punho e que ninguém se aproxime para àquem dos mil passos.”

Estas palavras fazem parte do mais emblemático texto de Forte e que é, precisamente, aquele que dá titulo à presente coletânea: Uma Faca Nos Dentes, escrito em 1963, e publicado por Cesariny na antologia Surrealismo/Abjecionismo, no mesmo ano.

O poeta é “um cão através da cidade”

Pouco se sabe sobre a vida de António José Forte até à sua chegada ao café Gelo, no Rossio, em 1957. Era um dos mais velhos. Tinha quase 30 anos. E um dos menos burgueses. Filho de um funcionário dos Caminhos de Ferro, nasceu na Póvoa de Santa Iria e cresceu em Vila Franca de Xira vivendo sempre na casa da estação ferroviária. Tinha o curso da escola Técnica, o equivalente ao 9º ano. Não se sabe em que especialidade. Sabe-se que falava pelo menos duas línguas estrangeiras, que conhecia profundamente a poesia portuguesa mas que foi no Gelo que se lhe abriram as janelas para outros horizontes. Um verdadeiro autodidata. Foi empregado de escritório numa empresa de metalomecânica e depois foi encarregado das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, que com elas percorreu o país todo. Que levou para Vieira do Minho o seu amigo Luiz Pacheco, para lhe fazer companhia nas viagens (foi nesses meses que Pacheco escreveu o famoso livro O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor).

António José Forte, Luiz Pacheco e Paulo Pacheco conhecido como “Paulocas”

Mas o idílio de Forte e Pacheco haveria de acabar quando o pároco de uma das aldeias por onde passava a biblioteca os acusou de estarem a distribuir “propaganda evangélica”, assolou os paroquianos e, sobretudo, as paroquianas, contra eles, atiraram os livros ao chão, destruíram outros. Forte, que não era para meias medidas, escreveu de imediato à direção da Gulbenkian a contar o sucedido e a pedir que lhes mandassem uma escolta da GNR ou que lhes dessem armas. A carta, um delicioso exemplo da tempera de Forte, é um dos textos contidos nesta antologia. Mas o desfecho foi o poeta ser mandado para Portalegre onde ficou alguns anos, já sem a companhia de Pacheco.

Destes anos em Portalegre fica a memória do ensaísta Fernando J.B. Martinho, que conheceu nesta altura o poeta, por intermédio do musicólogo Manuel Dias da Fonseca e que conta como Forte era uma maravilhoso diseur de poesia portuguesa, que gostava de malgas de vinho verde, era de uma afabilidade extraordinária e adorado pelas crianças, o que contrastava com o pathos negativo da sua poesia. Nessa altura era casado com uma farmacêutica, a mãe da sua única filha, Gisela Forte. Sabe-se que o casamento nunca o impediu de frequentar as noites do Gelo, de beber muito álcool, e ser um homem que carregava uma imensa revolta silenciada.

Herberto escreve que a “aventura” de Forte “era dramática, condenada às câmaras de gás” porque como Auden, “ele sabia que ‘There is no place for us’ ou, como Cesariny, ele sentia que ‘não há espaço demasiado para ficar'”. É este sentimento de asfixia e desespero no Portugal sem futuro dos anos 50 e 60, que ele traduz repetidamente na imagem do cão, do rato, que surgem como imagens do próprio poeta:

“Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade” (Retrato do artista em cão jovem)

A obra de AJF é pautada por longos períodos de silêncio em que ele deixava de escrever. Entre 1964 e 1970 esteve seis anos sem escrever e depois entre 1970 e 1984, outros 14 anos. Só nos anos 80 é que ele consegue maior estabilidade passando a escrever e a publicar com mais frequência, na editora &Etc e Hiena.

