Rádio Observador

Entrevista

“Bitcoins podem ser um substituto moderno do ouro”

Shimon Kogan, um dos académicos mais reputados na tecnologia financeira, acredita que as bitcoins irão servir como reserva de valor. Ao Observador, professor do MIT explica o que é a moda das fintech.

Shimon Kogan na Nova School of Business and Economics, em Lisboa.

HENRIQUE CASINHAS/OBSERVADOR

Shimon Kogan, professor de Finanças na IDC Herzliya, em Israel, e no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge, nos Estados Unidos, tem vindo a especializar-se no estudo da tecnologia financeira. O Observador entrevistou-o após uma palestra patrocinada pelo Banco Invest na Nova School of Business and Economics para perceber esta nova moda. “A fintech é o uso da tecnologia para reduzir a fricção”, explica.

Antes de descrever as tendências na tecnologia financeira, Kogan revelou os primeiros resultados de outra investigação que está a fazer com Toby Moskowitz e Marina Niessner, ambos da Universidade de Yale, nos EUA: como as notícias falsas influenciam as cotações de bolsa.

Porque é que há notícias falsas nos mercados financeiros?
É difícil saber exatamente. Temos provas indiretas que sugerem que podem ter origem em duas fontes: podem ser bloguistas que tentam mexer nos preços e beneficiar disso ou podem ser empresas que tentam usar bloguistas para mexer os preços.

As empresas emitentes?
Sim.

Como conseguem detetar notícias falsas?
É um processo com vários passos. Começámos com uma amostra de artigos que sabemos que são falsos. Depois usámos ferramentas sofisticadas que leem automaticamente o que os bloguistas escrevem e, usando a primeira amostra, validamos as notícias falsas.

Como?
Quando as crianças mentem, o que fazem? É inconsciente, mas usam mais o “nós” em vez do “eu”, porque querem desviar-se do assunto. Usam frases mais simples, porque é difícil inventar coisas mais complexas. A nossa ferramenta pega nestas pistas a partir da leitura de algo que alguém escreveu e atribui-lhe uma probabilidade de esse texto ser verdadeiro.

É preciso?
Não é a 100%, mas sim. Se fornecer a esta ferramenta artigos que sei que são falsos, será capaz de os detetar.

É melhor do que um humano a detetar artigos falsos?
Sim. Talvez a CIA tenha ferramentas melhores. [risos] Esta máquina fará um trabalho melhor do que a maioria das pessoas. Outra vantagem é que esta máquina teve de ler dezenas de milhares de artigos. Teríamos de ter um batalhão de pessoas, mas depois não seria consistente porque não seria apenas uma pessoa.

Qual o resultado da vossa investigação?
A cotação das empresas mais pequenas nos EUA dispara quando saem notícias falsas, mas, no prazo de um ano, reverte-se num prejuízo.

É uma oportunidade de curto prazo?
Oportunidade ou manipulação. Depende de que lado estamos. Se formos o investidor que seguiu a notícia [falsa], perdemos cerca de 15% ao longo de um ano.

Este efeito verifica-se também nas maiores empresas?
Nas grandes empresas não sentimos qualquer efeito. É o que se esperaria, porque é muito difícil pensar que uma Apple coordenaria algo do género ou que alguém conseguiria fazer mexer o preço da Apple ao publicar notícias falsas.

Acredita que essas conclusões podem ser aplicadas a outras bolsas?
Não vejo porque não. Podem ser aplicadas a outras bolsas como a outros domínios. Se tivermos bons dados, podemos procurar quando os analistas dizem coisas verdadeiras e quando mentem.

A bolsa portuguesa é pequena. Talvez o efeito pudesse ser verificado na maioria das ações.
Não sei se em Portugal há alguma plataforma como o Seeking Alpha ou o Motley Fool. [São dois portais com recomendações bolsistas publicadas pelos membros da comunidade.] O nosso estudo depende desse tipo de plataformas.

A palestra de Shimon Kogan na Nova School of Business and Economics.

