Semblantes carregados, vozes embargadas e muitas gravatas pretas no hemiciclo, incluindo do primeiro-ministro e do líder da oposição. A crispação ficou fora da sessão evocativa das vítimas dos incêndios dos últimos dias, mas não o apontar do dedo. Todos pediram respostas, que não se repita a catástrofe e que — assim que se apagar o último fogo e se cuidar a última vítima — tudo seja investigado. O PSD foi o mais duro. Lembrou os dias em que portugueses não puderam confiar no Estado e que há uma grande diferença relativamente aos últimos anos, que incluem aqueles em que PSD e CDS governaram: o número de vítimas mortais, que já vai em 64.

O deputado do PSD, José Matos Correia, colocou a tónica na falta de confiança dos portugueses no Estado. O social-democrata começou por lembrar que “no passado fim-de-semana, 64 pessoas confiaram que podiam estar nas suas casas, que podiam dar um passeio com familiares, que podiam tirar umas merecidas férias. Mas o país não esteve à altura dessa confiança”. Uma confiança que, nos últimos tempos, tem “sofrido erosão”.

Apesar de destacar que este é um tempo de “solidariedade”, Matos Correia adverte que a “busca da verdade tem de ser sempre uma preocupação central.” E ensaiou uma farpa ao atual Governo. É que apesar do número de vítimas e danos materiais dos últimos anos, houve agora uma grande diferença: “Morreram 63 civis”. Para o deputado do PSD, “é esta diferença tão marcante entre o passado e o presente que exige o apuramento das responsabilidades.”

Também o CDS, insiste que agora até pode não ser tempo de ir em busca das respostas, mas Assunção Cristas deixou claro que para os centristas o assunto não vai morrer: “No dia em que tudo voltar ao normal teremos respostas em relação a questões fundamentais”.

Assunção Cristas adverte que “este é o tempo do luto e da palavra solidária. Para a política ainda é o tempo da quietude e do recolhimento. Chegará o tempo das perguntas e respostas, das responsabilidades políticas e técnicas, dos esclarecimentos e apuramento das razões. O luto também se ajudará a fazer com essa verdade”.

PS não quer “competições partidárias”. Esquerda exige respostas

O PS, através do seu líder parlamentar e presidente, defende que esta é a “hora não só de procurar todas as explicações”, “mas sobretudo de olhar em frente, de atuar”. Carlos César defende que o Parlamento deve procurar não só as “explicações”, mas ao mesmo tempo, acompanhar de forma “exaustiva as tarefas em curso de restabelecimento da normalidade”. O socialista lembrou, no entanto, que o Parlamento deve fazê-lo “da forma que escolher, sem competições partidárias que não devem ter lugar”. César já antecipa futuras críticas da oposição ao trabalho do Governo, quando a situação no terreno estiver controlada.

Carlos César deu igualmente a entender que o problema vem de outros anos, inclusivamente do tempo em que o PSD e CDS governavam. Daí que tenha deixado um apelo: “É fundamental romper com este ciclo de incapacidade”.

Os partidos à esquerda do PS também não abdicam de obter todas as respostas. O líder do PCP, Jerónimo de Sousa, exige respostas, já que esta é uma “catástrofe que impõe um cabal esclarecimento de todas as circunstâncias que o incêndio ocorreu”. E deixa também um apelo ao Parlamento para que a questão não seja esquecida: “Quando se apagarem os holofotes mediáticos, não permitamos que se volte a cair no esquecimento.”

O Bloco de Esquerda, através da coordenadora Catarina Martins também reconheceu que este é o tempo da “solidariedade e da dor”, mas também do “compromisso de que chegaremos ao tempo das respostas e responsabilidades.” A deputada bloquista considera que os portugueses merecem explicações: “Devemos respostas. Como foi possível? Como chegámos a esta situação? O que falhou?” De seguida, Catarina Martins assumiu que — apesar de fatores imponderáveis de poder sempre existir condições climatéricas adversas — as questões mais complicadas são as de “escolha política: ordenamento do território, despovoamento, estratégia de proteção civil ou política florestal”.

O deputado do PAN, André Silva, aproveitou a intervenção para afirmar que os grandes incêndios dos últimos dias servem para “provar que Portugal já não tem floresta”, mas uma “monocultura de acendalhas.” André Silva enalteceu a onda de solidariedade do país, dizendo que ficou provado, mais uma vez, que “os portugueses, quando é preciso, mobilizam-se.” Esta “rede humana” que foi criada, é para o deputado uma “lição de humanidade“, que traz aos deputados “responsabilidade para corrigir o que está errado“.

Na mesma linha Heloísa Apolónia, dos Verdes, fala em “enorme tragédia” e diz que o que aconteceu em Pedrógão Grande “impõe ao país coragem política”, “mais do que perceber a trovoada seca”, “mais do que perceber se algo falhou ao nível da comunicação”, “mais do que imensas reflexões que já foram produzidas aos longos dos anos sobre os fogos florestais”, “mais do que a produção de novos relatórios” e “até nos impõe mais do que a vontade de política de mudar as causas” que já estão identificadas.

Todos os partidos concordaram em legislar no sentido de corrigir os problemas identificados. Jerónimo de Sousa, por exemplo, diz que não é altura de “repetir relatórios, ou repetir comissões”, mas sim “concretizar propostas (…), medidas que nunca saíram do papel ou que foram em sentido contrário”. Neste campo — de melhorar as leis — há consenso entre todos. Os partidos foram também unânimes a enaltecer o trabalho das equipas no terreno, em particular dos bombeiros.