Há uma polémica em redor do exame de Português do 12º ano que se realizou na última segunda-feira de manhã. O poema de Fernando Pessoa, no heterónimo de Alberto Caeiro, escolhido para o primeiro grupo de perguntas não era igual à versão original, o que provocou confusão aos estudantes.

Na versão original, o nono verso do poema XXXVI de “O Guardador de Rebanhos” diz: “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira”. No entanto, no exame — que cita a terceira edição da obra “Poesia de Alberto Caeiro”, de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, publicada em 2009 –, o verso diz antes: “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa”.

Veja aqui a correção do exame de Português de 12º ano

O poema, que surge na parte A do primeiro grupo do exame serve de base para três perguntas. A segunda pergunta é precisamente sobre o verso em questão e pede aos estudantes que o interpretem “atendendo à especificidade da poesia de Alberto Caeiro”.

De acordo com Hélder Sousa, presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), “não há erro nenhum”. No comunicado enviado à imprensa, o IAVE esclarece que “o verso em apreço apresenta, na obra citada na prova, a redação que dela consta”. A edição da obra que foi citada no exame “diverge de outras edições”, mas “o seu teor não impede nem condiciona a resposta ao item 2 do grupo I”: o aluno deve apenas responder à pergunta com base no poema citado, não com base em qualquer outro.

Esta não é a primeira vez que surgem dúvidas em relação aos enunciados dos exames de Português. Em 2015, a Associação Nacional de Professores de Português denunciou a existência de critérios diferentes para corrigir respostas idênticas nos exames do ensino secundário, que podem servir de prova de ingresso ao ensino superior. De acordo com esse grupo de professores, nem todos os classificadores das provas tinham recebido a mesma informação com as indicações para a correção do exame. Mas o IAVE defendeu que “a questão relativa ao item do Grupo III, colocada nos media pela ANPROPORT, parece assentar num desconhecimento da versão final dos critérios de classificação, na qual se refere que a «apresentação de uma reflexão que associe os estímulos sensoriais apenas ao domínio da publicidade não implica, por si só, a desvalorização das respostas»”.

No ano anterior, em 2014, a mesma associação disse ter encontrado um erro nos critérios de correção do exame nacional de Português do 12º ano e que vale meio valor. O erro era referente a um texto de Lídia Jorge sobre Eça de Queiroz em que o estudante tinha de identificar o ato ilocutório da expressão “como um dia veremos”. A resposta certa seria ato ilocutório assertivo, mas os critérios de avaliação lançados pelo IAVE admitiam como resposta correta ato ilocutório compromissivo. Mas também nessa altura o IAVE garantiu que não havia qualquer erro.