Depois de Portalegre foi substituir Herberto no lugar da Biblioteca Itinerante de Santarém. Foi aí que conheceu Luís Oliveira, editor da Antígona, de quem haveria de ficar amigo. Quando a obra de Forte esta totalmente esgotada, muito esquecida pelas gerações mais velhas mas a ser avidamente redescoberta pelos mais jovens, Oliveira avançou com um pedido à herdeira, Gisela Forte, para fazer esta antologia, que tem dois textos inéditos a mais do que a publicada em 2003. A abrir Uma Faca nos Dentes, Luís Oliveira recorda essas noites com AJF, em Santarém: “Nesse tempo, bebíamos mais vinho nas tabernas da Ribeira e Almeirim do que Manuel Alegre (o melhor dos nossos poetas assim-assim, segundo Agustina Bessa-Luís) declamava mentiras mais tarde nos comícios do Estado”. Oliveira conta ainda que Forte e a primeira mulher viveram um ano em Bruxelas, ano que terá sido fundamental para que o poeta “limpasse” as suas “ilusões políticas” relativamente ao partido Comunista, na orla da qual se movia. De resto, vários artistas do Gelo acabaram por se filiar no PCP como Vírgilio Martinho, Ernesto Sampaio ou mesmo Herberto Helder (embora este tenha saído pouco depois declarando que a única coisa interessante dessas reuniões era caminhar por Lisboa de madrugada na companhia de Saramago a falar de livros). Quem conta ao Observador estes pequenos fragmentos da vida de Forte é o ensaísta e poeta Zetho da Cunha Gonçalves, que foi amigo de artista plástica Aldina Costa, a segunda mulher e musa do poeta, com quem ele viverá “desde a noite de 25 de Abril de 1974, quando Luiz Pacheco, vestido de pijama, os apresentou, até à morte do poeta em 1988”.

António José Forte retratado por Aldina, s/d

Aldina Costa, ceramista, pintora, ilustradora, uma allumeuse, bela e sedutora, era na altura amante do escritor José Cardoso Pires. Coisa que, segundo Zetho da Cunha Gonçalves, “toda a Lisboa sabia até porque Pires escrevia críticas às obras dela no suplemento literário do Jornal do Fundão (o Etc, de Vítor Silva Tavares) que assinava com o pseudónimo de Júlio Vaz Guedes. Desse encontro entre Forte e Aldina resultará o divórcio deste da primeira mulher, e uma união profunda que se traduziu no poema/livro Azuliante. Mas também nas ilustrações que a artista passou a fazer para os poemas e livros de Forte, fotografias, slides, hoje tudo em parte incerta. Até a tese de licenciatura que esta defendeu em 1979, na faculdade de Belas Artes, com Querubim Lapa, foi precisamente sobre o Café Gelo para a qual Forte, Pacheco, Vírgilio Martinho e outros contribuíram com textos lembrando aqueles anos no café do Rossio. Os textos de AJF que estão também incluídos neste volume agora editado, numa secção intitulada “Capítulo Gelo”.

Meu amor
conto pelos teus cabelos os dias e as noites
e a distância que vai da terra à minha infância
e nenhum avião ainda percorreu
conto as cidades e os povos os vivos e os mortos
e ainda ficam cabelos por contar
anos e anos e ficarão por contar
Defende-me até que eu conte o teu último cabelo” (Uma Faca nos Dentes, AJF)

Na visão negativa e apocalíptica deste poeta, onde o Mal, a destruição, a violência surgem como única forma de liberdade. Onde a imagística, o ritmo, a colagem de fragmentos estejam carregados de insólito, de abjeção, de uma conceção satânica da realidade, de non sense. Como nota Rui Sousa em A Presença do Abjecto no Surrealismo Português: “Vários poemas de Forte apontam para o conflito latente entre o poeta obrigado a uma postura violenta mas que sofre física e mentalmente com essa violência”.

Assim era também na vida: JB Martinho diz que era “socialmente, um homem tranquilo, ótimo conversador”. Note-se que foi um dos únicos que depois da guerra fratricida entre Pacheco e Cesariny foi um dos únicos que conseguiu manter-se amigo dos dois. Ele e Aldina chegaram a ponderar adotar Paulo, o filho de Luiz Pacheco, recorda Zetho.

