Enquanto fazíamos o trabalho sobre os 15 anos da Academia do Sporting, no mesmo dia em que os leões inauguram o pavilhão, recordámos uma história que um dia nos foi contada para explicar o porquê de uma equipa se apresentar mais ou menos confiante. Uma história que aconteceu na Academia. “Faltava menos de uma hora para irmos embora e na sala de convívio estavam uns em frente à televisão a ver os Morangos com Açúcar, outros nos jogos, outros a passear. Se dúvidas existissem, percebi ali que íamos ganhar nessa noite. Ganhámos mesmo e contra o Inter, que tinha uma equipa de sonho. Mas quando se vê miúdos tão novos e tão descontraídos, percebe-se que tem tudo para correr bem”.

A história que nos contaram diz respeito ao Sporting-Inter de 2006 na Liga dos Campeões, que os leões ganharam por 1-0 com um golo de bandeira de Marco Caneira. Mas serve sobretudo para apresentar as primeiras impressões que se conseguiu ver da Seleção Nacional, ainda antes de entrar em campo. Fernando Santos estava com aquela séria, concentrada. Os jogadores, esses, mostravam-se tranquilos, bem dispostos. Ao contrário dos russos, de cara fechada, tensos. E a maior diferença entre as duas equipas estava nos capitães: Akinfeev, que até cumpria o jogo 100, parecia aquelas pessoas a quem todos devem e ninguém paga, enquanto Ronaldo falava e sorria para Polina.

Polina, de dez anos, conseguiu receber o privilégio de entrar com o madeirense. E não cabia em si de alegria. O árbitro chamou e Ronaldo deu-lhe a mão direita ao mesmo tempo que Rui Patrício, que se seguia, ia empurrando a cadeira de rodas da criança. Uma imagem que correu mundo, sobretudo depois de ter sido partilhada no Twitter oficial da Taça das Confederações. E mereceu.

As equipas entraram, era altura dos hinos e restantes formalidades. Mas havia mais uma surpresa reservada: quando ainda todos os jogadores de Portugal tinham o seu casaco vestido, Ronaldo puxou o fecho, despiu-o e colocou-o no colo de Polina, que sorria sem palavras. Antes de sair do campo, o capitão ainda se despediu com um beijinho e ficou a ver se corria tudo bem.

https://twitter.com/RMadridEdition/status/877556710155534337

Ficha de jogo

Mostrar Esconder

Rússia-Portugal, 0-1

2.ª jornada do grupo A da Taça das Confederações

Estádio do Spartak, em Moscovo (Rússia)

Árbitro: Gianluca Rocchi (Itália)

Rússia: Akinfeev; Kombarov (Poloz, 68′), Dzhikiia, Vasin, Shishkin (Erokhin, 46′), Kudrjasov (Bukharov, 83′); Samedov, Glushakov, Golovin, Zhirkov e Smolov

Treinador: Stanislav Cherchesov

Portugal: Rui Patrício; Cédric Soares, Pepe, Bruno Alves, Raphäel Guerreiro (Eliseu, 66′); William Carvalho, Adrien Silva (Danilo, 82′), André Gomes; Bernardo Silva, André Silva (Gelson Martins, 78′) e Cristiano Ronaldo

Treinador: Fernando Santos

Golos: Cristiano Ronaldo (8′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Glushakov (27′), Pepe (57′), Bernardo Silva (71′), Dzhikya (72′) e Samedov (76′)

Cristiano Ronaldo é um ícone mundial. Ele sabe disso. E tudo o que faz, mesmo tudo, transforma-se em notícia. Por isso, os últimos dias foram complicados. A acusação de fraude fiscal, o comportamento de alguma imprensa espanhola e a alegada falta de apoio por parte do Real Madrid colocaram-no a repensar a sério na vida. E parecia admitir mesmo deixar os bicampeões europeus.

No entanto, a entrevista de Florentino Pérez, presidente dos merengues, veio alterar o cenário. Porque fez o que Ronaldo queria – “atravessou-se” por ele. E quando chegámos ao intervalo, percebemos que aquelas imagens antes do jogo estavam confirmadas: parecia outro em relação ao encontro com o México.

Não que tenha jogado mal na primeira jornada da Taça das Confederações, mas teve menos bola e rematou muito menos do que é normal. Algo que não aconteceu com a Rússia. Longe disso. E logo no primeiro remate, aos 8’, fez o primeiro (e único) golo: Bernardo Silva arrastou do lado direito para zonas interiores, abriu bem na esquerda, Raphäel Guerreiro progrediu, cruzou longo e Ronaldo, imparável, fuzilou de cabeça Akinfeev.

https://twitter.com/ConfCup2017/status/877547388222754819

A turma dos Silvas (Adrien, Bernardo e André) ajudou a Seleção a melhorar a consistência e qualidade de jogo, mas a alegria com que o capitão andava em campo acabou por alastrar-se aos restantes jogadores. Parece que o ouviram (ou entenderam) quando, após marcar o golo, explicou por gestos que ele estava ali e não havia problemas, era preciso manter a calma. Foi mesmo assim.

A primeira parte não teve muitas oportunidades nem remates, mas pertenceu ao número 7 a melhor chance para dar outra dimensão ao domínio nacional quando, na área, trocou as voltas à defesa russa e rematou forte para defesa de Akinfeev com os pés, quase por instinto (32’).

O segundo tempo continuou com a versão Portugal europeu mas de sorriso nos lábios e nota artística. André Silva (50’, de cabeça) e Cédric (59’, com um remate de meia-distância) obrigaram Akinfeev a grandes intervenções. No caso do lateral, era um golo mais do que justo – está num momento extraordinário. E ainda havia Ronaldo, que rematou muito mas agora sem tanta pontaria.

Durante uns cinco/dez minutos, a Rússia acreditou. Mas não foi aquele acreditar a carregar muito e com qualidade, foi mais na base do bombear bolas lá para a frente e esperar que a sorte lhe pingasse num ressalto. Não pingou. E com os jogos monstruosos de Pepe e Bruno Alves, também era complicado. Tanto que Rui Patrício fez uma defesa apertada, nos descontos, e no seguimento de um cruzamento que saiu sem querer para a baliza.

Portugal ganhou. E ganhou bem. Porque globalmente foi melhor, porque coletivamente foi superior. Mas não há nada como voltar a ter Cristiano Ronaldo de bem com a vida, não é?