António Salgueiro, antigo responsável pelos Grupos de Análise e Uso do Fogo, defende que, no incêndio no concelho de Pedrógão Grande, terá havido “uma descoordenação muito grande sobretudo a nível de proteção civil” e que a prioridade devia ter sido proteger as pessoas e não controlar o fogo.

“A primeira intervenção tem de ser feita da melhor forma possível mas, não conseguindo resolver, a situação vai exponencialmente aumentando de perigo para os combatentes e para as pessoas que estão próximas e, portanto, muitas vezes o conselho é que nem sequer se faça”, diz o especialista em fogos florestais numa entrevista à Rádio Renascença. Para António Salgueiro, a primeira intervenção ao fogo “correu muito mal” e que se devia ter dado “toda a atenção à coordenação da proteção civil”.

Ter uma previsão mínima do comportamento do fogo, para onde é que ele iria, para evitar que as pessoas ali estivessem. Por outro lado, tentar informar, apesar da falha de comunicações tentar informar ao máximo a população sobre procedimentos a tomar”, refere.

O que se poderia ter feito, considera, era “ter meios disponíveis e meios facilmente acionados nas regiões onde sabíamos que tínhamos o risco maior” e sublinha a importância de preparar as populações “com anos de antecedência” para elas saberem minimamente como se devem proteger. E as críticas à proteção civil não se ficam por aqui. O antigo responsável pelos Grupos de Análise e Uso do Fogo caracteriza o sistema de proteção civil como “extremamente corporativista e sem oposição”.

É um sistema em que qualquer político que se meta a contestá-lo vai correr riscos muito sérios”.

António Salgueiro sublinha a importância de uma “transformação na nossa proteção civil” para que situações como esta não se repitam. “As proteções civis têm que funcionar com mérito, formação e mérito, e é isso que tem que dar hierarquia de especialização. Com factos comprovados, não é com cooperativismos, não é com divisão de cargos entre instituições com força”.

O especialista espera ainda que seja feito um inquérito sério para se apurar o que aconteceu, nomeadamente no que toca à EN236-1, onde morreram 37 pessoas. “Não estando no local e podendo estar a errar, como é que nós fechamos o IC 8, que é a estrada com maior largura, com a maior possibilidade de defesa naquela região, e direcionamos as pessoas para uma estrada situada em plena montanha com seis metros de largura?”.

Esse inquérito deve tentar perceber se todas as instituições, entre as quais a Proteção Civil, estão a funcionar bem para assim perceber o que correu mal. O que se passou com o SIRESP, continua, é “inacreditável”. “Gastámos cerca de 400 milhões de euros num sistema de comunicação de proteção civil e passados cerca de 10 anos continuamos com um sistema que falha”, defende.

António Salgueiro afirma ainda que não há falta de meios de combate a incêndios em Portugal, mas falta sim “inteligência do sistema estratégico”. “Ter pessoas que saibam bastante de fogo e que se preocupem em particular com os incêndios florestais e não com a proteção civil”, diz o especialista, voltando a referir que a prioridade devem ser as pessoas.