Desobediência Civil

“Esta manhã deste século
entre anjos caídos
a lava da voz humana
Podem ouvir neste local da terra
de de animal de patas obscenas
como um búzio da cabeça ao sexo
e do sexo à flor do espasmo
vem do murmúrio do caos
e rebenta em sílabas de abelhas nos ouvidos
agora atravessa mil novecentos e oitenta e sete
e todos os meus anos bêbedos
vai de um pólo ao outro da memória
e regressa com um tiro no tempo
através do fogo…” (Desobediência Civil, AJF)

Como escreve Fernando J.B Martinho, António José forte leva à letra o repto de André Breton de que o poeta deve procurar “a beleza convulsiva”. Tudo na poesia, é dele é radicalizado e o risco é a única totalidade possível de encontrar. Ele é o poeta “em eterna deambulação”, “em fúria”, “em carne viva” por isso sendo ele um surrealista e abjecionista, JB Martinho afirma “que ele nunca deixou de questionar esses mesmos dogmas”, pois, acreditava, “como António Maria Lisboa que a poesia é ‘um conhecimento político’. Isso manifestava-se na sua recusa de todos os rituais literários como consagrações, homenagens”. Por isso, escreve textos insurgentes e satíricos como “Um Palito par Alfred Jarry” ou “Exposição Dada”. Isso expressava-se também na difícil relação que tinha com o poeta Pedro Tamen, que já vinha do tempo do Gelo, e que se tornaria seu chefe na Gulbenkian.

Azuliante, de 1984, representa o regresso à poesia depois de um hiato de 14 anos e é um poema de amor para Aldina

Segundo conta Zetho, João Rodrigues, o ilustrador que se intitulava também de “umorista sem h”, e que haveria de se suicidar nos anos 60, inventou uma espécie rábula destinada a gozar com Tamen que consistia nisto: “Quem é que faz sonetos? Quem é que faz sonetos?”, perguntava um. “O Pedro tameim, o Pedro tameim”, respondiam os outros em coro. Não se sabe se isto terá chegado aos ouvidos de Tamen, mas a verdade é que quando, em 1984, Forte publica, na &Etc, o livro Azuliante, o na altura Administrador da Fundação Gulbenkian lhe mandou um cartão com a frase: “Seu pavão de cona azul!”. Forte nunca percebeu o alcance desta frase, nem se era a sério ou apenas uma brincadeira. Afinal Tamen também sabia usar o surrealismo como arma.

“(…) No meu reino apenas palavras provisórias, ódio breve e escarlate. Nem um gesto de paciência:o sonho ao nível de todos os outros perigos.

Pelo meu relógio são horas de matar, de chamar o amor para a mesa dos sanguinários” (Dente por Dente, AJF)

Zetho Da Cunha Gonçalves, que foi o responsável pela primeira reunião da poesia de AJF para a Parceria AM Pereira, em 2003, conta que depois do 25 de Abril Forte e Aldina se ligaram à extrema-esquerda e eram próximos de Otelo Saraiva de Carvalho e do Movimento da FP25. Nessa fase, o PCP passa a estar também na mira do guerrilheiro “mano Forte”, como lhe chamava Pacheco. Em 1982 escreve um texto satírico Teses sobre a visita do Papa para o jornal O Ponto a convite de Batista Bastos. Porém mais do que uma crítica ao Papa este texto é uma crítica feroz ao PCP. Batista Bastos nunca publicou o texto.

AJF, pouco tempo antes de morrer. Foto de Aldina, na casa que habitavam na rua do elevador da Glória

Esta coletânea, que a Antígona agora dá à estampa junta poesia, prosa poética, textos críticos, memórias e ensaios, as publicações dispersas em jornais regionais ou no Diário de Lisboa, as publicações na revista Pirâmide nos anos 60 ou na Grifo, nos anos 70 e até uma entrevista que deu a Ernesto Sampaio, poucos meses antes de morrer estão coligidas aqui. O que dá uma boa panorâmica sobre a ação poética de António José Forte, a forma como ele sempre rejeitou as instituições literárias por considerar que eles impunham uma só visão do real que acabava por se transformar em lei, para quem quisesse fazer “carreira”. Mas mostra também como foram estas fronteiras geradoras de revolta e desespero que atuaram em Forte “como molas propulsoras” da sua poesia apaixonada e intransigente, defende JB Martinho.

Fica agora à espera de uma editora o livro de poesia para a infância, Uma Rosa na tromba de Um Elefante, que AJF fez para a Afrodite, de Ribeiro de Mello, que foi reeditado em 2003 pela Parceria AM Pereira e se encontra há muito esgotado ou a preços proibitivos nos alfarrabistas.