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Marques Mendes acredita que o Ministério Público irá formular uma acusação de homicídio por negligência na sequência dos incêndios em Pedrógão Grande, que provocaram 64 mortos e mais de 200 feridos e defendeu que o “Governo devia ter tido a preocupação de esclarecer tudo o que aconteceu”.

“Juridicamente é quase impossível o Ministério Público não vir a formular uma acusação de homicídio por negligência”, afirmou o comentador, este domingo, no seu comentário semanal na SIC.

Mendes fez várias críticas ao Governo, considerando que o Executivo “nunca quis verdadeiramente fazer uma investigação” ao que aconteceu porque, uma semana depois do início do fogo, ainda não foi enviada uma comissão ao terreno. E recordou a comissão de inquérito aberta pelo Governo de Costa, no ano passado, após o incêndio de São Pedro do Sul, que provocou a morte a uma pessoa.

“Dá a sensação de que o Governo tem medo, que há aqui qualquer vontade de esconder”, afirmou Mendes, sublinhando contudo dois pontos positivos: a “presença no terreno” e o “apoio social de emergência” dado às populações.

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O comentador sublinhou também as várias entrevistas dadas por membros do Executivo. “Muitas entrevistas dão a ideia de excessiva preocupação com a imagem”.

Apontou o dedo à ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, referindo que a sua demissão é “quase inevitável”, não só tendo em conta a provável acusação do Ministério Público, mas também a demissão do antigo ministro do Equipamento Social Jorge Coelho, quando ocorreu a tragédia de Entre-os-Rios e que fez 59 mortos — “um precedente histórico e positivo”, acrescentou.

Marques Mendes criticou ainda a comissão técnica independente no Parlamento para apurar o que aconteceu, referindo que as comissões devem ser feita pelo Governo e não pela Assembleia da República. “É um absurdo”, defendeu.

Levar esta questão ao Parlamento, disse, é um “erro” do Governo e da Assembleia da República, acrescentando que o PSD, partido que sugeriu a criação desta comissão, foi “ingénuo” porque deu “uma boia de salvação” ao Executivo.

Para o comentador, esta decisão vai fazer com que tudo seja “partidarizado”, fará com que o apuramento do que ocorreu em Pedrógão Grande demore mais tempo, o Executivo “ganha tempo para que o assunto seja esquecido” e, “no final”, os esclarecimentos e as recomendações fica “em águas de bacalhau”.

“Vai ser uma confusão. Verdadeiramente acho que nada disto é sério”, acrescentou.

Mendes elogiou a postura do Presidente da República. Disse que Marcelo Rebelo de Sousa “andou bem do princípio ao fim” e destacou o facto de ter estado “próximo das pessoas”, ter sido “afetivo”, “solidário”. “As críticas que lhe fizeram são profundamente injustas”, defendeu.

O comentador também elogiou os partidos, em particular a oposição, que estiveram “contidos” nestes dias.

Para Marques Medes, a relação do país com o Governo “passou a ser diferente” depois dos incêndio porque “toda a gente percebe que houve falhas e negligência por parte do Governo”, acrescentando que os portugueses vão passar a ser “mais exigentes e menos tolerantes”.