Os deputados do PSD que estiveram no terreno e nas zonas afetadas pressionaram o partido — na reunião da bancada social-democrata desta quinta-feira — a enfrentar a “propaganda” do Governo, apesar de o momento ser de luto. “Já chega!”, disse emocionado um dos deputados. Outro optou, também ainda abatido, por contar que a própria filha foi encaminhada pela GNR para a estrada da morte, mas decidiu seguir outra alternativa. Foram várias as vozes da bancada a insistir que está na hora de começar a escrutinar a ação do Governo.

O deputado Pedro Pimpão, eleito por Leiria e que esteve desde o primeiro dia no terreno, emocionou-se na reunião de bancada enquanto garantia aos outros deputados que o discurso oficial do Governo não bate com a realidade. “Custa-me ver toda esta propaganda sem respeito pelo que aconteceu. Sei que o PSD deve respeitar o luto mas já chega, é preciso que as pessoas saibam a verdade“, afirmou o deputado na reunião à porta fechada, de acordo com declarações recolhidas pelo Observador e que o Expresso também noticiou. A direção da bancada e a direção do partido estão a preparar-se para não dar tréguas ao Governo na busca de responsabilidades pelo que aconteceu.

O mesmo deputado explica que houve “falhas no ataque inicial ao incêndio, no sistema de comunicação, em aldeias completamente isoladas sem apoio, em que pessoas que pediram ajuda logo a meio da tarde e ninguém lá chegou, muito antes das mortes”. Pedro Pimpão deu o exemplo do Centro de Saúde de Castanheira que esteve fechado e sem material para socorrer as vítimas. Para o social-democrata, os “deputados do PSD têm o dever de não deixar isto ser silenciado“.

O presidente da distrital do PSD de Coimbra e coordenador do PSD na comissão de agricultura, Maurício Marques, contou — segundo apurou o Observador — que teve de evacuar vários familiares de zonas onde a proteção civil não chegou, dando vários outros exemplos de “descoordenação absoluta entre as diferentes autoridades.”

Antigo autarca em Penacova, Maurício Marques lembra que num dos dias fatídicos, recebeu “indicações de um responsável da proteção civil para ir para uma estrada que afinal estava fechada, entre Góis e Álvares.” No dia 19, o deputado seguia no IC8, que estava cortado no sentido de Pedrógão, e garante ter assistido a um momento em que uma jovem sai do carro e correr em direção ao incêndio e a guarda nada fez para a impedir. Maurício conta ainda que a própria filha “foi umas pessoas que foi encaminhada para a estrada da morte, mas tomou outra alternativa em direção à A13.”

Um outro deputado contou que, perto de Pedrógão, “o proprietário de várias máquinas que estavam no terreno foi impedido e quase preso pela GNR, porque queria ir levar água, combustível e alimentação aos funcionários que há horas trabalhavam voluntariamente no terreno”. Acabou por ser, contou esse deputado, o “grupo de deputados do PSD que foi ao terreno a desbloquear a situação por sorte, porque apareceu um vereador local que levou as pessoas por outro caminho.” O mesmo deputado considerou que “a falta de coordenação entre forças [a que assistiu] era gritante”.

Durante a reunião, vários deputados levantaram “muitas reservas” quanto ao fundo que o Governo criou. Foi ainda defendido na reunião que “os donativos das pessoas não foram para substituir o apoio do Governo”, devendo esta verba “ser entregue às pessoas ou a uma associação como a União das Misericórdias ou as autarquias. Jamais gerida pelo Governo.”

À saída da reunião, o líder parlamentar do PSD anunciou que o partido vai realizar na próxima quinta-feira um debate político sobre as questões “que apoquentam, inquietam e intrigam” os portugueses na tragédia de Pedrógão Grande, que causou pelo menos 64 mortos. Luís Montenegro referiu que o PSD vai utilizar o seu agendamento potestativo (direito de fixar a ordem do dia) de dia 29 para abordar a questão dos incêndios do passado fim de semana, considerando que o tema “merece um tratamento sério, mas que não pode deixar de ser feito em sede parlamentar”.

Luís Montenegro questionou também os números que estão a ser apresentados pelas autoridades: “A questão não é duvidar dos números, é perguntar quais são esses numerosa e porque é que evoluíram de forma tão repentina. Recordo que passámos de 50 e poucos feridos para 100 e tal num ápice, e hoje mesmo passámos de 205 para mais de 250. Isto é apenas um exemplo”.

O líder parlamentar do PSD destaca ainda que não há ninguém que “até hoje tenha respondido de forma cabal sobre o numero de desaparecidos que ainda temos” e acrescenta que — apesar do luto — “é normal que todos os que intervêm no espaço público possam colocar essas questões.”