Do lado esquerdo do ringue (ou da piscina?) está o homem bem vestido, calçado, com aspeto de bancário; do lado direito do ringue (ou da sala de operações?) está o homem desalinhado, descalço, de roupa larga. De um lado, a autoridade do estado; do outro, a revolução. Aqui, o torturador; ali, o torturado. E no meio, além do espaço vazio, há em “Pedro e o Capitão”, que se estreia esta sexta no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, a violência, as verdades opostas e a impossibilidade da comunicação.

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“Ouviste?”, pergunta o capitão, a personagem do ator Ivo Canelas. “É um intermezzo entre sofrimento e sofrimento”. Diz isto enquanto procura o lado musical da palavra: sofrimento. Diz isto enquanto Pedro, a personagem de Pedro Gil, que também pode ser Rómulo, fica calado e participa no compasso com o silêncio. E diz isto enquanto um ligeiro fio de água se vai espalhando pelo chão, como uma promessa de limpeza ou uma ameaça silenciosa que vai enchendo o palco-piscina da Sala Mário Viegas até dia 2 de Julho.

Um ensaio sobre como falar sozinho

“Tive uma altura, em 2015, em que andava interessa nisto da memória, mas era nestas memórias de um passado que tem muito a ver com os nossos pais mas que para nós são quase só ADN: as guerras, as revoluções. Comecei a fazer uma pesquisa de textos e de repente cheguei a este do Mario Benedetti”, explica Marta Carreiras, uma das encenadoras do espectáculo. Mas o plano nem era encenar. No Teatro Meridional, onde trabalha, o que faz é cenografia e figurinos. “Só que lá há muito este espírito de ouvirmos as nossas pulsões, e eu já tinha esta há muito tempo. Só fui adiando.”

Ivo Canelas é o “capitão”

O passo seguinte foi convocar Romeu Costa, ator e encenador com quem já tinha trabalhado várias vezes, de quem é amiga, com quem já sabia que havia um “encaixe artístico”. Foi também ele que pegou no texto do escritor sul-americano e o traduziu para a versão da peça:

“Gostei logo muito do texto, e sobretudo por causa destas quatro tentativas para tentar comunicar melhor com outra pessoa. Mais parecem quatro rounds de um combate.”

Há quatro atos, assim como há quatro fichas de quatro pessoas que o capitão quer ajuda para completar. Procura a denúncia, procura ser pragmático e não “sádico”, acredita na persuasão e até se sente confortável porque nunca é ele que suja as mãos. Mas cada vez fica com os pés mais molhados. Já do outro lado há outra crença, há resistência, há a vantagem do não, porque “não é não”, e um ensaio “sobre como falar sozinho”.

“Acredito que há apenas uma violência. É a mesma violência que está dos dois lados, que tolda estes dois seres que nasceram na mesma cidade, que têm famílias, que se calhar até andaram na mesma escola. Não existem homens bons e homens maus. A culpa é da própria violência e não de cada um dos lados, e o mais assustador é que, apesar de nos dizerem que certas coisas não se repetem, não estamos a aprender nada com o passado”, acrescenta Marta Carreiras.

Um kit de tortura

Esta violência, a que foi escrita por Mario Benedetti, e por ter sido escrita por um uruguaio, parece ser a das ditaduras da América do Sul, ou das respetivas forças de revolução. Mas há o cuidado de a libertar, de lhe retirar a especificidade. “Montámos uma espécie de kit de tortura, um espaço efémero, de plástico, que pode ser implementado em qualquer lugar. E a verdade é que uma situação destas pode acontecer a qualquer momento… as coisas estão tão frágeis”, explica Romeu Costa.

Pedro Gil é “Pedro”

Desde 2015, o ano em que começaram a trabalhar neste espectáculo, muita coisa aconteceu.

“Sentimos que foi ficando cada vez mais pertinente, apesar de estarmos a trabalhar o passado. Estamos postos perante vários becos sem saída na política internacional, a Turquia rompeu com os Direitos Humanos à frente dos nossos olhos, a União Europeia está em convulsão, e há corpos que dão à costa, que servem de prova de violência tal como serviam os corpos dos torturados.”

Por isso, o referido kit, aquele que constitui a cena, é muito simples: duas cadeiras, água, plástico e uma câmara de filmar, sendo a referida câmara uma outra forma de persuasão, ao mesmo tempo que é uma forma de controlo e mais uma forma de questionar as possibilidades da comunicação: Se a imagem é projetada numa tela, preferimos ficar a olhar para o acontecimento, para o corpo que está em palco, ou para a representação imagética que se faz dele e que nos atrai os olhos? “É uma arma dos nossos tempos também. Quantas vezes acreditamos mais num vídeo do que naquilo que vemos? Aqui é preciso optar”, diz Marta Carreiras.

A impossibilidade de representar a violência

Apesar da possibilidade de dupla visibilidade oferecida pela disposição de cena, e de as técnicas de tortura estarem todas lá – o submarino, a estátua, a picana eléctrica –, a violência, o momento de agredir fisicamente o corpo, fica nos intervalos. “Acaba por ser tudo muito clássico, muito grego, muito ligado ao poder da sugestão”, explica Romeu Costa, para logo a seguir Marta Carreiras completar:

“É que, a partir de um certo ponto, a violência é mesmo impossível de representar. Ficaríamos sempre aquém. Ficar do lado da sugestão dá-lhe uma escala mais forte.”

Foi também uma das conclusões a que chegaram depois do ciclo de conferências no Museu do Aljube que organizaram para perceber melhor a matéria com que o espectáculo lida – sobre cultura sul-americana, sobre a Amnistia Internacional e a tortura que existe hoje em dia, sobre filosofia política, ou mesmo sobre a forma como se pode usar a ciência para praticar o mal de forma cada vez mais eficiente, entre muitos outros temas relacionados.

Tal como em cena, o conteúdo do espectáculo foi como uma massa de água que ia subindo. E é também por isso que a água está presente para ligar tudo, para salpicar o torturador (e até o público) ao mesmo tempo que agride o torturado. “É um elemento inodoro, incolor, o mais essencial à vida, mas também é um método de tortura antigo, também nos pode matar. Ao mesmo tempo, é um elemento que vai chegando devagar, que não assusta”, conclui Marta Carreiras. “Não podia ser mais limpo, mais asséptico, em contraste com o sangue que podia estar presente numa situação destas”, diz Romeu Costa. O que não significa que alguém possa sair desta sala com as mãos limpas.

“Pedro e o Capitão”, Teatro Municipal São Luiz, Lisboa; de 23 de junho a 3 de julho; de quarta a sábado, 21h; domingos, 17h30; bilhetes a 12 euros. Texto: Mario Benedetti; Encenação: Marta Carreiras e Romeu Costa; Interpretação: Ivo Canelas e Pedro Gil