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Pedrógão Grande. Marcelo e os "beijinhos no dói-dói" que a direita não perdoa

Este artigo tem mais de 5 anos

Marcelo enfrentou o perigo e a GNR para chegar ao posto de comando, mas fez declarações que mais tarde retificou. Deputados do PSD criticam "branqueamento" que Presidente fez da situação.

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MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Marcelo deu um abraço prolongado ao secretário de Estado, Jorge Gomes, que já estava de olhos humedecidos, quando o chefe de Estado chegou ao posto de comando de Pedrógão Grande, na noite de sábado. A ministra ainda estava a caminho, a desolação era grande no comando — com 19 mortes então confirmadas, que chegariam às 64 — e o Presidente sentiu que tinha de pegar as rédeas da situação. Não falou logo à imprensa e seguiu para o interior de um camião dos Bombeiros Voluntários de Peniche que servia de “war room” do posto. Inteirou-se da situação e, para não desmotivar as “tropas”, fez declarações que o obrigaram a desdizer-se dois dias depois: “Não era possível ter feito mais“. Precipitou-se. E a direita voltou a não perdoar.

No sábado do “inferno”, o Presidente tinha acabado de chegar a casa a Cascais, vindo do Porto — onde esteve num encontro de cuidadores de doentes de Alzheimer — quando decidiu pôr-se a caminho de Pedrógão. Foi na estrada que soube, pela voz de Jorge Gomes, que o número de mortes já ia em 19. E que podia crescer. Até ali chegar, o próprio chefe de Estado passou por algum perigo. De acordo com Expresso (edição fechada), a GNR quis impedir Marcelo Rebelo de Sousa de percorrer a estrada que liga Figueiró dos Vinhos ao posto de comando de Pedrógão. “Eu quero ir”, “se estamos em guerra, vamos à guerra”, terão sido algumas das expressões do Presidente. Prevaleceu a vontade.

Depois de um briefing com os homens que lideravam as operações, Marcelo apressou-se a desresponsabilizar as autoridades. Segundo fonte da Presidência, “estavam todos desolados, ele quis manter a serenidade e dar força a quem ainda estava a combater no terreno”.

Marcelo falou então, já a noite ia longa (mas ainda quente e abafada) aos jornalistas para dizer que “o que se fez foi o máximo que se poderia ter feito. Não era possível fazer mais. Há situações que são imprevisíveis e, quando ocorrem, não há capacidade de prevenção que possa ocorrer, a capacidade de resposta tem sido indómita.”.

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No momento em que o Presidente está a falar em direto para as televisões, chega a ministra da Administração Interna ao local. Jorge Gomes retira-se da primeira linha, à direita de Marcelo e à esquerda dos ecrãs, e troca de lugar com Constança Urbano de Sousa ao mesmo tempo que lhe dá um beijo na cara, ainda sem conseguir conter a emoção.

Nas horas seguintes o número de mortes cresceu para dimensões até então impensáveis, houve relatos de falhas das autoridades, a pressão pública aumentou e a justificação inicial começou a ficar curta. A trovoada seca, afinal, não explicava tudo.

No dia seguinte, numa comunicação ao país às 20h30, Marcelo começava a abrir margem para pedir respostas, dizendo que “há interrogações e sentimentos que não podem deixar de nos angustiar”. No entanto, pedia que não se fosse já atrás dessas respostas: “Guardemos no imediato estes e outros sentimentos que nos assaltam no mais fundo do nosso coração. Sem nos esquecermos, concentremos agora a nossa vontade no essencial: prosseguir o combate em curso, manter e alargar a nossa solidariedade aos que sofreram e sofrem a tragédia, demonstrando que nos instantes mais difíceis da nossa vida como nação somos como um só.”

