O crescimento económico por si só não é suficiente, como a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos demonstrou, afirmou esta segunda-feira, em Sintra, o ex-presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, que deixou críticas aos governantes que, diz, não prestaram a devida atenção às populações que foram ficando para trás.

Era o convidado estrela da conferência dos banqueiros centrais organizado pelo Banco Central Europeu (BCE), e que se realiza pela quarta vez consecutiva em Sintra, e como ex-presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, as suas palavras ainda têm muito peso no mundo inteiro.

E Ben Bernanke não se esquivou. Nem nas críticas aos governantes, nem a Donald Trump, nem em admitir que durante muitos anos não se prestou a devida atenção aos problemas daqueles que a globalização foi deixando para trás.

“Certamente não sou o primeiro a reparar que a eleição de Trump envia uma mensagem importante, que resumir esta noite como: às vezes, crescimento [económico] não é suficiente”, disse.

O antigo responsável da Fed disse que Trump merecia crédito como candidato presidencial por reconhecer e usar as frustrações do “esquecido homem americano, versão século XXI” e usar essa frustração para ser eleito, mas também disse que Trump tem uma visão distópica da economia e que usa dados errados para descrever essa economia, como nos números do desemprego e sobre os impostos.

A frustração, diz, não é algo exclusivo da direita, como a candidatura de Bernie Sanders nas primárias democratas mostrou, mas mostram antes algo que os decisores políticos ignoraram durante demasiado tempo: o impacto das mudanças económicas uma grande parte da população.

“Nas últimas décadas, os decisores políticos foram lentos a reconhecer estas tendências, um erro por omissão que ajudou a empolar a revolta dos eleitores. Se o crescimento do populismo a que estamos a assistir tem uma vantagem, é a focar a tenção na necessidade moral e nos benefícios práticos de ajudar as pessoas a lidar com as disrupções económicas que acompanham o crescimento”, disse o responsável.

Ben Bernanke diz que a resposta à evolução económica nos Estados Unidos falhou por não apresentar um conjunto de políticas abrangente que ajudasse as pessoas e as localidades a ajustarem-se à difícil combinação do menor crescimento económico e das rápidas mudanças económicas. “Qualquer que seja a razão, é claro, em retrospetiva, que podia ter sido feito muito mais”.

E o que podia ter sido feito|? Mais formação profissional para aqueles cujos empregos desapareceram; ajuda na transição para aqueles que tiveram que emigrar ou mudar de Estado; maior apoio em termos de educação; maior desenvolvimento local; e mais atenção a questões sociais, que no caso dos Estados Unidos diz mais respeito a apoio a toxicodependentes e à reforma do sistema criminal.

No entanto, e apesar de reconhecer que o populismo foi especialmente eficaz para eleger Trump, Ben Bernanke diz que Donald Trump pode não ser suficientemente populista, e as suas políticas, até agora, parecem mais alinhadas com as políticas tradicionais do partido republicano, nem são os políticos populistas especialmente indicados para resolver estes problemas porque, por norma, diz, são demasiado impacientes para poderem aplicar as soluções abrangentes que estes problemas exigem.

Ben Bernanke terminou dizendo que, sim, o crescimento económico é muito importante, desde que acompanhado com a melhoria de outros indicadores de bem-estar das populações, mas não é suficiente. O crescimento traz consigo mudanças significativas para a vida das pessoas e, como aconteceu no passado, a depreciação de capital humano e social. Estas mudanças podem ser muito difíceis de resolver e exigem soluções compreensivas e mais atenção dos decisores políticos, que “deviam ser a maior prioridade dos decisores políticos”.