Um grupo de ativistas de extrema-direita, que se autoproclamam a filial europeia da alt-right norte-americana, estão a desenhar um plano para impedir ou, pelo menos, dificultar as ações de salvamento de refugiados e imigrantes que acontecem quase diariamente no Mar Mediterrâneo.

Os membros deste movimento anti-Islão e anti-imigração já tinham conseguido interromper uma missão de salvamento em maio passado e conseguiram recolher cerca de 65 mil euros através de uma página anónima criada numa plataforma de crowdfunding — financiamento coletivo através da internet normalmente através de doações de pessoas que concordam com uma causa — , em menos de três semanas para prosseguirem com o objetivo.

https://twitter.com/G_IDENTITAIRE/status/870559036168708096

A campanha iniciada pelo grupo extremista francês Génération Identitaire, arrancou em maio quando decidiram abrir uma página para “defender a Europa” onde promovem táticas de “guerrilha” semelhantes às que são usadas pela organização ambientalista Greenpeace. “Barcos completamente cheios de imigrantes estão a invadir as fronteiras da Europa. É uma invasão. Esta imigração em massa está a modificar o rosto do nosso continente. Estamos a perder a nossa segurança, a nossa forma de vida e estamos em perigo que de nos tornarmos uma minoria nas nossas próprias terras”, lê-se na declaração de missão do grupo.

O seu objetivo eram os 50 mil euros que seriam utilizados para pagar por “custos de viagens, embarcações e produção cinematográfica”. Em pouco tempo esse objetivo foi ultrapassado mas, segundo o jornal britânico Guardian, o grupo ainda está a aceitar doações. Uma embarcação com o mesmo objetivo, desta vez vinda de França, conseguiu, em maio, travar uma ação de salvamento por parte da SOS Méditerranée até que a Marinha italiana chegasse ao local.

O movimento “Identitário” está presente em vários países da Europa, terá dado os primeiros passos em 2003, em França, e é caracterizado por uma forte presença de pessoas muito jovens nas suas fileiras. A revista Economist analisou o fenómeno e apelida os seus membros de “racistas de calças justinhas”.

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Números da ONU mostram que, até maio de 2017, 1.650 imigrantes morreram a tentar chegar à Europa e outros 6.453 foram resgatados. As várias agências de ajuda humanitária envolvidas nestas ações de salvamento recolheram do mar 228 corpos sem vida desde o início de 2017 — metade eram mulheres e crianças.

“Quando o governo britânico e os governos dos restantes países europeus falam de ‘epidemias’ de imigrantes, ou perpetuam a ideia de que as missões de salvamento são um fator que atrai os imigrantes ou que as organizações que prestam ajuda estão a fornecer um ‘serviço de táxi’, é normal que este tipo de extremismo saia fortalecido”, disse um oficial europeu, que pediu que o seu nome não fosse revelado.

Já o investigador do centro anti-racismo Hope Not Hate, Simon Murdoch, que monitoriza o movimento “Identitário”, mostrou-se “pouco chocado” com as ações que o grupo está a planear. “É terrível, mas não me choca vindo de quem vem. Que estes ativistas de extrema-direita estejam a tentar prevenir missões de cariz humanitário, que ajudam algumas das pessoas mais vulneráveis do mundo, incluindo mulheres e crianças em risco de morrerem afogadas, mostra bem onde se situa a sua compaixão”.

O número de grupos aliados a este movimento na Europa é difícil de precisar, mas a Génération Identitaire já juntou 500 pessoas em alguns dos seus comícios em França e tem perto de 123 mil “gostos” no Facebook. A Identitäre Bewegung Österreich, da Áustria, tem 37,628 e Lauren Southern, uma das jornalistas canadianas com presença mais intensa nos meios de comunicação fortemente conservadores e que esteve envolvida na tentativa de impedir a ação da SOS Méditerranée, tem 280 mil seguidores no Twitter.