Fogo de Pedrógão Grande

As três grandes contradições entre os relatórios sobre o SIRESP

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O relatório da Proteção Civil e o da empresa que gere o SIRESP contam duas realidades. Não acertam nos factos, nem nas conclusões. Para ANPC houve muitas falhas, para a "SIRESP, SA" correu tudo bem.

HENRIQUE CASINHAS/OBSERVADOR

Os dois relatórios entregues ao Governo que abordam o desempenho SIRESP no fogo de Pedrógão Grande apresentam contradições entre si. As conclusões e pressupostos apresentados pela empresa SIRESP, SA — que gere o serviço — e a Autoridade Nacional da Proteção Civil, que o utiliza, não coincidem. Um diz que houve falhas no SIRESP, outro diz que não. Um diz que as estações móveis estavam avariadas, outro ignora esse facto. Um diz que a estação por satélite começou a funcionar a uma hora, outro garante que foi noutra. As perguntas são iguais, as respostas, diferentes.

O SIRESP falhou em Pedrógão?

O relatório da Autoridade Nacional da Proteção Civil (ANPC) diz claramente — na resposta enviada ao primeiro-ministro António Costa — que houve falhas na rede SIRESP, pelo menos, durante quatro dias. Ora, no relatório da SIRESP, SA — empresa que gere a rede — diz que “esteve à altura” e que o serviço nunca foi interrompido.

O que disse a ANPC:

Poder-se-á inferir que, desde as 19:45 do dia 17 de junho até ao dia 20 de junho, se verificaram falhas na rede SIRESP no TO (Teatro de Operações). Por forma a minimizar as falhas da rede SIRESP, foram utilizadas as comunicações de redundância, nomeadamente, REPC – Rede Estratégica de Proteção Civil e ROB – Rede Operacional de Bombeiros, conforme se pode constatar na fita do tempo do sistema SADO (Sistema de Apoio à Decisão Operacional)

O que disse a SIRESP SA:

Não houve interrupção no funcionamento da rede SIRESP, nem houve nenhuma Estação Base que tenha ficado fora de serviço em sequência do incêndio”

As estações falharam?

A ANPC referiu que três antenas foram destruídas e que, por isso, pediu o envio de uma estação móvel para o local (com comunicação por satélite). Segundo a SIRESP SA, houve cinco estações que estiveram em “modo local” — quando as comunicações ficam restritas ao teatro de operações –, mas isso não impediu o sistema de funcionar.

O que disse a ANPC:

Entre as 21h12 e as 21h16, a ANPC recebeu três comunicações da SIRESP a dar conta da queda de três sites, a saber, Serra da Lousã, Malhadas e Pampilhosa da Serra, facto este que afetou as comunicações. (…) No dia 18 de junho, às 00h51: além dos sites supra referidos, encontrava-se igualmente inoperacional o site de Pedrógão Grande, ficando na área de intervenção quatro sites SIRESP sem comunicações entre si, facto que alargou a área de inoperacionalidade daquela rede. (…) Às 04h12: O site localizado em Figueiró dos Vinhos ficou inoperacional; Às 09h58: não havia previsão de reposição de linhas devido a corte por incêndio florestal.”

O que disse a SIRESP SA:

Das 16 estações base que cobrem a zona de incêndio verificou-se que cinco destas entraram em modo local (LST — Local Site Trunking), em virtude da destruição pelo incêndio, dos cabos de fibra ótica e outros da rede de telecomunicações que asseguram contratualmente a interligação da Rede. (…) [Ainda assim, devido à tecnologia TETRA] mesmo em situações extremas como a que se verificou em Pedrógão Grande, fica demonstrado que a Rede SIRESP funcionou de acordo com arquitetura que foi desenhada para esta rede. Durante o dia 17, primeiro dia do incêndio, as situações de congestionamento não foram significativas, particularmente até às 23h00.”

O que se passou com a estação móvel e quando ficou operacional?

De acordo com a ANPC, a estação móvel foi pedida logo às 21h29 do dia 17 de junho, o sábado do grande incêndio, mas só terá entrado em funcionamento no dia seguinte às 18h19, até porque, entretanto, a estação de Pedrógão Grande ficou “operacional” durante a manhã de dia 18 de junho.

Pode haver aqui dois conceitos distintos de “operacionalidade”, mas há outra coisa que não bate certo: as horas. A SIRESP, SA diz que a estação móvel começou a funcionar às 09h32 de domingo, dia 18, na zona de Pedrógão. As estações fixas só foram desligadas horas depois (a SIRESP SA faz questão de dizer que “por solicitação da SGMAI”, a secretaria-geral do Ministério da Administração Interna).

A ANPC afirma que existiam duas estações móveis: uma estava inoperacional e outra em manutenção. Segundo a ANPC, esta viatura foi alvo de uma ordem de recolha já depois das três da manhã da madrugada de dia 18.

O que disse a ANPC:

Perante isto, às 21h29, a ANPC solicitou à SIRESP a mobilização de duas estações móveis, tendo sido informado que a estação móvel I, pertencente à GNR, se encontrava inoperacional e que a estação móvel 2, pertencente à PSP, se encontrava em reparação na empresa UNIVEX, pelo que, não era possível, no momento, a mobilização da mesma para a zona de Pedrógão Grande.

Às 03h17, a secretaria-geral do MAI solicitou o levantamento da viatura da Estação Móvel 2 SIRESP das instalações da empresa UNIVEX e determinou que a mesma ficasse localização no PCO da ANPC em Pedrógão Grande, com hora prevista de chegada ao TO pelas 05h50.

No dia 19 de junho, às 12h00, a ANPC recebeu por parte do SIRESP a informação de que a estação base de Pedrógão Grande ficou operacional. Verificando-se ainda falhas de cobertura no TO, às 12h04, a ANPC solicitou a deslocação da estação móvel do SIRESP para a zona de Avelar, onde estava instalado o PCO. A estação começou a funcionar em Avelar às 18h19.”

O que disse a SIRESP:

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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