Kogan discursou sobre a tecnologia financeira em antecipação ao curso de formação de executivos nesta área que a Nova School of Business and Economics irá ministrar no final de setembro. (Fotografia: Henrique Casinhas/Observador)

O que é fintech?
A minha definição é um pouco académica. Os serviços financeiros são um sistema complexo de canalização que distribui valor por entidades. O desempenho dessa canalização é uma função da fricção que há nos canos. Basta pensar na analogia física. A fintech é o uso da tecnologia para reduzir a fricção.

Por essa definição, a fintech não é recente. Por exemplo, quando surgiram os primeiros cartões bancários usou-se tecnologia para reduzir a fricção nos pagamentos.
Isso está certo. O que é novo são os modelos de negócios.

Porque é que a fintech deve ser importante para as pessoas?
A indústria financeira é uma grande parte da economia, cerca de 15% a 20%. Como sociedade, pagamos muito pelos serviços. Se puderem ser mais baratos e se puderem funcionar melhor, então será mais dispendioso continuarmos a fazer as coisas como até agora. Para a maioria das famílias, não é certo quanto pagam em serviços financeiros, porque pagam pouco a pouco. Se somar-se ao longo do tempo, acumula muito. Se a poupança de reforma não for bem gerida, reflete-se pouco em cada ano, mas ao longo de 20 ou 30 anos soma um elevado montante.

Então fintech é sobre poupar tempo e dinheiro?
Sim, mas também sobre coisas mais fundamentais. Se conseguirmos investir melhor para a reforma, não é só quanto conseguimos pagar menos pelo serviço, mas quanto dinheiro teremos na aposentação.

Em que área das finanças espera ver mais depressa mudanças dramáticas?
Já vimos disrupção nos empréstimos às famílias. Se quiser dez mil euros para renovar a casa, onde vou buscá-los? A maioria dos bancos nos EUA não quer saber desses montantes. Por isso, as pessoas põem [a dívida] no cartão de crédito. Mas é muito caro. Há plataformas, como o LendingClub e o Prosper, que oferecem crédito mais barato ligando investidores diretamente a pessoas que precisam de dinheiro. Outra área envolve os empréstimos a pequenos negócios. Os bancos também se afastam disto, porque não querem emprestar a negócios em que é muito difícil de avaliar se conseguirão pagar. A tecnologia agora permite fazer um trabalho muito mais preciso. A OnDeck é um exemplo de uma firma especializada em empréstimos a pequenos negócios. Outra área é a das remessas internacionais. Em média, paga-se 7% a 8% em comissões quando movemos dinheiro além-fronteiras.

Fala de startups. E os grandes bancos e as grandes seguradoras não podem ser disruptivos?
Penso que [a disrupção] virá dos dois lados. Vejamos a área dos investimentos. Há grandes disruptores, como a Betterment, a Wealthfront e a Motif, que gerem milhares de milhões de dólares. Mas também se veem os incumbentes a comprar esses negócios — a FutureAdvisor foi comprada pela BlackRock — ou a desenvolverem os seus próprios negócios — como fez a Charles Schwab. O que acontece é que o que a Betterment e a Charles Schwab têm não é a mesma coisa. A razão é institucional: a Charles Schwab apenas usa a tecnologia para vender os seus próprios produtos para um maior número de pessoas. É diferente da Betterment ou da Wealthfront, que são independentes.

Os governos ajudarão à disrupção ou serão um entrave?
O lóbi por instituições financeiras é muito significativo. Há uma razão para esta indústria estar concentrada. Os reguladores ainda estão tentar apanhar a inovação tecnológica. Isso é bom para os inovadores, porque força os reguladores a um compromisso.

Acredita nas bitcoins e no blockchain?
Não acredito que as bitcoins serão aceites como pagamento. A visão original das bitcoins era que seria possível pagar piza com elas. Vejo-as como reserva de valor. As bitcoins podem ser um substituto moderno do ouro. Acredito mesmo na tecnologia do blockchain, que poderá ser aplicada a muitos problemas, dentro e fora da indústria financeira.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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