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“A expansão económica da zona euro ainda tem de se traduzir numa dinâmica mais forte da inflação”, afirmou Mario Draghi durante uma conferência de imprensa realizada nesta quinta-feira em Tallin, capital da Estónia, depois de uma reunião do Banco Central Europeu sobre política monetária. A declaração do presidente da autoridade monetária enquadra-se na perspetiva do BCE de que a ameaça de deflação, um período prolongado de queda dos preços, está afastada do horizonte de evolução da zona euro, o que não impediu a instituição de fazer uma revisão em baixa das previsões para a inflação que ficará em 1,6% em 2019, uma décima abaixo da projeção que foi divulgada em março passado.

Os riscos que pairam sobre a economia da zona euro estão “equilibrados”, acrescentou Draghi, mas ainda é necessária uma dose “substancial” de política monetária “acomodatícia”. Esta afirmação prenuncia a manutenção dos estímulos adotados pelo BCE para ajudar a reanimar o crescimento, bem como o adiamento do debate sobre o abandono progressivo do quantitative easing que se traduz, entre outras medidas, pelas taxas de juro negativas na remuneração dos depósitos efetuados pelos bancos junto da autoridade sediada em Frankfurt, numa tentativa de incentivar as entidades financeiras a aumentarem o crédito a empresas e famílias.

O calendário definido pelo BCE aponta para um abandono dos estímulos até ao final de 2017 e Draghi afirmou que houve “um ou dois” membros do conselho de governadores da instituição que se manifestaram em defesa do abrandamento daquelas medidas. O líder do BCE garantiu que a entidade estará pronta para reforçar as medidas no caso de haver uma inversão nas expetativas de aceleração do ritmo de crescimento que existem atualmente, o que poderá significar o prolongamento daqueles estímulos, mas novos cortes nas taxas de juro de referência estão postos de lado.

“Precisamos de ser pacientes”, disse Mario Draghi. “Precisamos de continuar a acompanhar a retoma económica com a nossa política monetária”, adiantou o presidente do BCE, enquanto revelava não ter havido, durante a reunião de hoje, qualquer discussão sobre o programa de compra de ativos que está em vigor, destinado a introduzir liquidez na economia da zona euro. O presidente do BCE considera que existe mais confiança de que a inflação vai comportar-se de forma a aproximar-se do objetivo da autoridade monetária, fixado num valor ligeiramente inferior a 2%.

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BCE mais otimista com o crescimento da zona euro

Mário Draghi admitiu que a taxa de crescimento da zona euro poderá fixar-se em 2% em 2017, uma décima acima daquela que é a previsão atual do BCE. O prognóstico mais positivo surgiu no dia em que o Eurostat revelou que o comportamento da economia na região da moeda única se traduziu num crescimento de 0,6% durante os três primeiros meses de 2017, em comparação com o derradeiro trimestre do ano passado, acima daquela que era a estimativa inicial de 0,5%. Trata-se do número mais elevado desde o período situado entre janeiro e março de 2015, quando o BCE decidiu introduzir estímulos monetários para apoiar a retoma.

No confronto com o primeiro trimestre de 2016, a zona euro progrediu 1,9%, quando a estimativa era a de que a taxa de crescimento se fixasse em 1,7%. A revisão em alta ficou a dever-se ao desempenho de França e de Itália, com a procura interna, em especial o investimento, a servir de motor para a recuperação.

O BCE prevê que o ritmo de crescimento será de 1,8% em 2018, contra uma projeção anterior de 1,7%, e, em 2019, abrandará para 1,7%, acima da taxa de 1,6% inicialmente antecipada. Quanto à inflação, a instituição prevê que seja de 1,5% em 2017, 1,3% em 2018 e 1,6% em 2019, inferior, em todos os anos em causa, às previsões anteriores. Na conferência de imprensa, Mario Draghi assinalou que a taxa de inflação na região do euro se reduziu, em maio passado, para 1,4%, depois de ter ficado em 1,9% no mês anterior e em 1,5% em março. Esta volatilidade é atribuída pelo presidente do BCE ao comportamento dos preços da energia e aos aumentos episódicos verificados durante o período da Páscoa.

O comunicado oficial do BCE divulgado após a reunião do conselho de governadores refere que a instituição “decidiu que a taxa de juro aplicável às operações principais de refinanciamento e as taxas de juro aplicáveis à facilidade permanente de cedência de liquidez e à facilidade permanente de depósito permanecerão inalteradas em 0.00%, 0.25% e -0.40%, respetivamente”. O BCE adiante esperar que as taxas de juro diretoras “permaneçam nos níveis atuais durante um período alargado e muito para além do horizonte das compras líquidas de ativos”.

Sobre as medidas de política monetária não convencionais, o comunicado “confirma que se pretende que as compras líquidas de ativos, ao atual ritmo mensal de 60 mil milhões de euros, prossigam até ao final de dezembro de 2017, ou até mais tarde, se necessário”, em qualquer caso, “até que o Conselho do BCE considere que se verifica um ajustamento sustentado da trajetória de inflação, compatível com o seu objetivo para a inflação”. Ao encontro das declarações de Mario Draghi, afirma-se, também, que “se as perspetivas passarem a ser menos favoráveis ou se as condições financeiras deixarem de ser consistentes com uma evolução no sentido de um ajustamento sustentado da trajetória de inflação, o Conselho do BCE está preparado para aumentar o volume e/ou a duração do programa”.