O bastonário da Ordem dos Psicólogos está “preocupado” com o apoio que está a ser dado no terreno às vítimas do incêndio de Pedrógão Grande e, sobretudo, com o apoio de continuidade que será dado depois de passada a fase mais crítica, isto é, depois dos dois primeiros meses pós-tragédia. Segurança Social criou esta segunda-feira linha telefónica específica para atendimento e acompanhamento das populações afetadas.

Depois de uma reunião “alargada” com o Ministério da Saúde e outras entidades como a Proteção Civil e a Emergência Médica, que estão a analisar o acompanhamento dado aos sobreviventes e familiares das vítimas, Francisco Miranda Rodrigues diz ao Observador que “há oito anos” que a Ordem alerta os sucessivos governos para a necessidade de haver mais psicólogos no Serviço Nacional de Saúde para fazerem o acompanhamento de continuidade no pós-crise.

Segundo explica ao Observador o bastonário Francisco Miranda Rodrigues, a primeira fase de intervenção deve durar entre “um a dois meses” e está a ser feita no terreno através de “quatro equipas multidisciplinares“, compostas por psicólogos e psiquiatras. O problema, diz, é que estas equipas não chegam para acompanhar todas as situações, limitando-se a dar apoio aos casos considerados mais graves e a fazer o encaminhamento para as unidades de psiquiatria e saúde mental respetivas.

“Falta sobretudo apoio para as pessoas que não têm um quadro tão grave, mas que estão a entrar em isolamento, o que pode originar depois situações de ansiedade e depressão”, diz o bastonário ao Observador, apontando como problemas mais comuns a ansiedade, dificuldade em dormir, isolamento, problemas em lidar com a falta de trabalho, ou, resumidamente, dificuldades em “retomar, dentro do possível, a sua vida”. “Esse tipo de apoio está previsto no protocolo, e há profissionais treinados para isso”, disse, sublinhando, no entanto, que é preciso colocar estes técnicos especializados no Serviço Nacional de Saúde.

Isto porque o problema maior coloca-se na fase pós fase transitória. Isto é, depois de passados os dois primeiros meses pós-tragédia. Como é que as vítimas vão ser acompanhadas depois? Segundo avançou o Expresso, e confirmou o Observador junto do bastonário, no agrupamento de 14 centros de saúde da região atingida — Agrupamento dos Centros de Saúde de Pinhal Interior Norte — há apenas um psicólogo ao serviço, em permanência.

“Há apenas um psicólogo em permanência naquele agrupamento, e já há oito anos que alertamos os sucessivos governos para que haja um reforço nos cuidados de continuidade”, diz Francisco Miranda Rodrigues ao Observador, sublinhando que é preciso que o acompanhamento se faça com “proximidade”, sendo que isso implica a contratação de mais profissionais no SNS, para aquela região.

Foi nesse sentido que foi feita a proposta ao Ministério da Saúde, mas o bastonário da Ordem dos Psicólogos teme que não haja “recursos financeiros” para isso. De acordo com o Expresso, o Governo está ciente do problema e o pedido de contratação de mais 55 profissionais já foi feito pela Saúde às Finanças, mas a autorização para contratar está parada à espera de resposta da seretaria de Estado do Orçamento.

Francisco Miranda Rodrigues diz que “a proposta colheu interesse e vontade junto do Ministério da Saúde mas falta saber se há capacidade para mobilizar recursos financeiros”. Certo é que estas contratações levam tempo e por isso “devem ser feitas o quanto antes”, para o SNS estar preparado para receber estas pessoas.

“Cuidado na informação divulgada sobre suicídios”

Afirmando não ter informações sobre casos de suicídios ou tentativas concretas de suicídio, no rescaldo da polémica levantada hoje após as declarações do líder do PSD, Pedro Passos Coelho, o bastonário da Ordem dos Psicólogos alertou para o cuidado a ter na divulgação pública de informação “sensível”.

“Trata-se de matéria muito sensível, por isso é preciso muito cuidado na informação pública que é divulgada” sobre suicídios ou tentativas de suicídio, diz ao Observador, sublinhando que esse tipo de informação pode “aumentar o risco de retraumatização ou revitimização”. “Todo o cuidado é pouco”, afirma, lembrando que a Ordem dos Psicólogos e a Direção-Geral de Saúde divulgaram já um guia sobre “Como lidar com um desastre natural”, que se destina não só aos que experienciaram o trauma como aos que estão direta ou indiretamente a lidar com as vítimas.

Paralelamente, a Segurança Social deu conta esta segunda-feira de uma atualização do apoio social que está a ser dado às populações, através do reforço das equipas de técnicos que estão a prestar atendimento e acompanhamento social nos concelhos abrangidos pelos incêndios. Não só em número de técnicos como em área geográfica. As equipas funcionavam nos concelhos de Pedrogão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Ansião, onde haverá um reforço do número de técnicos a partir desta segunda-feira, tendo esse apoio sido alargado ao distrito de Coimbra, às populações de Góis e Pampilhosa da Serra.

Uma vez declarados extintos os incêndios, importa agora ver garantido o atendimento e apoio social de proximidade às vítimas dos incêndios, com maior incidência nas zonas mais afetadas com perda de vidas humanas e de bens pessoais e de subsistência”, lê-se no comunicado enviado pelo Instituto de Segurança Social.

Segundo explica o comunicado, o acompanhamento inclui “atendimento permanente, por marcação e espontâneo”, “avaliação diagnóstica das necessidades, dos danos e das perdas, “acompanhamento regular, sempre que se justificar ou for solicitado, para as situações sinalizadas/a sinalizar”, “avaliação e atribuição de subsídios e prestações sociais e familiares, com apoio no preenchimento de requerimentos”, “visitas domiciliárias, sempre que se justificar em articulação interinstitucional – Saúde, Autarquias, GNR, IPSS, etc”, e “encaminhamento e articulação interinstitucional no âmbito da rede local de intervenção”.

Foi ainda criado um número de telefone específico (300 518 003) para o atendimento e acompanhamento das populações afetadas, assim como uma Linha Nacional de Emergência Social (LNES) – 144 — para quem tenha dificuldade em deslocar-se aos Serviços Locais de Ação Social. Segundo explica o Instituto de Segurança Social em comunicado, o número de telefone é gratuito e funciona 24h por dia, todos os dias do ano. O objetivo é “garantir resposta imediata a situações que necessitem de atuação emergente e urgente no âmbito da proteção social, bem como assegurar a acessibilidade a um posterior encaminhamento e acompanhamento sociais”.