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Liberdade Religiosa

Há uma mesquita na Alemanha liderada por uma mulher – e as ameaças não se fizeram esperar

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Seyran Ateş, uma advogada alemã com origem turca, abriu a primeira mesquita liderada por mulheres na Alemanha. O Egito já emitiu uma fatwa contra o espaço mas Ates garante que continuará a funcionar.

Seyran Ateş acredita num Islão inclusivo onde mulheres e homens possam rezar juntos

AFP/Getty Images

Ateş realizou um sonho. Um sonho que não era só seu. A advogada, com nacionalidade turca e alemã, abriu a primeira mesquita “liberal” da Alemanha. É um espaço cheio de luz, com janelas quase do teto ao chão, no bairro de Moabit, no centro de Berlim, e, ali, mulheres e homens, incluindo homossexuais, podem rezar juntos. É ela mesma que lidera as cerimónias religiosas.

O próprio nome da mesquita é uma homenagem à confluência de culturas, da qual a capital alemã tem sido um exemplo de sucesso. A mesquita de Ibn Rushd-Goethe, com os nomes de um filósofo muçulmano que abraçou os ensinamentos dos pensadores gregos e um escritor alemão apaixonado pela poesia do Médio Oriente, abriu há uma semana mas já foi alvo de várias críticas.

A Dar al-Ifta al-Masriyyah do Egito, uma instituição religiosa criada pelo Estado para analisar e emitir pareceres sobre assuntos religiosos, já condenou a existência da mesquita, na base de que “homens e mulheres a rezar lado a lado não é uma prática compatível com o Islão”. O departamento legal da universidade al-Azhar, no Cairo, reagiu à notícia com a publicação de uma fatwa contra a existência de qualquer tipo de mesquitas liberais. As fatwa são éditos escritos por autoridades religiosas muçulmanas condenando práticas ou pessoas que tenham atentado contra os princípios do Islão. Nem sempre são sentenças de morte, como aquela que foi emitida contra Salman Rushdie, o escritor britânico e indiano, depois da publicação do seu livro Versos Satânicos, por alegadamente gozar com a fé muçulmana através da reconstituição de algumas partes da vida do profeta Muhammad.

Do seu próprio país de origem também não chegaram muitas palavras de apoio. A autoridade máxima para assuntos religiosos da Turquia, o Diyanet, disse que as práticas da mesquita “não alinham com os pilares fundamentais do Islão: os seus princípios de veneração, a sua metodologia ou a sua experiência ao longo de mais de 14 séculos”. Estas “experiências” não servem para mais do que “depravar e arruinar a religião”, disse ainda a autoridade turca.

Também da Turquia chegaram acusações de que a mesquita estaria ligada ao movimento de Fethullah Gülen, o clérigo turco exilado nos Estados Unidos e que o regime de Recep Tayyip Erdoğan, Presidente da Turquia, culpa de ter sido a inspiração para o golpe de Estado falhado de julho de 2016. “Não tenho nada a ver com o movimento Gulenista, aliás, pelo contrário: eles representam um Islão demasiado conservador para nós”, foi a resposta de Seyran Ateş.

Inquebrável perante uma sala cheia de jornalistas e fiéis, conta o jornal alemão Die Welt, Seyran Ateş, de 54 anos, recusa-se a ceder às críticas. “As reações negativas que estamos a receber só me provam que estou a fazer o que é certo. Deus é amor e misericórdia, de outra forma ele não me teria tornado na pessoa que sou”, disse a advogada que admitiu já ter sido ameaçada. “Por cada 300 emails que recebo com mensagens de coragem para que continue com o meu trabalho, recebo 3000 cheios de ódio, alguns deles com ameaças de morte”, disse Ateş citada pelo diário britânico The Guardian.

Missão: mudar completamente a abordagem ao Islão

Os objetivos são ambiciosos e Ateş não tenta esconder isso. A advogada, que não usa sequer um lenço sobre a cabeça e proíbe a entrada a mulheres de burqa ou niqab por considerar estas peças “uma declaração política”, começou a pensar em criar uma mesquita mais inclusiva por não conseguir encontrar paralelo entre os sermões dos imãs nas mesquitas e a sua forma de viver a fé. “Muitos sermões são bastantes políticos e servem apenas para disseminar uma mentalidade de vitimização entre os muçulmanos em vez de promover a coexistência destes com o resto da sociedade”, justificou-se a advogada por altura da abertura da mesquita.

A mera existência da mesquita Ibn-Rushd-Goethe é um ataque direto às sumidades islâmicas por todo o mundo. Afinal quem é Ateş para decidir o que é que é o “Islão liberal” e quem é ela para estar a dividir a fé, quando o ideal muçulmano é de unidade contra as várias “espigas” ideológicas que têm despontado no mundo? Mas será que este Islão mais conservador está a resultar? “O que é que estas mesquitas na Alemanha fizeram, ao longo de década, para evitar a radicalização dos jovens? Porque é que tantos muçulmanos já e disseram que as mesquitas das suas comunidades apenas têm contribuído para os afastar da sua fé?”, perguntou Ateş na inauguração do espaço que abriu com ajuda de muçulmanos sunitas, xiitas, alevitas e sufistas.

“A nossa ideia de um Islão liberal, contra aquilo que é defendido pelos ortodoxos e pelos conservadores, é a de que o que vem escrito no Corão não pode ser transferido palavra por palavra para o século XXI”, explicou a advogada que recusa aceitar que as pessoas se convertam ao Islão para seguir “os ensinamentos do auto-proclamado Estado Islâmico ou dos Taliban”.

A resposta da população local ao nascimento da mesquita tem sido “positiva” mas também há os que propagam uma ideia de medo assim que qualquer coisa com a etiqueta “Islão” aparece. “Todas as sextas-feiras há um homem à frente da mesquita que entrega às pessoas um pedaço de papel que diz: ‘os sonhadores da Torre de Marfim fundaram uma mesquita na comunidade de São João. Com ela trazem o terror diretamente para o pé de nós’ “, contou Ates.

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