Dois dias depois das primeiras declarações (a 19 de junho), Marcelo retificava, definitivamente, o que tinha dito no sábado. Confessava que, afinal, tinha constatado a desorganização quando chegou ao local. Ainda que de forma subliminar. Em nova visita ao posto de comando — que entretanto mudara de sítio — Marcelo registava: “Agora, temos uma estrutura e meios muito diferentes”. Acrescentou ainda que passar a existir “método e organização”, sugerindo que na primeira visita ao local — quando elogiou a resposta das autoridades — não existia nem uma coisa nem outra.

Direita ataca Marcelo por palavras em Pedrógão

Logo nesse dia, o líder da oposição, Pedro Passos Coelho, deixava recados ao Presidente dizendo que não fazia “sentido desdramatizar a situação que estamos a viver. Há muitos anos que combatemos incêndios, mas esta é a primeira vez que um número tão dramático de pessoas perderam a vida.”

Passos disse ainda ser contra os discursos do “isto é sempre assim, não há nada a fazer, estamos entregues a inevitabilidades”. Mas admitia deixar essa discussão para mais tarde. “O debate, quando ocorrer, aconteça com alguma racionalidade, já fora de climas emocionais, e que as pessoas possam, em primeira instância, ter acesso a informação e conclusões relevantes”, afirmou o líder social-democrata. Esta sexta-feira, Passos Coelho foi mesmo a Belém encontrar-se com Marcelo. O assunto foram os incêndios e, à semelhança do que já tinha feito, Passos Coelho ir à audiência com o Presidente da República sozinho (sem vice-presidentes ou qualquer comitiva). Durou mais de uma hora e o líder do PSD não fez qualquer declaração à saída.

Já no dia anterior, o vice-presidente da bancada do CDS Hélder Amaral escreveu na sua página no Facebook que a culpa não podia morrer solteira no caso de Pedrógão e que “não basta um Presidente da República dar beijinhos no dói-dói, e dizer que não há nada a fazer. Está quase tudo previsto, na lei e no dispositivo de combate aos incêndios. Basta levar muito a sério estes riscos que se repetem todos os anos.”

Às acusações do deputado do CDS, Marcelo reagiu com aquilo que era a sua sensibilidade pessoal: “Em momentos de dor eu gostei que as pessoas fossem carinhosas comigo (…) Quando tive problemas na minha vida, desgostos, como a morte dos meus pais, eu gostei que os meus amigos estivessem comigo nessa hora.”

A indignação também chegou à bancada do PSD. Na quinta-feira, durante a reunião da bancada social-democrata houve alguns deputados a apontarem baterias ao antigo líder do partido, criticando a forma como o Presidente da República “branqueou” as falhas que levaram à morte de 64 pessoas.

Um deputado do PSD explicou ao Observador que “o Presidente até podia ter as melhores das intenções para tentar meter serenidade num local cheio de descoordenação, mas exagerou dizer que tudo o que podia ser feito, tinha sido feito. E ele próprio já admitiu que exagerou“.

Outro deputado social-democrata considera que Marcelo “cometeu mais uma vez o pecado de sempre: quer estar em todo o lado, ser o primeiro a agir e a falar e acaba por falar de mais”. Um dirigente do PSD diz ainda ao Observador que “é Marcelo a ser Marcelo e, mais uma vez, a amparar o Governo“.

Também o antigo deputado do CDS e ex-líder da JP, Michael Seufert, escreveu um artigo no Expresso a dizer que no caso de Pedrógão o “Presidente da República volta a meter o carro à frente dos bois”. Seufert lembra que “depois de, ainda decorria o fogo e ninguém podia saber nada (aliás, ainda ninguém sabe, honestamente) sobre como funcionara o dispositivo do estado no incêndio que matou 64 pessoas, ter afirmado perentoriamente que tinha corrido tudo da melhor maneira possível, o professor Marcelo Rebelo de Sousa volta a querer acelerar um processo que exige apuramento dos factos, reflexão e só depois ação legislativa.”

Foram também várias as críticas a Marcelo sobre facto do Presidente da República exigir aos deputados que legislassem sobre “tudo, mas mesmo tudo” o que pudesse ajudar a prevenir incêndios e evitar que tragédias como a do último fim de semana se repitam. Antes das férias.

 
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